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Posts Tagged ‘compasso’

 .

Hoje, não.

Hoje não quero pentear tristezas

pintar trêmula boca

roer unhas cansadas

 

Hoje, não.

Hoje não quero objetos perdidos

compasso sem ponta

espinho sem flor

 

Hoje, não.

Hoje não quero morrer instantes

roupas puídas

gestos cortantes

 

Hoje, não.

Hoje não quero ver esta face

corroída no espelho do tempo

eterno inverno

 

Hoje quero cantar

dançar minha alma

escrever cartas

lembranças sem medos

 

Hoje quero me ver

prazer presente

um presente qualquer

prazer

 

Hoje quero encontrar-me

saltando do canto

do encanto do olhar

e do riso que me tece

 

Hoje quero que seja esta a que me despe

 

 

 

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Secret_Garden.

Diana queria tanto trazê-lo à sua vida ensolarada.

Principalmente quando via os olhos de Antonio turvados e sua face inescrutável, como sombra perdida na escuridão.

 

Diana sabia que lhe  doía a alma, mas mesmo sendo profunda essa cicatriz, mesmo sendo essa a profunda tristeza, Antonio não conseguia roubar a vontade que Diana sentia em vê-lo em pleno dia de muita luz.

Antonio sorriria um pouco, ainda que não fosse para ela, mas se a visse sorrir, Diana apostava que Antonio sentaria entre as flores no canteiro do jardim e cantaria uma de suas canções prediletas, aquela que só os pássaros cantam e que só os anjos entendem.

 

Ainda sorrindo, mesmo que silenciosa, Diana o pegaria pelas mãos e o levaria até a soleira da porta da casa onde ela deixara seu coração, daquela onde sempre está a pular corda e amarelinha, no compasso dos passos de Antonio.

 E lá Diana o entregaria definitivamente ao sol, talvez compreendendo  que o que já havia vivido bastasse para que, mesmo sozinha, sua vida continuasse sendo plenamente ensolarada pela lembrança de Antonio.

Afinal, não é assim que as imagens são guardadas dentro de cada um de nós, perguntou Diana a si mesma, enquanto virava a esquina, sem antes deixar de ver Antonio conversando com um esquilo de olhos brilhantes que lhe oferecia uma noz.

 

E Diana seguiu mais sozinha que nunca, levando em seu peito um vazio frio, calado, profundamente molhado de emoções tão fortes, de adeus.

Seguia quase que em transe, trôpega, com palavras costuradas na boca, porém com uma leveza assustadora no corpo e tudo porque, com seu gesto, estendeu a Antonio o pouco de paz que ainda havia dentro de seu coração.

A dor, a dor, ah! dor…

  

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      Perdi o controle

dos dias que passam como pássaros

sem volta

das manhãs que terminam

sem antes começar

do sentimento abortado

sem atingir o estado de borboleta

da palavra ouvida como um golpe surdo

de um machado cego

em madeira molhada de soluços

      Perdi o controle

dos passos que passaram

a se descompassar

do riso que se tornou

risada estéril de verdades

do aceno enterrado junto ao corpo

em uma tarde de outono

      Perdi o controle

do pensamento que agora corre vagabundo

pelo crânio, pelos olhos

pela língua morta

em um latim decadente, sem nexo

      Não sei em que momento ele existiu

e se existiu

em que compasso eu o perdi

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Magia

 

Ouço uma música suave…

Uma valsa.

Fecho os olhos para me dar conta do voo de minha alma até aonde penso que estás.

E chegando mansamente, para que não te assustes, tiro o lápis de tua mão e, com um sorriso, levo-te a dançar, sem uma palavra sequer, entre os móveis, as pessoas, os lustres, as janelas, o tempo.

Os violinos nos levam pela sala como se fôssemos plumas no ar!

Há uma infinita luz que nos acompanha; aquela, tênue, de fim de tarde, branda como um carinho, um sussurro, um silêncio mágico.

E assim rodopiamos pela sala, por onde nos é permitido passar; olhos nos olhos, num sorriso e num compasso, sem pressa, sem dor…

Ouça.. agora está chegando aos seus últimos acordes…

Deixo-te em tua mesa de trabalho, admirando o desenho que estás a terminar e fico contente em ver que este é colorido.

Escancaro a janela de minha alma e como cheguei, sem um ruído sequer, parto no último raio de sol.

Antes, beijo-te as mãos, os olhos, a boca… sem me importar com a platéia que, extasiada, ainda não crê no que vê.

Aqui de volta, sentada diante deste teclado, procuro as letras, as palavras que possam contar, um pouco que seja, desta valsa, deste voo, desta visão…

Sinto-me ainda feliz e leve como uma nuvem a voar ao sabor da brisa da tarde, ou como uma borboleta que acabou de sentir o perfume de sua flor preferida.

Prometo que, quando tu menos esperar, irei aí novamente te convidar a rodopiar entre os móveis e as pessoas, num tempo em que só nós que sonhamos, conseguimos nos situar.

 

 

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