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Posts Tagged ‘bondade’

Violeta

 

 

Hoje vi uma violeta chorar.

Meu coração ficou apertado pelo seu sofrer.

Já não parecia uma violeta e sim, um passarinho sem rumo, a estranhar seu próprio ninho.

 

Entre uma lágrima e outra, ouvi seu pipilar de dor, pela ingratidão de alguma palavra mal colocada, quando às vezes as pessoas pecam tanto por falar antes de escutar.

Tentei abrandar seu ferimento com outras palavras e com o cuidado que devemos ter com as flores do jardim de nossas vidas.

 

Quando a deixei, Violeta não era mais um passarinho; já havia retomado sua condição de violeta, bonita, iluminada e vívida com sua sabedoria adquirida através de sorrisos e também alguns espinhos.

 

Mas… – alguém me diria – violeta não tem espinhos!!!

Ao que eu responderia, É por isso que Violeta, depois de lavar seu rosto e tomar uma água fresca e límpida, consegue desenhar um lindo sorriso no rosto, voltando a brilhar.

 

 

Escrevi estas palavras para minha mais nova amiga, Violeta Inês Pinto de Oliveira, uma pessoa que vou conhecendo aos poucos, mas que sinto trazer no coração tanta bondade, delicadeza e alegria de viver.

E o tempo não é nada quando comparado ao que recebo de algumas pessoas como ela.

 

 

 

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vô Ico                                                                           foto do neto Pedro N. Falseti
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Depois de 97 anos “Seu” Ico resolveu passear em um jardim ensolarado onde flores encantam os olhos de quem as vê e onde pássaros cantam canções que tocam ao coração. Um jardim que é aberto a todos, mas em momento certo.

Sabia que lá encontraria sua amada Euvira e de seu filho Paulo.

Por certo vão sentar-se em um banco gostoso, à sombra de uma árvore frondosa, contando as novidades mundanas e divinas.

 

“Seu” Ico deixou atrás de si um rastro de lembranças que reavivam neste instante, junto ao amor transbordante que sentia ao reunir filhos, noras e netos ao seu redor.

Sempre observei em seus olhos um brilho intenso que vi somente nos olhos de meu pai; um brilho quase que ingênuo, de uma felicidade plena, mágica.

 

Vamos jogar? era o convite que “Seu” Ico fazia a quem por ele cruzasse.

Lembro-me que uma vez ofereci a ele um baralho novinho em folha, que uma amiga havia me presenteado mandando gravar meu nome em cada carta.

Mas as cartas têm meu nome, “Seu” Ico, eu dizia, Não faz mal, eu aceito, respondia.

Ele ficou muito contente e quando vinha visitar seu filho, meu cunhado, eu perguntava, E aí, “Seu” Ico…está gostando do baralho? ao que ele respondia, Aquele está guardadinho, não deixo ninguém pegar!

 

Lembro-me também de um domingo em que fui almoçar na casa de minha irmã e “Seu” Ico estava lá.

Passado um tempo chamou-me a um canto e disse que ficou sabendo que eu estava morando junto a um companheiro.

E com aquele cuidado de “pai para com a filha” disse-me, Esse moço não é para você; você merece muito mais!

Respeitei sua colocação, mas mostrei-me espantada porque “Seu” Ico nem o conhecia pessoalmente.

Hoje sei que demorei quatro anos para enxergar o que ele enxergou em tão curto tempo.

 

“Seu” Ico, o homem de mãos mágicas, que colocava ossos, nervos e músculos no lugar, num piscar de olhos; nunca estudou anatomia, mas conhecia o corpo humano como ninguém.

E aí, filho, você está bem agora? dizia a um deles, quando colocava sua coluna no lugar.

E não se vangloriava por isso; modesto, demonstrava apenas aquele sorriso de satisfação por ter proporcionado algo de bom a quem quer que precisasse de seus cuidados.

 

Gostava de ganhar presentes e os guardava com carinho.

Gostava das delícias que minha irmã fazia especialmente para ele.

Gostava de cantar e ouvir seus filhos cantando modas de viola, músicas de amor e de saudade.

Gostava de pescar, mas não levava as noras junto; dizia que elas espantavam os peixes de tanto que falavam!

Ah! quase que me esqueço, gostava, não, adorava jogar buraco; as cartas escorriam por seus dedos e ai daquele que ousasse ganhar dele!

 

Tive uma reação atípica no momento em que recebi essa notícia triste.

Costumo parar com a atividade que estou fazendo, concentrando-me em prece.

Pois nesse momento veio à tona as passagens que compartilhei com a família, mas não agi como faço normalmente.

Estranhei-me e tentei entender o por quê. É como se “Seu” Ico não necessitasse de preces, de pedidos, de amparo; sentia-o fazendo parte dos anjos que são amparados por suas próprias asas tão leves, voando diretamente aos céus.

 

Já tarde, deitada no escuro e no silêncio da noite, veio-me uma imagem: a de “Seu” Ico chegando ao céu e, no portal de entrada, com o chapéu na mão, brilho nos olhos, alegria nas faces, encontra com Pedro, contrito, com seu cinturão trazendo várias chaves, inclusive a do céu.

“Seu” Ico sorri docemente e diz a Pedro, Vamos jogar? ao que o santo responde, Agora não posso Ico, estou de plantão, mas encontrará muitos parceiros por aqui! Então dá licença que vou entrar, diz “Seu” Ico, misturando-se entre os anjos, santos e alguns recém chegados como ele.

 

Segunda feira fui com minha amiga até a igreja das almas.

Lá acendi uma vela para ele, mesmo sentindo que “Seu” Ico não precisava.

Mas acendi, somente para que sua luz brilhasse ainda mais.

 

 

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