Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘compaixão’

orquídea

 

 

A lagartixa que habitava meu terraço morreu esta manhã.

Sua casa? o vaso de orquídeas brancas que vem dando flores desde agosto passado, há quase um ano atrás, ininterruptamente.

Pela manhã, quando abri as janelas dos quartos, no chão a vi quietinha, quase que ao sol.

Estranhei.

.

Fui vê-la mais de perto e logo senti que sofria, sem quase poder se mover, aqueles olhos pretinhos a olhar-me.

Tentei animá-la com um pouco de água pelo chão, com a intenção de refrescá-la.

Nada.

Com cuidado, tentei induzi-la a ir para um lugar mais fresco, perto das plantas, pois o sol já se fazia quente.

Enquanto tentava, aflita minha mente percorria pontos de interrogação, tentando pressentir o que havia ocorrido (ouvi à noite um barulho de algo caindo no chão, não foi?)

Tirei-lhe da boca uma minúscula peninha (quem sabe?) defendendo-se do bico de alguma avesinha.

.

Só sei que sofria…e o que eu poderia fazer para aliviá-la diante de minha pequenez e impotência…

Peguei uma folha bem fresquinha de alface na geladeira e, com muito custo, para não feri-la ainda mais, consegui colocá-la em cima, posto que lagartixas gostam de lugares frios.

E levei-a, com mais cuidado ainda, para a sombra de um grande vaso.

E ela me olhava e, naquele momento, eu só queria ser um bichinho (nada mais) para poder falar sua “língua” e dizer-lhe para ir em paz.

Mas só pude ouvir seu silêncio e ver seu olhar; as únicas coisas que eu pude fazer, além de companhia.

Até o telefone tocar.

Até eu pedir para Francisco de Assis ficar tomando conta dela.

Até eu voltar… e encontrá-la de barriguinha para cima, com as duas patinhas da frente estendidas como a pedir um abraço.

.

Depois de um tempo, enterrei-a em um dos vasos do terraço e coloquei sobre ela uma flor d’água.

O certo seria colocá-la no vaso de orquídeas, mas lá não há terra, apenas raízes.

Porém, o cacho de botões de novas orquídeas pende exatamente para onde eu a depositei, como a enfeitá-la.

Morava há muito em meu terraço, mas não cheguei a dar-lhe um nome; quando a via dizia simplesmente, Oi belezinha!

Uma vez ela entrou em um dos quartos; foi difícil convencê-la de que seu lugar era ao ar livre e não, presa como nós.

.

E agora à tarde, em um desabafo de dor, quando tentei contar o ocorrido a alguém, ouvi um Nossa! tanta gente morrendo estupidamente e você se desgastando em tristezas por causa de uma lagartixa? (e aqui me coloco, completamente exposta diante do crivo de quem me lê)

Mas não deixei de pensar,  Pessoa errada em hora errada.

.

E então percebi quanto temos sido agredidos pelas barbáries que vêm acontecendo sem que tenhamos tempo de respirar para nos recompor.

De tal forma, que formamos ao nosso redor couraças que não permitem que os sentimentos mais simples e puros façam parte de nossas vidas.

Mas a vida é assim, simples: ganhamos presentes valiosos, aprendemos a cuidá-los e a amá-los e depois uma sucessão de perdas acontecem, os presentes somem, se desgastam, se escondem, se anulam, enquanto alguns outros presentes vão surgindo, para acalmar um pouco o coração, embalsamando sentimentos, ideais e sonhos perdidos ou roubados, até que caiam no esquecimento silencioso e sombrio dos valores disformes.

.

É nesse exato momento que chamo minha criança interior para cantar e brincar comigo, um pouco que seja.

Mas hoje ela não quis vir: está muito triste porque também conhecia e gostava da lagartixa do terraço.

Resta-me, então, sentar-me com ela no chão, brincando de nada, apenas tentando fazer-lhe companhia, como havia feito à lagartixa do terraço.

Em silêncio, sem saber o que dizer.

 

 

Read Full Post »

o quarto rei mago

 

 

Quando comecei a desmontar meu presépio é que percebi não haver escrito uma linha sequer no dia 6, data que tem um significado muito especial para mim, o que fez com que eu escolhesse esse dia para inaugurar o meu blog, como a ofertar um singelo presente para aqueles que ainda conseguem sonhar.

Dia de Reis, seis anos de blog.

.

Foi quando uma ideia me assaltou… estarei montando este presépio outra vez?

Depois me aquietei porque hoje tudo me assalta, me confunde, me assusta.

É verdade, ainda me assusto com fatos que a maioria das pessoas já absorveu para suas vidas como sendo natural e, por puro descuido, deixando-me contaminar pelas incertezas, desesperanças, caminhos estranhos aos meus ideais, demorei para sentir a verdadeira energia que necessito emanar para viver (e sobreviver).

E os dias passaram mas não deixaram para trás a importância dessa data para mim.

.

Noite, silêncio, chuva lá fora, que molha a alma também.

Meu coração apertado, meus olhos úmidos.

Saudades dos natais da minha infância, do carinho de meu pai, do sorriso de minha mãe, das traquinagens junto aos irmãos, da euforia em levantar-me primeiro para correr aos pés da árvore e abrir os presentes.

.

E agora tenho entre os dedos as imagens dos três reis magos.

Fito-os demoradamente.

Observo suas expressões, suas vestimentas, suas oferendas, suas intenções.

Fico tentada a indagá-los se poderiam nos trazer, por mais remoto que seja, algum presente além de ouro (realeza), mirra (imortalidade) e incenso (fé), para este ano que promete ser difícil, de confrontos, dúvidas e muitas incertezas.

Permanecem silenciosos, talvez sem saber o que dizer, o que fazer, o que oferecer além do que já trazem.

Gaspar, em seu manto púrpura, traz os olhos baixos em reverência ao Menino Rei.

Melchior, em seu manto vermelho, tem a cabeça reclinada como a pedir que o abençoe e aceite, simbolizado pelo presente, sua vida.

Baltazar, em seu manto verde, prostra-se diante da Divindade, em respeito ao momento único e pelo privilégio que sente de ali se encontrar.

.

Lembrei-me então de Artaban, o quarto rei mago que, por dedicar-se à cura da humanidade, não conseguiu juntar-se aos outros na adoração.

Sei que quem agora me lê sabe que Artaban atrasou-se e não conseguiu sair na mesma caravana e  que posteriormente perdeu-se em vilarejos, entre doentes e famintos que parou para ajudar, conhecedor da medicina que era, sem se dizer do tamanho de seu coração amoroso.

Mas alguns não sabem que, quando achou que poderia deixar que as pessoas se cuidassem por si mesmas, já havia passado 33 anos; porém esse fato não o fez desistir da sua busca; pegou sua matula e partiu à procura do Iluminado.

.

Quis o tempo que ele se perdesse novamente no deserto e, sentindo-se já bastante fraco, encontrou um dia com um homem entre as dunas que ofereceu-lhe água.

Quando fitou seu semblante sabia estar na presença divina, dizendo meio zangado, Procurei-O por toda uma vida e só O encontro agora quando estou à beira da morte!?!

Jesus abraçou-o e disse-lhe que já haviam se encontrado sim, em cada pessoa que Artaban curou, cuidou, orientou, amou, deu de beber e comer, agasalhou.

E abraçando-o ternamente, o Mestre Jesus desenhou um sorriso suave no rosto de Artaban, um sorriso que somente se vê na face dos anjos e deixou-o voar livre para as esferas.

.

Ajoelhada diante da família sagrada, prometi ao Menino que, para o ano que vem, colocarei uma imagem do quarto rei mago em meu presépio; será difícil encontrar, eu sei, mas tenho um ano inteiro pela frente.

O Menino Rei apenas me sorriu demoradamente.

Olhos brilhantes, bracinhos estendidos como a me pedir colo, como a me dizer para não deixar de carregá-lo dentro de mim.

Depois, com sua voz melodiosa, fez-me lembrar que Artaban é cada um dos que servem altruisticamente à humanidade e à Natureza.

São aqueles que se superam e que, silenciosamente, plantam todos os dias esperanças em cada gesto e, todas as noites, estrelas e sonhos nos corações.

Olhando-me no fundo da alma, o Menino me  pergunta se eu conheço algum Artaban.

Depois, aconchegando-se em meu coração, adormece.

E eu O embalo em mim, como sempre, para sempre.

.

É assim que dia 6 de Janeiro tem um significado profundo para mim.

Read Full Post »