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Posts Tagged ‘bilhetes’

 

– Bom dia, amor!

diz baixinho, espreguiçando-se e sorrindo, mesmo que não haja sol, vente, chova e faça muito frio lá fora.

Às vezes falam-se por cartas, bilhetes, recados sutis; acostumaram-se a cuidar um do outro assim, à distância.

Às vezes encontram-se.

Raramente.

Quando acontece, ela quase não fala, tem medo de perder o pouco que tem.

Às vezes um breve aceno e separam-se suas vidas.

Seus medos, suas alegrias, suas angústias, seus sonhos em universos diversos.

Quando Esther se deita, seu último pensamento é somente para ele.

Com um sorriso, às vezes triste, a contagiar-lhe o semblante, sentindo o travesseiro sempre tão aconchegante, seus olhos vão se fechando lentamente, não antes de balbuciar

– Boa noite, amor!

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Me pego lendo-os novamente.

Hoje me parecem apenas palavras.

Ou talvez eu é quem queira que pareçam apenas palavras em folhas soltas de papel.

Senti necessidade de lê-los, um por um, para ver o que ainda me diziam.

Também quis ouvir uma das músicas que eu colocava quando sentia vontade de escrever para você, de você.

Os bilhetes estão à minha frente e parece-me que minha intuição,  acima da batida do meu coração, faz-me pensar que talvez o melhor fosse destruí-los, todos, rasgá-los um por um, libertar as palavras da tinta, do papel, da alma.

Vacilo, não são apenas palavras, eu sei; você me diz em cada uma delas, eu sinto.

Meu gesto sem carinho, meu olhar gelado como um fio afiado de faca, meu coração cicatrizado de ferida de morte me permitem que eu os analise neste momento: brancos, sem exceção; de vários tamanhos, várias dobras, várias gramaturas, porém brancos.

Antes, retinham o perfume de suas mãos; hoje são inodoros.

Soltos, espalhados pela mesa, sem nenhuma ordem, sem datas, o que não faz diferença alguma; minha alma sabe porque, em que tempo e como tudo aconteceu.

E não se esquecerá nunca mais.

Guardará esses momentos para sempre.

Há fatos, penso eu, que deveriam ser apagados porque, por mais que eu me engane, por mais que eu me justifique, sempre constatarei no espelho que aquela minúscula marca, porém profunda, aquela lampadinha queimada lá no fundo dos meus olhos aconteceu.

E não há possibilidades de restituição, de troca.

Assim permanecerá.

A vida é assim, um banco de lâmpadas, vão se apagando uma por uma, de diversas formas.

Em silêncio, em curto circuito ou até mesmo no escuro, quando pensa estar apagada apenas para repousar.

Até que não sobre mais uma sequer.

E mais esta se queimou.

Estourando ruidosamente, deixou pequenos cacos espalhados nas mãos, na garganta, nos olhos, na boca.

Cacos assim tão pequenos, impossíveis de serem recolhidos, varridos, encontrados aqui ou ali, debaixo daquele sorriso ou daquele gesto que ficou incompleto, retido no ar.

Toda essa dor e todo esse desconforto fazem parte do viver?

O amor que senti por você, que explodiu e evaporou no ar como um balão atingido por um dos cacos, foi um dos sentimentos mais lindos que já vivi em minha vida.

E recordá-lo me basta, me é o suficiente para saber que felicidades são pequenos momentos que às vezes demoramos vidas e vidas para refazê-los, ainda que adormecidos em nossas lembranças.

                                                       Primavera de 1983

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