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Posts Tagged ‘crianças’

Ao Entardecer

rosa e piano

 

 

No dedilhar das teclas do piano

te encontro criança

te encontro mulher

 

Trazes junto com os sons

vozes ausentes

mas nunca esquecidas

 

Trazes momentos que mostram,

como espelhos,

a infância vivida a cada instante

e que hoje chama-se lembrança

 

Mostras a mulher que descobriu a si mesma

que se entregou a cada sentido

a cada carinho

à descoberta de que a vida não é

apenas uma rosa, como tu,

mas que os espinhos existem

para que a dor não chegue ainda mais perto

 

Trazes passado e presente de mãos dadas

como crianças

a brincarem de roda em uma tarde de sol

na calçada de um lugar

que ainda mora dentro de ti

 

No dedilhar das teclas

a mágica de ser

e sonhar

 para minha irmã Rosa

 

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Incomoda-me demais

crianças que sofrem física e emocionalmente

Incomoda-me demais

animais que são maltratados

Incomoda-me demais

idosos que são agredidos

Incomoda-me demais

jovens que são mortos à revelia

Incomoda-me demais

meninas que se vendem nas esquinas

Incomoda-me demais

gangues, torcidas, traficantes

Incomoda-me demais

corrupção social, política, religiosa

Incomoda-me demais

músicas e letras medíocres

Incomoda-me demais

gritos, brigas, discussões infindas

Incomoda-me demais

ver um livro estraçalhado rolando pela rua

 

O que me faz concluir

que estou fora de lugar porque

o que não me incomoda

são encantamentos que não existem mais

 

 

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Metade de Mim

O que falar do Haiti que já não se tenha dito.

Tudo foi abordado, em todos os ângulos.

Mas sinto  algo se esvaindo em mim.

Irrequieta, saí ontem chutando pedrinhas pelas ruas.

O céu já rugia sua tempestade da tarde mas não me importei: a tempestade que trazia dentro de mim era maior.

Por isso, continuei de mãos vazias, olhar grudado no chão, chutando pedrinhas.

Simplesmente.

O corre-corre das pessoas, o barulho ensurdecedor do trânsito, a poluição e os buracos nas calçadas aconteciam ao meu redor apenas como pano de fundo para o meu vendaval.

Quando pessoas importantes na minha vida se foram para uma outra dimensão, eu e meus irmãos, já adultos, sentíamos uma necessidade muito grande em brincarmos de alguma coisa, de jogar varetas, ou dominó ou o jogo do ludo, o que fosse, o que estivesse à mão.

Acho que queríamos enganar a nós mesmos, como se não tivéssemos crescido, como se o tempo não houvesse passado, como se negássemos reementemente e em absoluto mutismo, a perda das pessoas queridas.

Para sempre.

Ontem acordei me sentindo metade.

E tive saudade da outra metade que não sabia ainda aonde estar.

E essa ausência da metade de mim causou-me uma profunda sensação de perda.

Então resolvi sair chutando pedrinhas pelas ruas, pelas calçadas, pelos jardins.

Querendo talvez encontrar em cada movimento um pouco da infância que não vi no rosto daquelas crianças amontoadas como escombros, como embrulhos sem destinatário, numa busca inútil pelos pais desaparecidos.

Para sempre.

Fins de tarde sem fim, como aquela em que a menina segurava uma boneca sem uma perna e sem um olho, com suas mãos sujinhas de terra e de abandono.

Como ela, como todas aquelas com seus olhos vazados de dor e de medo.

Minha criança interior foi ter com elas, a parte que achei haver perdido; foi talvez levar a elas alguns brinquedos, alguns jogos, para que o tempo não as machucasse mais do que mutiladas  já estão.

Talvez possam, juntas, encontrar um pouco de suas infâncias; talvez minha criança possa levar-lhes um sorriso de amor  e  amarrar fitas coloridas em seus cabelos e enxugar a dor de seus olhos, convidando-as a pular a amarelinha na calçada, cujo único objetivo é chegar ao céu.

Em fins de tarde sem fim.

Por isso continuo chutando pedrinhas.

Como moleques chutam latas.

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