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o quarto rei mago

 

 

Quando comecei a desmontar meu presépio é que percebi não haver escrito uma linha sequer no dia 6, data que tem um significado muito especial para mim, o que fez com que eu escolhesse esse dia para inaugurar o meu blog, como a ofertar um singelo presente para aqueles que ainda conseguem sonhar.

Dia de Reis, seis anos de blog.

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Foi quando uma ideia me assaltou… estarei montando este presépio outra vez?

Depois me aquietei porque hoje tudo me assalta, me confunde, me assusta.

É verdade, ainda me assusto com fatos que a maioria das pessoas já absorveu para suas vidas como sendo natural e, por puro descuido, deixando-me contaminar pelas incertezas, desesperanças, caminhos estranhos aos meus ideais, demorei para sentir a verdadeira energia que necessito emanar para viver (e sobreviver).

E os dias passaram mas não deixaram para trás a importância dessa data para mim.

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Noite, silêncio, chuva lá fora, que molha a alma também.

Meu coração apertado, meus olhos úmidos.

Saudades dos natais da minha infância, do carinho de meu pai, do sorriso de minha mãe, das traquinagens junto aos irmãos, da euforia em levantar-me primeiro para correr aos pés da árvore e abrir os presentes.

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E agora tenho entre os dedos as imagens dos três reis magos.

Fito-os demoradamente.

Observo suas expressões, suas vestimentas, suas oferendas, suas intenções.

Fico tentada a indagá-los se poderiam nos trazer, por mais remoto que seja, algum presente além de ouro (realeza), mirra (imortalidade) e incenso (fé), para este ano que promete ser difícil, de confrontos, dúvidas e muitas incertezas.

Permanecem silenciosos, talvez sem saber o que dizer, o que fazer, o que oferecer além do que já trazem.

Gaspar, em seu manto púrpura, traz os olhos baixos em reverência ao Menino Rei.

Melchior, em seu manto vermelho, tem a cabeça reclinada como a pedir que o abençoe e aceite, simbolizado pelo presente, sua vida.

Baltazar, em seu manto verde, prostra-se diante da Divindade, em respeito ao momento único e pelo privilégio que sente de ali se encontrar.

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Lembrei-me então de Artaban, o quarto rei mago que, por dedicar-se à cura da humanidade, não conseguiu juntar-se aos outros na adoração.

Sei que quem agora me lê sabe que Artaban atrasou-se e não conseguiu sair na mesma caravana e  que posteriormente perdeu-se em vilarejos, entre doentes e famintos que parou para ajudar, conhecedor da medicina que era, sem se dizer do tamanho de seu coração amoroso.

Mas alguns não sabem que, quando achou que poderia deixar que as pessoas se cuidassem por si mesmas, já havia passado 33 anos; porém esse fato não o fez desistir da sua busca; pegou sua matula e partiu à procura do Iluminado.

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Quis o tempo que ele se perdesse novamente no deserto e, sentindo-se já bastante fraco, encontrou um dia com um homem entre as dunas que ofereceu-lhe água.

Quando fitou seu semblante sabia estar na presença divina, dizendo meio zangado, Procurei-O por toda uma vida e só O encontro agora quando estou à beira da morte!?!

Jesus abraçou-o e disse-lhe que já haviam se encontrado sim, em cada pessoa que Artaban curou, cuidou, orientou, amou, deu de beber e comer, agasalhou.

E abraçando-o ternamente, o Mestre Jesus desenhou um sorriso suave no rosto de Artaban, um sorriso que somente se vê na face dos anjos e deixou-o voar livre para as esferas.

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Ajoelhada diante da família sagrada, prometi ao Menino que, para o ano que vem, colocarei uma imagem do quarto rei mago em meu presépio; será difícil encontrar, eu sei, mas tenho um ano inteiro pela frente.

O Menino Rei apenas me sorriu demoradamente.

Olhos brilhantes, bracinhos estendidos como a me pedir colo, como a me dizer para não deixar de carregá-lo dentro de mim.

Depois, com sua voz melodiosa, fez-me lembrar que Artaban é cada um dos que servem altruisticamente à humanidade e à Natureza.

São aqueles que se superam e que, silenciosamente, plantam todos os dias esperanças em cada gesto e, todas as noites, estrelas e sonhos nos corações.

Olhando-me no fundo da alma, o Menino me  pergunta se eu conheço algum Artaban.

Depois, aconchegando-se em meu coração, adormece.

E eu O embalo em mim, como sempre, para sempre.

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É assim que dia 6 de Janeiro tem um significado profundo para mim.

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vô Ico                                                                           foto do neto Pedro N. Falseti
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Depois de 97 anos “Seu” Ico resolveu passear em um jardim ensolarado onde flores encantam os olhos de quem as vê e onde pássaros cantam canções que tocam ao coração. Um jardim que é aberto a todos, mas em momento certo.

Sabia que lá encontraria sua amada Euvira e de seu filho Paulo.

Por certo vão sentar-se em um banco gostoso, à sombra de uma árvore frondosa, contando as novidades mundanas e divinas.

 

“Seu” Ico deixou atrás de si um rastro de lembranças que reavivam neste instante, junto ao amor transbordante que sentia ao reunir filhos, noras e netos ao seu redor.

Sempre observei em seus olhos um brilho intenso que vi somente nos olhos de meu pai; um brilho quase que ingênuo, de uma felicidade plena, mágica.

 

Vamos jogar? era o convite que “Seu” Ico fazia a quem por ele cruzasse.

Lembro-me que uma vez ofereci a ele um baralho novinho em folha, que uma amiga havia me presenteado mandando gravar meu nome em cada carta.

Mas as cartas têm meu nome, “Seu” Ico, eu dizia, Não faz mal, eu aceito, respondia.

Ele ficou muito contente e quando vinha visitar seu filho, meu cunhado, eu perguntava, E aí, “Seu” Ico…está gostando do baralho? ao que ele respondia, Aquele está guardadinho, não deixo ninguém pegar!

 

Lembro-me também de um domingo em que fui almoçar na casa de minha irmã e “Seu” Ico estava lá.

Passado um tempo chamou-me a um canto e disse que ficou sabendo que eu estava morando junto a um companheiro.

E com aquele cuidado de “pai para com a filha” disse-me, Esse moço não é para você; você merece muito mais!

Respeitei sua colocação, mas mostrei-me espantada porque “Seu” Ico nem o conhecia pessoalmente.

Hoje sei que demorei quatro anos para enxergar o que ele enxergou em tão curto tempo.

 

“Seu” Ico, o homem de mãos mágicas, que colocava ossos, nervos e músculos no lugar, num piscar de olhos; nunca estudou anatomia, mas conhecia o corpo humano como ninguém.

E aí, filho, você está bem agora? dizia a um deles, quando colocava sua coluna no lugar.

E não se vangloriava por isso; modesto, demonstrava apenas aquele sorriso de satisfação por ter proporcionado algo de bom a quem quer que precisasse de seus cuidados.

 

Gostava de ganhar presentes e os guardava com carinho.

Gostava das delícias que minha irmã fazia especialmente para ele.

Gostava de cantar e ouvir seus filhos cantando modas de viola, músicas de amor e de saudade.

Gostava de pescar, mas não levava as noras junto; dizia que elas espantavam os peixes de tanto que falavam!

Ah! quase que me esqueço, gostava, não, adorava jogar buraco; as cartas escorriam por seus dedos e ai daquele que ousasse ganhar dele!

 

Tive uma reação atípica no momento em que recebi essa notícia triste.

Costumo parar com a atividade que estou fazendo, concentrando-me em prece.

Pois nesse momento veio à tona as passagens que compartilhei com a família, mas não agi como faço normalmente.

Estranhei-me e tentei entender o por quê. É como se “Seu” Ico não necessitasse de preces, de pedidos, de amparo; sentia-o fazendo parte dos anjos que são amparados por suas próprias asas tão leves, voando diretamente aos céus.

 

Já tarde, deitada no escuro e no silêncio da noite, veio-me uma imagem: a de “Seu” Ico chegando ao céu e, no portal de entrada, com o chapéu na mão, brilho nos olhos, alegria nas faces, encontra com Pedro, contrito, com seu cinturão trazendo várias chaves, inclusive a do céu.

“Seu” Ico sorri docemente e diz a Pedro, Vamos jogar? ao que o santo responde, Agora não posso Ico, estou de plantão, mas encontrará muitos parceiros por aqui! Então dá licença que vou entrar, diz “Seu” Ico, misturando-se entre os anjos, santos e alguns recém chegados como ele.

 

Segunda feira fui com minha amiga até a igreja das almas.

Lá acendi uma vela para ele, mesmo sentindo que “Seu” Ico não precisava.

Mas acendi, somente para que sua luz brilhasse ainda mais.

 

 

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céu estrelado

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Toda vez que Sara via ou ouvia um adulto gritando, brigando, xingando, se atracando; uma criança chorando, apanhando, berrando de dor ou de raiva; um animal sendo estupidamente escorraçado; um idoso maltratado e abandonado como um pacote inútil e pesado.

A cada situação que lhe fazia o ar faltar, o coração saltar do peito, as mãos a não lhe obedecer quando o que mais queria era postá-las em prece, apenas sua mente conseguia se manifestar e implorar, Deus, coloca Tuas mãos e abranda o coração de quem está causando tanta angustia, aflição, tanta dor, por favor, Deus…toma um dia de minha vida em troca da  serenidade e paz de cada um.

 

Quando Sara ouvia a sirene de uma ambulância, de uma viatura de polícia, de bombeiros ou resgates, parava o que estivesse fazendo no momento e pedia, Deus, proteja a todos os que estão envolvidos nesse procedimento, toma um dia de minha vida para que aconteça o melhor a cada um.

 

E assim Sara foi vivendo seus dias, suas angustias, seus temores, suas insônias, esses momentos que a desequilibravam totalmente, mas que conseguia, em forma de energia, doar um pouco de amor para tantos desamores acontecendo na vida.

 

E depois que implorava ao Deus de seu coração, Sara chorava.

Não sabia se de alívio, de dor, de tristeza em ver e sentir a desvalorização a que o ser humano se submete, numa lenta e auto-destruição.

E depois que Sara implorava (toma um dia de minha vida…), Deus se entristecia a também chorava.

 

Um dia encontraram Sara imóvel em sua cama.

O rosto sereno, os cabelos dormindo naquele travesseiro tão alvo, um sorriso nos lábios… sim, parecia um anjo.

Mas… tão nova! o que pode ter acontecido, alguém indagou; outro alguém balbuciou, perplexo diante de tal fato, Deve ter sido o coração…

 

Nenhum deles pôde ouvir a resposta, mas conto à vocês: Deus fez as contas de quantos dias Sara havia ofertado de sua vida e então resolveu aceitar a proposta por três razões.

Para confirmar a grandiosidade, a nobreza e humanidade do coração de Sara.

Por não mais aguentar ver Sara chorar todos os dias, tantas vezes ao dia.

Por querer aquele anjo a seu lado, livre, ajudando-O a levar paz àqueles perdidos em seus próprios, trôpegos e insustentáveis passos.

  

Que as Saras que restam no mundo não sejam todas apenas estrelas, mas que ainda estejam entre nós.

 

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Toutchat

Aonde estás

minha alma de anjo?

Pudera afogar esta saudade

em beijos

carícias

aconchego

Partiste para onde

se sempre perto de mim

te sinto…

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Saudade IV 

 

Parada diante deste mármore negro e gélido, não consigo pensar em nada.

Meus olhos não conseguem desviar-se de teu nome nesta lápide.

Quero olhar para este anjo de bronze que tão bem esculpido foi, mas não consigo.

Imóvel, apenas sinto o vento frio do outono, as folhas correndo pelo chão, como se tempo houvesse para mais algum pedido ou esperança.

Meus olhos se turvam, mas meu coração está em paz.

Teu nome cravado em minha alma tenta mostrar a razão de todos os sentimentos em que me procuro em vão.

 

 

Penso em nada.

Lembro-me de meu mestre que diz, Para se entrar em estado de meditação é preciso que não se pense em nada.

Não consigo; nada, para mim, possui forma, cor, peso, aroma, calor, dor.

Penso em nada.

 

 

Não te trouxe uma flor sequer.

Sei que sempre dizias que flores foram feitas para serem apreciadas, não para serem colhidas e, assim, mortas.

Mas a natureza, generosa, enfeitou este lugar que ainda penso não ser o teu.

Não trouxe nada.

Nenhuma novidade para compartilhar, alguma dúvida a indagar, muitos dos medos a me rondar.

Nada.

 

 

Veio-me um pensamento.

A primeira coisa que nos dão nossos pais ao nascermos é um nome e, depois de trilhado o caminho que nos cabe, tornamo-nos apenas esse nome.

Esculpido em uma pedra.

Acho que é daí que vem aquele adágio, Vamos colocar uma pedra nisso e seguir em frente.

Uma pedra, um nome; será mesmo só isso?

 

 

A tua passagem por minha vida hoje me parece um sonho.

Quando foste embora, adormecemos os dois; tu do lado da tua nova descoberta, eu aqui seguindo ao lado de meus passos, fazendo-me de mansa para brincar de aceitar situações.

Perdas.

Sonhos em vão.

 

 

Tiro a luva da mão direita e atiro um beijo para o teu nome, é apenas o teu nome que ali está, eu sei.

Um beijo de saudade, de carinho, de dor, de vontade de ouvir novamente tua voz, teu riso, tua postura de príncipe que sempre foi.

Deixo que as folhas de outono permaneçam sobre o mármore; já não precisas de adornos porque tu és a própria luz, embora o céu esteja cinzento e comece a chover.

 

 

Abençoe-me, é só o que peço, e olhes sempre e um pouquinho para mim.

Preciso tanto do teu amor para poder prosseguir.

 

 

 

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Debruçada na janela

sinto o tempo

voa o vento

 

No coração

amor incessante

como flor amarela, constante

 

Nos lábios quase selados

teu nome, meu pecado

só meu anjo pôde ouvir

 

Nas asas do tempo

esse amor é assim

sem destino

 

Por isso

saudade

invento

 

 

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Cabocla

Alzira, moça bonita, de olhos verdes penetrantes, cabelos negros e sorriso radiante, foi um anjo de guarda que apareceu em minha vida e de minhas irmãs, quando pequenas.

Acompanhava-nos em viagens, ajudando minha mãe a cuidar de nós com tanto carinho.

Lembro-me de Alzira cantando canções antigas, enquanto escovava nossos cabelos com tanto esmero e paciência.

Todos os domingos, depois de nos arrumar, verificava se estávamos prontas e bonitas para irmos à missa das dez horas com nossos pais.

Alzira, moça prendada, que cozinhava alimentos cheirosos e gostosos, encantou o coração de Chiquinho, o leiteiro que morava na mesma fazenda que ela, a do avô de minhas primas.

Ele, que tinha um coração italiano apaixonado, desde o primeiro dia que a viu nunca mais conseguiu viver sem ter ao lado sua Alzira.

Toda manhã Chiquinho levava leite em casa e, mal entrando pela porta do fundo, quando não a via, ia logo tirando seu chapéu e perguntando, Cadê minha cabocla?

Se ela não o ouvia por estar longe, alguém corria chamá-la e, vindo rápido, lhe sorria como o sol em dia pleno de festa no campo, Meu amor, quer uma xícara de café?

Enquanto ele a bebia, embriagava-se nos olhos de Alzira, trocando sorrisos, silêncios e pequenos carinhos.

Depois ele beijava sua testa, colocava seu chapéu e se ia e Alzira suspirava.

Todo dia era assim, um cafezinho, uma troca de olhares e um suspiro, daquele amor que não se vê mais.

Este pensamento me veio depois de remexer em minha caixa de lembranças, onde encontrei uma foto de mamãe e Alzira com minha irmã Rosa no colo, sentadas em um banco de madeira, no meio de árvores frondosas, por certo em um daqueles passeios gostosos de domingo.

Seu sorriso ali eternizado é lindo, é forte, ao mesmo tempo que terno, repleto de doçura e luz.

Onde andará essa cabocla e seu amor…

Será que hoje já se encontram a visitar minha mãe, fazendo piquenique em alguma estrela?

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