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Posts Tagged ‘aprendizado’

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Depois de uma longa ausência, volto para iniciar o ano com um fato tocante, na tentativa de abrir este novo ciclo com algo positivo, altruísta, de puro sentimento; é também uma forma terna e profunda de comemorar os cinco anos de existência do meu blog, embora atrasado, que ocorreu na data em que se comemora o Dia de Reis.

Como de um modo geral não vejo nenhuma mudança mais acentuada que seja digna de comentário, então parto para atitudes individuais que, se propagadas, penso e pretendo tocar o coração daqueles que ainda se importam com seus semelhantes, realizando renovações através de suas virtudes, sensibilidade, solidariedade, essência. 

 É o que fez minha amiga Daniela Panebianco nos primeiros dias deste ano que me leva a escrever e a refletir sobre o assunto.

 Mas o que fez Daniela de tão excepcional? poderão estar se perguntando.

Pois é, Daniela é médica veterinária que trabalha diariamente em um órgão da prefeitura (CCZ), fazendo cirurgias em animaizinhos doentes e/ou castrações.

Dia desses chegou até ela uma cachorrinha poodle que seus colegas encontraram em um cemitério, abandonada por alguém ou por algum canil, toda machucada, cega de um olho, problemas de pele e de pelo, completamente mal tratada; enfim, esquivo-me de outros detalhes dolorosos, para amenizar a vergonha que sinto em pertencer à raça dita humana.

A situação da cachorrinha a sensibilizou a tal ponto que adotou-a quase que de imediato; sentiu naquele animalzinho toda a necessidade de um amparo mais de perto, além do carinho tão premente para que essa criaturinha pudesse sentir que nem todo ser humano é bruto, explorador, desumano, corrupto, estúpido e ganancioso, no pior sentido da palavra.

Deu a ela o nome de Nelly e ela já sabe que tem esse nome porque responde com um olhar, reconhecendo a voz de sua dona.

Deu a ela o que de mais terno tem no coração: muito amor, muitos cuidados, toda a atenção que Nelly talvez nunca tenha recebido em toda a sua vida de alguém.

Deu uma casa, conforto, alimento, medicamentos e um companheirinho, Johnny, para brincar.

Nelly é uma criaturinha meiga, suave, quieta, aconchegante.

Ainda é uma cachorrinha que caminha de olhos baixos, devagar, ainda não sabe lamber como forma de carinho, ainda não sabe brincar com bola, correr e latir: o sofrimento ainda lhe pesa nos dias. Talvez esteja assustada com tanta coisa boa que vem recebendo das pessoas ao seu redor.

Mas quando sai na rua demonstra gostar de passear, andando rápido e a tudo farejando com seu apurado olfato; gosta também de comer e de dormir em sua caminha fofa ou nos braços de alguém que lhe faça cafuné.

No final da semana passada Nelly foi para o sítio, ficou solta entre plantas e árvores, passarinhos e tartarugas; arriscou-se até a explorar o território ao redor da casa.

Sentiu o sol e também ouviu a chuva, dormiu em um tapete macio e não acordou assustada porque já descobriu que é amada; sabe que pode dormir porque, quando acordar, o sonho não vai acabar.

 

Fiquei muito honrada quando fui convidada para ser sua madrinha, porque é uma grande oportunidade que tenho de entregar a ela o que de melhor guardo em mim.

Às vezes olho para ela repousada em meus braços e sinto um aperto enorme no peito, imaginando as barbaridades pelas quais possa ter passado, mas tento mudar o pensamento, passando energias saudáveis e todo um carinho que sei Nelly ser merecedora de muito mais.

 

Comentei com Daniela em escrever sobre a Nelly, ao que ela me disse ser tão comum o que ela fez, ” isso acontece todos os dias, há milhares de animaizinhos sem condições nenhuma e abandonados que estão vagando pelas ruas ou sendo recolhidos para adoção”!

Não posso concordar com algumas de suas palavras; se essa atitude fosse comum, não haveria tantos animaizinhos abandonados, mal tratados, explorados pelos canis para reprodução em massa e depois jogados à revelia, como se fossem pacotes ou objetos que não servem mais.

A verdade é que Daniela tem um coração tão bom, uma alma tão sensível, que acha essa uma atitude corriqueira, talvez sem dimensionar totalmente a grandiosidade de sua ação.

Por isso e por tudo que tenho presenciado, eu a admiro e muito, cada vez mais.

 

Se Nelly pudesse falar, com certeza diria “obrigada, Daniela”!

Mas eu posso e digo em seu e em meu nome: obrigada, Daniela, por mais este aprendizado e esta demonstração de Amor.

 

Isto posto, desejo Feliz Ano Novo a todos aqueles que ainda sonham com um mundo melhor.

 

 

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Não há muito que dizer.

Tenho receio de faltar-me palavras.

Sobrar-me o pranto.

Mas quero agradecer a você, querido Raul, a inspiração que teve daquele momento de perdas irreparáveis, um dos mais dolorosos de nossas vidas.

 

Como disse a você, morro a cada palavra.

Mas meu irmão, nosso querido João, e nosso querido Eduardo, hão de nos querer sempre vivos, pulsantes, mesmo que varados de saudades.

 

Infelizmente perdi o contato com a Heloísa, mas guardo na memória e nos sentimentos tudo o que de tão terno e importante fez.

 

Com sua permissão, deixo aqui registrado seu poema, sua sensibilidade e magia que foram tecidas cuidadosamente, como traços de uma planta de arquitetura que você executa com tanta propriedade, eternizando aquele momento de profundo amor e de dilacerante e silencioso aprendizado.

 

 

Las Quatro Mujeres

 

 Houve um tempo, sem tempo para quatro mulheres

minutos seculares de lua trocando o sol

rapidamente, sem diferença de tom

 

Suas vidas não existiram nessas noites claras

zelavam decididas, plantadas todo tempo

com as mãos no tempo que ainda restava

aos dois meninos alegres de overdose

 

Nem o menor ruído passou batido

sussurro algum passou despercebido

entre sopas, lençóis, afagos e poesias,

misteriosas, na mágica alquimia,

faziam dos tufões, ventos macios,

de pesadelos, sonhos de ninar

 

Ai dos maus fluidos que ousassem perturbar,

mesmo distraídos, o sono dos meninos!

mais que depressa elas filtravam sonhos,

Elis, Caetano, Bach e violinos

 

Implacáveis, insurgem contra o tempo,

atrasando os ponteiros insistentes,

num tic tac tenso e incessante,

até parar o tempo por instante

 

Zelavam os lentos pingos transparentes,

que gota a gota desciam correndo,

avidamente, para sumir nos braços,

na rápida esperança de criar mais dias.

 

Se entregaram as quatro sem piscar

ao mais bruto dar e sem nuances

e eles beberam tanto dessa fonte

que impossível foi dar o último trago

 

Um dia os dois travessos decidiram ir

para um lugar que só eles conheciam

e o tempo todo guardaram em segredo

 

Buenos Aires, França ou Maresias?

onde seria esse lugar distante?

de malas prontas, passagens marcadas,

piscando um olho, foram de mansinho

 

Mas indecisos, param de repente,

descem a bagagem e pensam num instante:

como sair do ninho dessas deusas

quatro mutantes, lindas, todas suas

e que ainda trocaram suas vidas pelas deles?

 

Debruçadas no leito a doze mãos,

tocaram um barulhento tango, louco de ternura

Tu me Acostumbraste a afagos e docinhos

e Bel, Marga, Rosa e Helô eles beijaram

 

Embriagados em delírios mil e gargalhadas,

os seis deitaram roucos e exaustos

mas só os dois de fato adormeceram

e delicadamente foram mergulhando

num mar de travesseiros brancos e cambraias

 

Superlotados de mãos, enternecidos

do privilégio de ir em mãos macias

devagarinho, nem sequer deixaram

o som das pálpebras quebrar a luz do dia

 

E sorrindo os dois meninos acenaram

com as mãos brincando leves e macias

mas de verdade mesmo, não se foram,

trapaceando toda despedida

 

Como é possível ir de vez embora

se o tempo todo tinham em suas mãos

quatro mulheres que com seus encantos

tinham o dom de amanhecer a noite escura?

 

                                             Raul Isidoro Pereira

                      Março de 1992

 

 

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