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Posts Tagged ‘avião’

 

o quintal 2

 

E então o menino descobriu o quintal.

Grande, ensolarado.

Na verdade, um campo aberto para correr até cansar.

Um escorrega para sentir um friozinho na barriga.

Um balanço para levá-lo até o céu.

Um pequeno lago para sentir o frescor da água a escorrer-lhe pela alma.

Alguns pequenos frutos para matar sua imensa sede de viver.

.

Não sabia para onde correr primeiro e, por isso, abriu os braços e imitando um avião em voo rasante, percorreu todos os caminhos que se lhe apresentavam pela frente.

A sensação do vento em seu rosto, seus cabelos como asas ao léu, seu corpo a flutuar, seus pés resvalando na grama… tudo o deixava leve como uma ave que voa pela primeira vez depois de uma tempestade.

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Como descobriu o quintal, não sabe dizer.

Não sabe em que momento o vislumbrou, mesmo que de longe fosse.

Não se recorda se havia muro, se havia portão de passagem.

Apenas de uma coisa tinha certeza: não estava cercado com arames farpados.

E foi exatamente isso que o animou a entrar!

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Com cuidado sondou o quintal até aonde sua visão permitia; poderia haver um cachorro bravo escondido em algum canto, por que não?!

Depois sentiu-se mais seguro, mais contente, pensando no que diria se alguém ali encontrasse.

Mas à medida que adentrava o terreno, sentia-se cada vez melhor, como se estivesse em um lugar que já conhecera antes, mas que não se lembrava.

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Não havia ninguém.

Mas sentiu que ali existia vida.

Havia flores nos canteiros, havia lençóis macios dançando nos varais.

Havia música e que peculiar música!

Foi quando viu uma gaiola pendurada à sombra da mangueira.

Dentro dela um pequeno periquito mais verde que amarelo, olhando seus olhinhos negros nos olhos do menino.

Por um instante ficaram calados, se olhando.

Um silêncio de reconhecimento, um silêncio de carinho.

E depois, o periquitinho cantou para ele, saudando-o, dizendo de como era bem vindo!

.

Foi quando sentiu o perfume de café coado naquele instante, naquela pequena casa que vislumbrou escondida atrás de um vasto e fascinante canteiro de tulipas!

E ainda correndo como se avião fosse, chegou à soleira da cozinha.

Pensou se deveria contornar a casa e bater na porta da frente, pois não tinha nenhuma intimidade para ir-se atirando pelos fundos.

Mas pensou, Já que estou aqui, por aqui entrarei… se for convidado, lógico.

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Quando pisou no primeiro degrau, à sua frente surgiu, assim do nada, braços que o abraçaram demoradamente, lábios que o beijaram carinhosamente e um sorriso simples mas verdadeiro, que o menino sentiu vir da alma daquela mulher.

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Hoje ele vai ao quintal quando quer, a qualquer hora.

Para correr, para brincar, para pintar, para admirar e conversar com a avezinha, para sentir o carinho das tulipas entre seus dedos, que está a copiar para cinzelá-las no metal.

Mas há momentos em que fica quietinho, quase que imóvel, sentindo na brisa a magia da vida.

Em tudo.

Em si.

Na mulher.

No quintal.

 

Este quintal é do menino Anizio Silversmith

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Lembranças…

Há lembranças guardadas em gavetas perfumadas que, de tão cheirosas, viram sonhos.

  

Como virou aquele vestido que vovô Cintra deu, o Nhonhô, como carinhosamente gostávamos de chamá-lo.

Cor de gelo com fitas e lacinhos brancos, meias cor de rosa transparentes e sapatinhos de verniz (e a sombra do vovô de chapéu na foto, tirando a foto).

 Para ir à festa, só se for com o vestido que vovô deu; para ir à missa, só se for com o vestido que vovô deu; para passear com as irmãs no jardim, só se for com o vestido que vovô deu!

Mas, minha filha, vão pensar que você só tem essa roupa. Não faz mal, quero colocar o vestido que vovô deu.

Até que crescí e não deu mais, mesmo, para usá-lo.

 

Como virou o passeio na estação, só para ver o trem chegar, o trem partir.

Quando ouvi o apito lá longe, antes mesmo de fazer a curva (porque é que sempre há uma curva antes da chegada?), agarrei nas pernas de meu pai, com medo do barulho, mas fascinada com a enorme e negra e assustadora locomotiva que vinha, como um animal enlouquecido, tão veloz em nossa direção.

O vento e o barulho ensurdecedores que provocou quando chegou, tirou-me a fala, o fôlego.

Ao contrário de seu passo preguiçoso, quando começou a se mover para partir, depois de deixar tantas pessoas com suas malas na plataforma da estação.

Meu pai perguntou se eu havia gostado do passeio e eu dizia que sim com a cabeça, muda de emoção, porque as pessoas sempre me pareciam felizes ao chegar.

  

Como virou a ida ao aeroporto recém aberto, no Mércuri preto e brilhante de meu padrinho Ray.

Não sei se porque eu era ainda muito pequena, mas aquele avião parecia-me enorme, de um azul tão diferente… pousou na pista como se fosse uma libélula gigante vinda de um outro planeta!

Pelas mãos de meu pai e de meu padrinho, consegui chegar bem perto da escadinha, tão perto que pude ver algumas aeromoças, hoje comissárias de bordo.

E quando a libélula levantou voo, fiquei durante toda a noite com olhos sonhadores, imaginando como deveria ser delicioso olhar as nuvens de perto (aeromoça, será que poderia abrir um pouquinho só a janelinha, para eu tocar nas nuvens e nas estrelas?).

Fiquei imaginando pássaros exóticos fazendo ninhos nas nuvens, borboletas voando entre os raios do sol!

 

Lembranças…perfumadas e inesquecíveis.

Para sempre.

 

 

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