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Posts Tagged ‘casa de orgiem’

Desde o primeiro dia que se entendeu como um dos milhões de fragmentos do Universo, Azura começou a olhar mais para o céu que para a terra.

Passou a conhecer todas as fases da lua e todas as rotas do sol no decorrer das estações.

Sentia as mudanças na pele quando fechava os olhos… o movimento dos ventos, os aromas que eram trazidos, os ruídos quase que inaudíveis…

À noite fixava seus olhos nas constelações que via e o pensamento nas que não via, estudando-as com uma tenacidade que ela mesma não sabia explicar.

Depois de alguns outonos concluiu sua busca e só então escolheu uma delas para sua morada de origem; escolheu a menor estrela da constelação de Bezu.

Pelo simples prazer de poder olhar para ela e dizer Eu vim de lá!

 

Azura sentia-se feliz com pequenos sonhos, imagens, pensamentos noturnos como os voos luminosos e silenciosos dos anjos.

Não que se achasse também uma estrela, mas sentia-se diferente, visitante.

 

E por assim ser, Azura vivia quase que em conflito constante com seu ambiente; se não fosse seus sonhos, o elo se romperia, acordaria em outro espelho, sabia.

Refugiava-se então no estábulo, para buscar nas alturas sua pequena Bezu que brilhava magnífica, principalmente quando Azura a envolvia com seus olhos serenos, profundos, molhados.

 

Querendo entender um pouco mais de si mesma, um dia Azura resolveu visitar uma eremita que vivia no alto de uma montanha, a mais afastada da cidade.

E pediu a ela que fizesse seu mapa astral.

 

A velha senhora, em silêncio, traçou coordenadas, acrescentou datas e diagnosticou quase que de imediato, uma viagem para Azura.

Só não entendia a presença daquele tridente de Netuno no mapa, alí,  solto, sem sentido algum.

Pediu a Azura que voltasse no dia seguinte; assim poderia estudar com mais cautela e precisão o traçado astral daquela frágil criatura.

 

Azura, mesmo sem voltar com seu mapa nas mãos, sentiu-se subitamente mais leve, quase feliz, enquanto descia aquele caminho ora florido, ora pedregoso, lembrando-se de que, quando aprendeu a ouvir seu anjo guardião, aprendeu também a conversar com as pedras…

 

Naquela tarde Azura sentiu-se atraída para o estábulo sem entender bem a razão, visto que gostava de lá ficar mais à noite, junto ao silêncio.

Então escovou sua égua Prateada e a ela também deu de beber e comer, quando lá de cima, de súbito e do nada, despencou em sua direção aquele forcado imenso e pesado de pegar feno, como o tridente de Netuno.

 

Cravou-se em seu coração.

Seus olhos ainda puderam vislumbrar a noite que lá fora já acontecia.

Sua alma sorrindo, liberta, repetia baixinho Bezu pequena, és minha casa! Estou voltando… estou voltando…

 

No dia seguinte a velha senhora sabia que Azura não viria.

 

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