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Posts Tagged ‘dedicação’

 

 

Saudade eterna.

Faz vinte e nove invernos que moramos em planos diferentes e meu coração por vezes se consola sentindo-o bem.

Guardo muitas lembranças que afloram na memória logo nas primeiras horas da manhã, em muitas manhãs, manhãs sempre mágicas porque desfilam á minha frente as pessoas que tanto amo.

E desfiando-as uma por uma, entre uma espreguiçada e um bocejo, revejo quase toda a minha vida feita de momentos felizes, outros difíceis e outros insuportáveis, pelas perdas prematuras, envolvidas em muito sofrimento.

Mas meu coração decide, neste instante, pelas lembranças da infância.

Sempre que a vida se mostra quase que insustentável, procuro reavivar a criança que, apesar de tudo, ainda me habita.

O balanço feito no quintal (caí de costas, lembra-se?), as frutas tão bem cuidadas do pomar, as jabuticabas ainda em flor (desce daí, menina! se as florzinhas caírem, não haverá o que saborear!), minha primeira valsa, meu primeiro acorde no violão, sua letra rebuscada na escrita de um poema, a implicância com os gatos mas que sempre os acariciava escondido, o conversar com as plantas, as histórias que arrepiavam nossos cabelos, sua voz embargada ao lembrar de seus pais, o amar a Natureza, o louvar a Deus.

Lembro-me também quando o senhor nos aparava as unhas com aquela faquinha especial, antes de irmos para o colégio e, quando voltávamos, apontando nossos lápis para que pudéssemos fazer nossas lições.

Naquela época eu gostava muito de matemática, mas já era incentivada pela professora de português a escrever cada vez mais e tudo que eu sentisse de importante, inclusive meus sonhos.

Não sei em que momento de minha vida passei a entendê-lo, senti-lo, conhecê-lo melhor, papai.

Sei que ainda era menina e, por saber conversar melhor com o senhor, meus irmãos quando queriam alguma coisa, pediam para que eu pedisse, por ter mais jeito no falar.

E por conta disso fui rotulada de “a filhinha do papai”.

Mas isso não me fazia sentir diferente deles e não me incomodava em nada porque, atendendo a meus irmãos, hoje tenho a lembrança de chegar de mansinho perto do senhor, Paapaiiii… Miiiau,  respondia o senhor, Por que “miau”, papai? Porque sempre que você vem pedir alguma coisa, você não fala, você mia!

Embora com medo de me enganar, penso que a mais doce e terna lembrança que tenho é de quando, ainda muito pequenos meus irmãos e eu, éramos embalados em seus braços, ouvindo suas canções de amor.

Um por um, nos embalava andando lentamente ao redor da mesa da sala de jantar, cantando músicas sentidas, verdadeiras poesias de um tempo em que ser romântico não envergonhava a ninguém.

E o senhor, meu pai, além de cantar tão afinado, era um verdadeiro poeta no seu interpretar, um poeta que via amor em tudo e, por isso, muitas vezes incompreendido e magoado.

Cada um que adormecia, o senhor colocava na cama e cobria de mansinho, apagando a luz.

Todas as noites.

Eu sempre pedia para ser a última, lembra-se?

Gostava de ouvir sua voz, de ver aquela expressão de ternura a se expandir em seu rosto e em seus olhos; aquele carinho manso, suave como a presença de um anjo.

Sentia-me tão segura em seus braços…

Então fechava os olhos e o senhor me levava para dormir.

Mas quando ia colocar-me na cama, eis que eu abria os olhos e esticando os bracinhos e sorrindo… Papai, ainda não dormi; cante mais um pouquinho para mim, só mais um pouquinho..

E o senhor não resistia ao meu pedido, não é?

Carregava-me novamente e novamente retomava seu cantar, suave, baixinho.

Por esta razão eu queria ser sempre a última.

Quantas lembranças de sua vida deveriam aflorar naqueles momentos… e quanta paciência e dedicação, depois de um dia talvez exaustivo de trabalho…

Lembrando-me de nossas travessuras, que foram muitas e bastante criativas, a sua forma rígida de nos educar foi para nós uma fase de rebeldia, descontentamentos e proibições.

Hoje vejo pelo prisma da formação de caráter de cada um de nós e da preocupação e grau de importância que o senhor tinha em nos preparar para a vida.

Tenho certeza que esse rigor também vinha de lembranças de perdas já ocorridas em sua vida das quais não havíamos participado e, por isso, não tínhamos noção do tamanho de sua dor, sua saudade, sua vontade de rever e reviver momentos junto a seus pais e irmãos, guardados em seu coração.

Assim como no meu existem estes.

Dizem que amor não se agradece, mas… Obrigada, meu pai, pelo seu carinho e dedicação.

Por certo, nesses cantares o senhor despertou em minha alma o lado sensível, terno e profundo da vida.

Talvez seja essa a principal razão pela qual hoje, através de palavras consigo expressar, mesmo que aos tropeços, um pouco do que me vai pela alma.

Obrigada, papai.

Da filha que te amará eternamente,

                                                          Isabel

 

 

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