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Posts Tagged ‘carinho’

casal

 

 

A primeira vez que aqui cheguei, a venda funcionava sob o pulso de Seu Jacinto.

Dona Clotilde garantia o almoço de seu marido, Vem almoçar, moooor! e dos homens simples mas de braços fortes que por ali trabalhavam; Faço qualquer coisa, Dona, mas só trabalho honesto!

Da segunda vez, faltou o carinho e cuidados das mãos mágicas de Dona Clotilde.

Seu Jacinto e os moços simples, de braços fortes e bronzeados, almoçavam e jantavam e bebiam no boteco da esquina pintado de azul e amarelo; dizia o dono que para alegrar a vila.

Da terceira vez que me descambei para cá, Seu Jacinto já dormia com Dona Clotilde ao pé da mangueira cinquentenária aquele sono que ninguém mais pode acordar.

Naquele mesmo lugar onde se beijaram pela primeira vez, na noite de Santo Antonio, enquanto os outros, distraídos que estavam, pulavam a fogueira e nada viram.

Foi uma festa linda o funeral de Seu Jacinto, contaram-me os moços simples, de braços fortes, bronzeados e suarentos.

Foi do jeito que ele pediu quando se sentou em sua cadeira de balanço, no meio da noite e do quintal, onde tremeluzia apenas uma lamparina na soleira da porta.

Indo e vindo, indo e vindo, lentamente no balançar da cadeira e do tempo, olhou para o céu, tirou o chapéu, distraído fingiu que reparava nas unhas; depois olhou para aquela estrela que brilhava lá no fundo da paisagem e murmurou para seu coração, Já vou, mulher, já vou! Acaba de fazer a sopa de mandioquinha que eu já tô indo!

E aqueles moços simples, de braços fortes, bronzeados, suarentos e saudade no coração, disfarçadamente enxugaram uma lágrima.

Só Tonico chorou copiosamente, como se criança fosse.

E por causa desse pranto sem fim, continuei vindo para cá almoçar, conversar e beber no boteco da esquina com o Tonico e seus amigos, esses moços simples, de braços fortes, bronzeados, suarentos e de brilho intenso no olhar.

Só por isso.

 

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É um periquitinho australiano (verdinho como alface americana) que habita minha casa desde 16 de Abril.

Minha vizinha, Maria Lúcia, uma senhorinha de 94 anos e que tinha uma vida bastante ativa (ia a restaurantes todos os dias, fazia aulas de pintura e de modelagem em cerâmica, adorava teatro, concertos e cinema) foi internada antes da Páscoa porque um dia resolveu não se alimentar mais.

Simplesmente.

Como ficou mais de um mês hospitalizada, me ofereci para cuidar de seu periquitinho.

Depois de um tempo, quando ela voltou para casa, a cuidadora e a enfermeira procuravam alguém que quisesse ficar com o bichinho.

Foi quando me ofereci mais uma vez (pois já havia um laço de amor entre nós) e assim, Plin, nome dado pela Maria Lúcia, veio alegrar e enfeitar minha casa.

Ou melhor, veio modificar a rotina de minha vida.

Plin (eu o chamo de Plingo) acorda entre 6:45 e 7:00hs

Converso um pouquinho com ele e, já bem acordado, canta por uns bons minutos, como se estivesse me contanto o sonho que teve.

Depois vai se alimentar (seu café da manhã) quando recebe sua comidinha e sua água fresca e limpinha.

Após eu higienizar sua casinha, entre 10:30 e 11:00hs Plingo toma banho e como é bom vê-lo brincando na e com a água.

Corro pegar o celular para filmá-lo, mas eis que já saiu da água e só vai voltar para ela quando eu virar as costas, como se estivesse a zombar de mim.

Adora música, principalmente baladas e blues, além de canções nas vozes das divas do jazz.

Quando vou regar as plantas do terraço deixo-o por perto para ver e ouvir a água jorrando da mangueira.

É quando enlouquece de tanto cantar e só fica mais eufórico quando as maritacas (suas parentes) vêem cantar em cima do telhado pela manhã e à hora do por do sol.

É uma festa e eu me delicio com toda essa algazarra!

Já conheço seus piadinhos de fome, de susto, de chamamento, de alegria e de carinho.

Digo de carinho porque ensinei-o a dar beijinho, apesar de que dia desses eu me descuidei e ele me deu uma valente bicada no queixo.

Estou tentando familiarizá-lo com minhas mãos para que futuramente venha sentar-se em meus dedos, mas ele ainda não confia em mim.

Dorme às 19:00hs e depois desse horário é proibido transitar no escritório (dorme lá nas noites de frio).

Antes de deitar-me vou espiá-lo e lá está ele, agachadinho no poleiro, parecendo uma bolinha estufada de penas, com a cabecinha enfiada debaixo de sua asinha.

Comprei uma gaiola linda, clara e grande; coloquei um galho seco dentro para diferenciar e proporcionar outros lugares para ele passear, além de uma ótima alimentação e muitas frutinhas.

Na verdade, me corta o coração em vê-lo preso na gaiola, embora saiba que se eu soltá-lo, não saberá voar alto e tão pouco procurar alimento (tenho esperanças de um dia poder soltá-lo, que seja, pela sala).

Ouvindo seu gorjeio tão gostoso e constante, vem-me um pensamento (não querendo justificar esse cativeiro) de que todos nós estamos presos de uma certa forma, em gaiolas invisíveis que nos limitam uma maior expansão, dominados que ainda somos por ignorarmos nosso próprio potencial; e assim, nos debatemos e muitas vezes até chegamos a nos ferir e a ferir os outros.

Como meu Plingo, não temos asas podadas, mas não sabemos ainda o que fazer com elas ou o quão alto podemos alçar nosso vôo.

Perdoe-me leitor, por tomar seu tempo; a quem é que pode interessar a rotina de um periquito senão à mim, que estou apaixonada por ele?

Bom… com licença que agora é hora d’eu cantar para o Plin dormir; não sei muitas canções de ninar, mas canto bem baixinho, baixinho mesmo.

É uma hora mágica esta, porque é uma forma d’eu externar meu amor por ele e de mostrar que no meu coração não há grades, mas apenas gratidão pela alegria que ele me proporciona com sua existência.

– Boa noite, Plingo, meu pedacinho de Deus!

 

 

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Maria M1

 

 

 

Mestre

aqui estou a teus pés

.

Peço-te a benção

daqueles que  procuram

o Conhecimento

mas que tão imperfeitos ainda são

.

Peço-te a benevolência

para que me faças  enxergar

a Luz e nela me banhar

de corpo e sentimentos

.

Peço-te a tolerância

pelas palavras mal ditas

até que eu possa entendê-las

e evitá-las

.

Peço-te a paciência

pelos atos ainda imaturos

pela falta de jeito

em lidar com as dificuldades

.

Peço-te o carinho

para que meu coração se abrande

diante da ignorância alheia

por vezes maior do que a que me habita

.

Mestre

aqui estou a teus pés

simplesmente para te dizer

do meu Amor

 

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livro antigo

 

 

Encontrei

na ponta do guardanapo

além de teu perfume

a marca de tua boca

a sorrir-me chocolate

 

Procurei no aroma daquela tarde

alaranjada de outono

o brilho de teus olhos

o de reconhecimento

o de desejo

 

Resvalando o guardanapo em meu rosto

pressenti o toque

de tuas mãos em um carinho

que ainda não me fizestes

mas que paira suspenso no ar 

à espera apenas de tua vontade

apenas isto

 

Foi quando senti teu abraço

como um laço

a abrigar-me das coisas

que de mim não fazem parte

 

Beijei tua boca de chocolate

e naquele guardanapo

também deixei minha marca

como um sussurro

um segredo

 

Guardei-o entre as páginas

de um livro de mágicas

teu nome

meu nome

uma data

 

Desde então lá estamos

ora conversando

ora adormecidos

 

 

 

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mãe de giz

.

Minha irmã Margarida me enviou esta imagem.

No dia das mães eu gostaria de fazer esse desenho, disse-me ela.

Emocionei-me.

Eu que sempre tive mãe presente em tantos anos de minha vida, convivendo nossas harmonias e cumplicidades, sempre recebendo em meus cabelos seus afagos, em meus olhos seu luminoso sorriso;

Eu que sempre fui tratada de forma especial quando ardia em febre e também especial quando corria, feliz, pelos jardins de minha infância;

Eu que sempre ouvi palavras de conforto, de conscientização, de responsabilidade, de estreitos abraços de pura ternura;

Eu que sempre soube o que é ser amada por uma mãe;

Eu que continuo a reviver tantas lembranças e sentimentos inesquecíveis;

Eu que com tanto amor convivi, não sei avaliar essa dor retratada nessa imagem.

Emocionei-me.

Doeu tanto e tão fundo que só um pensamento que me veio à mente pôde amenizar toda essa solidão: o de minha mãe presente entre nós no dia de hoje, para que ela, com certeza, pudesse acalentar essa criança em seus braços, beijar seu cabelos e chamá-la de filha.

Abraçaria também sua pequena Margarida e todos nós, seus filhos, transmitindo-nos o calor de sua vida nesse gesto de amor.

Mas por certo, lá da estrela onde moram as mães que habitam a outra dimensão, a mãe dessa menina e também a nossa mãe estarão, neste momento, beijando-nos o coração.

 

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OLYMPUS DIGITAL CAMERA

.

Há tanto o que lembrar… da infância, da mocidade, da fase adulta.

Há tanto o que contar… tudo borbulha como se fosse urgente o tempo de recordar momentos de uma só vez.

E com as lembranças emergem as vozes e sorrisos de nossas mães (Anámaria, Anámaria, onde está você? dizia sua mãe); das brincadeiras de teatrinho que fazíamos, das músicas que cantávamos (você nos fazia chorar com a canção do Pobre Peregrino); dos namoradinhos e bailes de gala, onde íamos desfilar nossas alegrias; de nossos passeios pelos jardins de minha cidade, quando você ia passar suas férias levando em sua bagagem as novidades da capital.

Me vem à mente neste instante, uma lembrança tão remota de quando, em sua casa ainda lá na Pires da Mota, vi pela primeira vez uma propaganda do Toddy na televisão e, no intervalo, corremos para a cozinha para fazer o nosso, batido no liquidificador, conforme orientação de seu irmão Roberto.

.

No entanto, neste momento, nenhuma palavra reflete meu sentimento presente.

Achei que o silêncio seria a forma mais absoluta de ainda tê-la por perto, posto que o fato tão drástico pegou a todos nós de forma tão brusca, traiçoeira, porém inevitável.

Já trazia em mim o silêncio de uma perda há três dias, agora acrescentada de mais esta.

Semana de desolação e tristeza.

Por isso, calei e profundamente senti aquela dor que sente somente aqueles que, esperançosos de um tempo melhor, não têm a chance da presença, da palavra reconfortante, do sorriso último.

Mas ontem, prima querida, fiquei a me interrogar se era você mesma quem vi sentada à nossa frente a sorrir e (veja só!) com seu alicatinho de cutícula nas mãos, a cutucar os dedos?! levava-os à boca e sorria para nós.

Foi você mesma quem vi envolvida por nossos sentimentos de amor e luz, no centro daquele templo, onde estávamos reunidos na sua presença de paz e de certeza do caminho que traçou para seus pés?

Junto à música ouvi seu riso, sua voz a alcançar notas tão altas, afinada como sempre foi, como um pássaro maravilhado pela luz de sua própria natureza.

Foi você mesma, querida Ana, sei que sim!

Da mesma forma que há décadas atrás comigo conversou e que, pela primeira vez, me fez pensar em buscar a espiritualidade dos e nos fatos, das e nas pessoas e, em mim mesma.

Você me incentivou e ajudou a descerrar o primeiro véu; foi quando a vida começou a me parecer outra, mais profunda, com um sentido mais intrínseco que até hoje busco entender, assimilar e nele me situar.

Aqui, diante desta rosa, símbolo de sua alma, eu a reverencio pela pessoa incrivelmente linda e doce, batalhadora e persistente, alegre a altruísta que foi, como lembrou nossa prima Marcela de que você, querida Ana, sorria pelos olhos.

Mas eu a reverencio principalmente por ter, um dia, me tomado pelas mãos e mostrado que a vida é muito mais do que vemos, do que sentimos e entendemos; que a vida é maior e melhor quando mergulhamos nas buscas, abandonando a superfície, descobrindo na interioridade a diferença entre estar e ser.

Nossos telefonemas cessam; não ouvirei mais sua voz suave, sua risada, seus anseios, seus estímulos e também suas dúvidas, mas nossa comunicação permanecerá, talvez agora por sonhos ou de alguma outra forma.

Você atingiu seu ponto de breve descanso, enquanto sigo pelos meandros do caminho que escolhi, trazendo a certeza de que em nenhum momento você esteve só, como não está agora e nunca estará.

Há tanto o que lembrar… minhas irmãs e primas contariam outras passagens, mais engraçadas, divertidas, porque você imprimiu marcas diferentes em diferentes pessoas.

Há tanto o que contar… quem sabe um outro dia; hoje quero simplesmente falar do meu profundo amor por você.

Vai em Paz, querida prima, que tudo está feito.

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h e m.

Porque choras, criança?

carregas em teus gestos

uma porção de coisas cheias de dor

 

Deixa que eu te embale em meus braços

nestes braços que nunca estreitou um filho

mas que sabem se fazer de carinhos

 

Olha para mim, criança

vês que mesmo tendo os olhos marejados

coração flechado

é possível se sonhar

 

Deixa que eu toque em teu corpo

beije teus cabelos

afague tua alma

 

Se preciso for, choro contigo

se preciso for, morro contigo

se preciso for, sempre contigo

 

Deixa que seja preciso, criança

prometo depois de amá-lo

adormecê-lo em paz

 

 

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