Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘chuva’

janela-da-menina

 

 

Ela o vê da janela de sua sala.

Ele deve ser desses executivos modernos que montam seus escritórios e trabalham em casa.

Um homem feito, com seus cinquenta e cinco ou sete anos, cabelos vastos e brilhantes, costa larga e sempre bem vestido.

Debruçado entre papéis, desenhos e computador.

.

Um dia ela escondeu-se atrás da cortina e, com seu binóculo, investigou primeiro seu perfil italiano e, depois, sua mesa de trabalho; foi quando deduziu que ele ou é engenheiro ou arquiteto.

Ficou com a segunda opção, lembrando-se de que engenheiros permanecem mais nas obras.

Sempre o vê ocupado quando, à noite, fecha as janelas, as cortinas e vai se deitar.

.

Outro dia, quando cuidava das plantas do terraço e parou um pouco para fitar o horizonte, seu olhar foi atraído para a janela dele e (que interessante!) sentiu feliz em vê-lo relaxado na cadeira, pés sem sapatos em cima da mesa, a gargalhar no celular.

Foi quando descobriu que, junto à sua curiosidade, existia também o sentimento de cuidado por ele… É, ele trabalha demais – concluiu ela – nunca vejo essa cadeira vazia, esse computador desligado…

.

Mas em um dia que chovia muito, tanto que parecia pairar no ar uma névoa, ela debruçou-se na janela para colher algumas gotas de chuva nas mãos, agradecendo o alimento da Natureza a purificar o ar e a alma… foi quando o viu, parecendo inerte, fitando a tela do computador.

Assim ficou por alguns instantes; depois levou as mãos ao rosto, como se estivesse perplexo com o que via.

Para aflição dela, viu que ele começava a chorar, evoluindo para o soluçar e depois para o pranto compulsivo.

O que fazer? Como ajudar sem se entregar, pois teria que contar que o observava e o admirava à distância?

Não importa, precisava fazer alguma coisa.

Valeu-se do binóculo novamente, tentando focalizar alguma informação na tela do computador.

Nada!

Tentou achar um telefone fixo sobre a mesa; poderia fazer uma pesquisa rápida na  internet e localizar a linha.

Nada!

Atravessar a rua e ir até o prédio, nem pensar!

Não sabia o nome dele e, mesmo que soubesse, ele não sabia o seu, nem sabia que ela existia!

.

Sua angústia foi crescendo, pela impotência e incapacidade em ajudá-lo a reverter esse momento de tristeza em um pouco de serenidade que fosse.

Resolveu sair para pensar melhor, sem antes dar uma outra olhadela pela janela.

Surpreendeu-se ao ver a cadeira vazia.

Onde teria ido? O que estava fazendo?

Sua imaginação correu solta entre portais, infelizmente pensando no pior.

Precisava sair, tomar ar puro (ar puro?) ver pessoas, tomar chuva…

.

Embora fosse a primeira vez que usasse seu guarda chuva vermelho (que lindo vê-lo em meio a coisas e pessoas tão cinzas), resolveu andar sem rumo, procurando dentro de si uma resposta, uma atitude, uma ação (ai que aflição!).

Foi quando parou em uma padaria para tomar café, talvez um cappuccino até a borda de chocolate, para saciar sua tristeza.

Sentou-se no balcão (nunca fazia isso) ao lado de um homem que, vendo-a só, logo puxou conversa, bobagens que se fala à revelia, sem muito pensar.

Ela surpreendeu-se com sua educação e sua inteligência que ia ficando notória conforme a conversa se desenrolava.

.

Mas logo voltou a pensar no vizinho de janela.

Despediu, desculpando-se, e como ele também fosse para o mesmo lado, caminharam lado a lado.

Aonde você mora? – perguntou ele – É mesmo? Eu também! A que altura? Olha só, eu também! No prédio de pastilhas em frente ao meu?

Foi quando ela prestou melhor atenção em sua fisionomia e viu, andando a seu lado, aquele perfil italiano esquadrinhado na moldura da janela.

.

Toda manhã o celular toca e quando isso acontece, ela corre para a janela para vê-lo e ouvi-lo a dizer: Bom dia, minha flor!

Ao que ela responde, sorrindo: Bom dia, meu sol!

.

.

Ah! ia me esquecendo: Raul é arquiteto mesmo!

 

 

Anúncios

Read Full Post »

Templo

vermelho e branco

Quando a rubra moça

saiu da igreja

chovia

breviário junto ao peito

olhos baixos

apenas o farfalhar da saia

em volta do corpo ouvia

 

Chovia no tempo

nas incertezas

dos pensamentos sensações

dos passos a dar

 

Sabia que seu templo

ruiria ao mais brando vento

areia movediça

malícia

 

Mas o rapaz é tão doce

cabelos como de anjos

brilhantes como sol a pino

de mãos suaves e mornas

não consegue deixar de fitá-lo

 

 

Pensou com assombro,

Deus é injusto comigo

como pode querer para seus serviços

somente para seus serviços

esse anjo que por certo

no silêncio da noite

despe suas asas

e dorme nu

 

A rubra moça tropeça numa poça d’água

molha os pés molha as roupas

molha os olhos

molha-se nas imaginações…

imediatamente se redimi,

Perdão, Senhor

 

 

Read Full Post »

A chuva turva a visão

molha as hortênsias que brotam tardias

no jardim

 

Assalta-me tua imagem

através dos raios que riscam o tempo

e minha alma

 

Com ternura e tristeza

lembro-me da nossa alegria

do jeito de ser

 

Nós não falávamos

apenas sorríamos um para o outro

lembra-se?

 

De mãos dadas rindo na chuva

tudo bastava

viver era tão cristalino

 

  

Read Full Post »

 

Esperei por você a três dias e três noites da data conforme combinamos.

No primeiro dia choveu pela manhã e os carros que passavam rente à calçada respingaram alguma água da poça no meu casaco, aquele que comprei somente para ir encontrá-lo.

Mas não liguei porque estava tão feliz… um pouco ansiosa,  é verdade.

À noite vi na curva daquela rua que não sei por que me parece tão familiar, aquele ônibus antigo, de um verde que não se vê mais.

Parando no ponto, senhoras com chapéus um tanto exagerados desceram e também senhores de bengalas com cabos de prata e anéis de doutor a exibirem nos anulares.

Como sabemos você não veio, senão não estaria escrevendo neste instante, correndo o risco de minha carta não encontrá-lo caso você tivesse resolvido vir ao meu encontro.

 

No segundo dia o céu estava muito limpo e não sei por que me senti mais leve; na verdade senti sua aproximação, como se lá na esquina você já estivesse.

Pedi para um garoto comprar um lanche, receando deixar a parada de ônibus justo no momento em que você pudesse chegar.

Meio penalizado, o garoto me fez companhia enquanto eu comia, contando-me uma história que não entendi muito bem, do irmão que se alistou na marinha sem sequer saber nadar.

À noite abriguei-me debaixo da cobertura do ponto e como movimento não houvesse, pude até deitar-me no banco, esticando minhas pernas um pouco cansadas.

A barra do meu casaco já havia secado, embora tenha ficado suja.

 

No terceiro dia o sol chegou cedo, os trabalhadores também.

Alguns, já me reconhecendo, cumprimentaram-me.

Quando outro ônibus verde e antigo virou a esquina, dei um salto do banco, um jeito nos cabelos, um batom nos lábios e lembrei-me de colocar no rosto o mais doce sorriso que sabia dar.

Desta vez não desceram senhoras, senhoritas ou senhores.

Muitas crianças fazendo algazarra, desenhando gestos rápidos no ar.

Esperei até o último passageiro e nada de você.

Será que me enganei na data, no mês?

Será que aconteceu algo a você que não sei?

Será que no meio da viagem você desceu erroneamente em outra cidade?

Ou será que você desistiu…

As interrogações eram tantas que, para que não me atrapalhassem os passos, foi necessário guardá-las nos bolsos de fora e de dentro do casaco.

As que sobraram guardei-as na bolsa e em meu coração só couberam as reticências.

À noite pensei em dar uma corrida até uma cabine telefônica para ligar para sua casa, mas além de correr novo risco de você chegar e não me encontrar era quase certo que ninguém atenderia.

 

No quarto dia desisti.

Já não me sobravam energias, nem alegrias e nem esperanças.

Mas mesmo assim passei pelo correio para, quem sabe, pegar algum telegrama.

Nada.

Cheguei em casa e, de cansada, deitei no sofá e adormeci de roupa e tudo, e tudo significa de sapatos também, como dormem os mortos.

Depois de despertar meio assustada, tomei um banho demorado como quem lava mais uma vez a alma e resolvi escrever para você, querido meu.

 

Nesta altura dos acontecimentos, já não sei mais se gostaria de ter notícias.

Amanhã levarei meu casaco na lavanderia e quem sabe, por acaso, dê uma passada no ponto de ônibus.

Quem sabe no correio também.

Quem sabe.

Quem sabe eu vá embora, assim como fez você, mas não para tentar encontrá-lo e sim, para continuar a viver, visto que o que me resta é apenas a vida.

Mando-lhe um beijo que já não é mais saudoso; apenas um beijo, querido, que acho que também não posso mais chamá-lo de querido meu.

Mandei o garoto levar seu guarda chuva e deixar lá no ponto do ônibus.

Talvez, caso você venha, possa estar chovendo.

E depois de ler esta carta, na sua vida também.

 

   

Read Full Post »

Saudade III

Não demores tanto

Morro-me um pouco a cada instante

                                                                                                 

Read Full Post »

Esperança

Outrora

no campo onde a criança brincava brinquedos

com a chuva torrencial

brotaram do solo cacos de vidro

resolutos

 

Onde se ouvia sua gargalhada

atirar-se-ia à enxurrada

se neste instante fosse

agora lágrimas silenciosas

gemidos que sangram

dor

 

 

Chapinhando em soluços insólitos

fere-se no fio fino e frio

de cada caco opaco

como se ódio fosse

suas seivas

 

Sôfrega quer

os cacos a submergir na terra

fundo, muito fundo

a encontrarem seu solo próprio

junto aos minerais

repouso

 

Na escuridão sem fim

agoniza

de aflição e esperança

ainda que lacerada

por tardias lembranças

da criança que mesmo morta

ainda arde em mim

 

 

Apenas o sol a nascer poderá

com seus dedos possíveis trazer

a alegria pura e infantil

a vida

aquela doce e intensa

a este lugar

coração

 

 

Read Full Post »

 

Quando a energia elétrica é interrompida, corro ao terraço para cantar com a chuva.

Depois pego o violão e fico brincando com suas cordas, fazendo alguns sons.

Lá maior, lá menor, ré maior, fá sustenido, fora as posições que minha irmã, com seus dedos longos e ágeis, inventou.

 

As lembranças vão surgindo à minha frente como um filme.

Papai cantando e tocando Sertaneja.

Minha irmã Rosa compondo A Ribeirinha.

Nhonhô Cintra, meu avozinho, cantando e tocando O Pé de Jambo, onde todos nós, no refrão, batíamos os pés no chão, cantando: “sai prá lá moleque malcriado e deixe o passarinho bicar sossegado, fazendo isso você não vai pro céu, quem mata passarinho vai pro beleleu”.

 

Como um filme.

Minhas lembranças levam-me em suas asas ligeiras à casa da minha infância.

Mamãe cantando,  Assis rodando o pião a fazer aquele ruído estranho de ventania, João pintando A Abolição e Margarida ocupada em vestir suas bonecas, contando a elas sua história predileta.

 

Quando a energia elétrica do meu bairro se vai é como se eu, de malas já prontas, embarcasse para a cidade dos meus sonhos, dos jardins e bosques floridos e ensolarados, dos bons ares, onde mora meu amigo João, para o qual cantei e toquei tantas canções de amor e dor.

 

Quase perdi o trabalho que estava digitando quando a energia se foi nesta tarde.

Não me importei porque acabara de descobrir que a chuva também é um anjo terno que me  faz reviver.

As lembranças embalaram-me em seus braços e no silêncio que se fez depois.

 

 

Read Full Post »

Older Posts »