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Posts Tagged ‘anjos’

 

Tudo que vejo à distância parece-me bonito.

Mágico.

Como agora.

Vejo o dia findar nesse tempo marcado por relógios silenciosos.

O sol a despedir-se deste lado do planeta, o das pessoas que não se acham mais, deixa no espaço seu rastro rosa, suave de início, mais forte à medida que se esconde atrás de meus olhos.

E a cidade aos poucos vai se iluminando como se fosse uma imensa árvore de estrelas, como se uma porção delas tivesse caído do céu de uma só vez.

Uma torre se acende, como um indicador divino apontando para coisas do tempo que ainda não sou capaz de enxergar.

Os holofotes do helicóptero que voa sua urgência parecem-me anjos de luz a procurar pelo espaço anjos perdidos.

Entrego-me às sensações, ao perfume que a noite vem trazendo na ponta de seus dedos, distribuindo-o entre as flores do meu pequeno jardim.

Em cada estrela dessa imensa árvore, por trás de cada luz existe pelo menos uma vida, diz meu coração num pulsar esperançoso.

Quem sabe um sonho.

Quem sabe uma brincadeira de criança.

Quem sabe um sono de sonhos.

Quem sabe o aconchego de um abraço.

Quem sabe um doce e ardente beijo.

Quem sabe um poema de amor.

Quem sabe alguém que desesperadamente acredite como eu que, apesar de tantos desatinos irracionais disseminados milimetricamente entre seres racionais,  ainda haja uma chance para recomeçar.

Como o sol que amanhecerá.

Ele sempre retorna.

Somos nós que em dias amargos não conseguimos enxergá-lo, mas ele está lá, sempre estará.

Majestoso e vivo!

 

Quando o devaneio devolve-me à Terra, a noite já se mostra profunda e estranhamente quieta.

Vejo então, acima de minha cabeça, uma lua linda a me sorrir, invadindo e acalentando  esta minha alma.

Cheia e luminosa.

Mágica!

Como agora.

 

 

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Quando a energia elétrica é interrompida, corro ao terraço para cantar com a chuva.

Depois pego o violão e fico brincando com suas cordas, fazendo alguns sons.

Lá maior, lá menor, ré maior, fá sustenido, fora as posições que minha irmã, com seus dedos longos e ágeis, inventou.

 

As lembranças vão surgindo à minha frente como um filme.

Papai cantando e tocando Sertaneja.

Minha irmã Rosa compondo A Ribeirinha.

Nhonhô Cintra, meu avozinho, cantando e tocando O Pé de Jambo, onde todos nós, no refrão, batíamos os pés no chão, cantando: “sai prá lá moleque malcriado e deixe o passarinho bicar sossegado, fazendo isso você não vai pro céu, quem mata passarinho vai pro beleleu”.

 

Como um filme.

Minhas lembranças levam-me em suas asas ligeiras à casa da minha infância.

Mamãe cantando,  Assis rodando o pião a fazer aquele ruído estranho de ventania, João pintando A Abolição e Margarida ocupada em vestir suas bonecas, contando a elas sua história predileta.

 

Quando a energia elétrica do meu bairro se vai é como se eu, de malas já prontas, embarcasse para a cidade dos meus sonhos, dos jardins e bosques floridos e ensolarados, dos bons ares, onde mora meu amigo João, para o qual cantei e toquei tantas canções de amor e dor.

 

Quase perdi o trabalho que estava digitando quando a energia se foi nesta tarde.

Não me importei porque acabara de descobrir que a chuva também é um anjo terno que me  faz reviver.

As lembranças embalaram-me em seus braços e no silêncio que se fez depois.

 

 

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Quer dançar comigo?

… então ele chegava sorrindo até onde eu estava e convidava-me a dançar.

Enquanto a maioria dos casais trazia as mãos entrelaçadas em braços estendidos, ele trazia minha mão encostada em seu peito.

Mas o mais incrível era como segurava minha mão; com firmeza, mas de forma terna, aconchegante, calorosa.

De vez em quando a apertava de leve entre seus dedos, acariciando-a e eu… errava o passo.

Parávamos, ríamos, porque sabíamos que meu coração começara a disparar.

Nos abraçávamos novamente e novamente começávamos a dançar. Lentamente, como se estivéssemos pisando em nuvens, em sonhos, em anjos que não podiam ser despertados.

Sentia em minha mão o pulsar forte do seu coração.

De vez em quando também me  apertava a cintura e eu… errava o passo novamente.

Depois me levava para casa, caminhando de mãos dadas, olhos brilhantes, conversas leves e cheias de sorrisos, sem chance alguma de controlar o saltar dos corações acrobatas.

E, entre um falar e o outro escutar, ele parou de repente, olhou-me intensa e profundamente e então roubou-me um beijo, meu primeiro beijo e eu… bem, eu quase desmaiei e talvez caísse se não fossem aqueles braços fortes a me segurar, com aqueles olhos negros um tanto assustados a me perscrutar.

Entrei em casa sentindo-me um pouco envergonhada (minha mãe haveria de achar graça quando contasse que quase desmaiei!), com o rosto vermelho de tanta emoção.

Não dormi a noite toda, pensando na próxima dança, porque já previa que ele chegaria silencioso, pelas costas, colocaria suas mãos fortes e macias em meus ombros e diria, num sussurro, ao meu ouvido: quer dançar comigo?

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