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Posts Tagged ‘Deus’

União

anjo-1

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O tinir da sineta por nove vezes

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Há um silêncio no coração de quem busca

sussurros ouvidos somente por aqueles

que se entregam ao profundo momento

como a um sublime segredo

.

É quando atravesso o espelho

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Levam-me lentamente

num sopro de sons

no perfume das pétalas

e do incenso

.

Levam-me a banhar os pés

em respeito ao solo

onde irei tocar

.

Trocam-me a veste

de puro e alvo linho

cingida pelo laço da união

.

Atravesso mais um espelho

.

Quem me guia toca-me o braço

se assim não fosse eu volitaria

diante da Rosa e da Cruz

Luz intensa, intensa emoção

.

Atravesso mais um espelho

.

Sinto-me fundida àquela chama

sinto-me una

invisível energia

em plena Paz

.

De meus olhos

brotam lágrimas de amor

mas ali já não estou

.

No mais profundo de meu ser

minha Rosa

minha Seiva, meu Sol do leste

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Penso em reagir, retornar

mas… para quê?

se estou nos braços de Deus!              

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Meu Querido Pai

As lembranças são muitas e muitas são de seus aniversários.

Fogueira, rojões, quentão, famílias reunidas, vizinhança, amigos.

O beijo de minha mãe, sua adorada, o cumprimento de todos em abraços tão demorados e queridos.

Mas sempre vi, meu pai, em determinado instante, uma melancolia em seu olhar; talvez pela lembrança de seus pais e irmãos e suas festas de aniversário junto a eles… mas, logo em seguida, seus olhos voltavam a brilhar de felicidade.

Hoje sou eu quem está a lembrar do senhor desde madrugada, quando me levantei e fui até a janela da sala olhá-lo brilhando no espaço, junto aos outros queridos que hoje também são estrelas do meu céu.

O tempo fechado, nublado, escuro, não me impediu de vê-lo brilhando, com aquele brilho que só vi em seu olhar, meu pai, até este momento de minha vida.

E sei que lá o senhor está, até completar todo o seu ciclo.

Quando levantei-me pela manhã, peguei seu álbum de poemas para escolher um (que missão difícil!), homenageando-o neste dia que continua sendo especial para mim, neste dia em que sinto-o tão próximo, a me sorrir, a me abraçar, a me abençoar.

Então escolhi este poema, que também me traz tão doces e felizes recordações; pena, meu pai, que eu não tenha neste momento uma foto do seu quintal, mas aqui estão as flores da trepadeira que o senhor cuidou com tanto amor.

 

flor do papai

 

Visão do Meu Quintal

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Vejo e contemplo o meu quintal querido

Num conjunto de cores variadas

Pendendo frutos, flores e ramadas

Em um mistério de arte e de beleza

Vejo nisso de Deus a Sua grandeza

Que nos invade a mente e o coração

Sentindo em tudo um traço de união

Entre Deus e toda a Natureza!

.

Com bela ramagem vejo a Trepadeira

Que esbelta e faceira

Dá sombra e abrigo ao querido amigo

Que dela cuidou

Quando na estiagem a chuva parou

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Além, vejo o Canavial no seu ciciar,

Ao doce soprar da brisa fagueira

Logo as Bananeiras, cachos a despontar

Viçosas e bacanas, que dá gosto de olhar.

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A Jabuticabeira (é conto de fadas!)

Toda carregada de fruto e flores

Onde as borboletas volteiam contentes

Em vôos silentes ou em revoadas!

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E fico a contemplar…

E vejo o céu e vejo o sol e vejo o ar

Passando por entre tudo que me cerca

Sem que eu possa falar

O que me vai na alma extasiada

Que em um pensamento mergulhada

Ouve a voz da consciência a badalar:

Tudo isso é Deus! Deus é o Autor!

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E eu, no meu nada…

Humilde e pequenino

Aguardo o meu destino.

 

 

João Rodrigues Nepomuceno

1.973

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Essência

Essência

 

 

É a nudez da matéria

É o sopro

É a luz

É o reconhecer a existência do invisível

em si mesmo

É a molécula

cadeia de combinações harmônicas

que se tornam una

É sentir

sem ter palavras para definir

É se sublimar diante do Único

É reencontrar a fagulha divina

na busca mais profunda

É desabrochar como a Rosa

em luz e amor

É ser

 

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O Arquiteto

 

No tempo quando ainda era jovem, Deus começou a andar pela praia, rabiscando ora o chão, ora o ar, com um galho seco que encontrou.

Desenhou um caramujo na areia, um pássaro no céu, uma conchinha no mar, labaredas no sol.

 

Sua túnica batia em suas pernas como uma bandeira ao vento fazendo seu manto dançar o movimento do universo, acompanhando seus cabelos da cor do mel que se atiravam ao ar como pernas longas de bailarinas felizes.

 

Trazia em seu rosto sereno um sorriso sereno.

Ora assobiava, ora cantarolava.

 

Nesse dia seus olhos estavam limpidamente azuis; na verdade, brilhavam tanto quanto toda aquela paz.

Deus estava assim, perdidamente apaixonado, rindo de um nadinha, sorrindo para tudo!

 

No ponto mais bonito da paisagem, parou e sentou-se.

E fitou o mar, o ir e vir das águas caindo na areia, como se fosse uma renda sem fim a enfeitar a praia.

Ao mesmo tempo em que sentiu a leveza da espuma sussurrando, sentiu a profundeza e mistério do silêncio do alto do oceano e a força e altivez das ondas poderosas, arrasadoras, trazendo consigo tudo o que encontravam.

 

Estava diante do ciclo vital: o ir e vir, ir e vir, ir e vir …

 

Foi nesse exato momento que Deus sentiu-se mais alegre, imaginativo, capaz de sua melhor criação!

Rapidamente juntou um pouco de areia, como fazem os meninos quando vão  construir castelos e, simulou uma forma.

Seus olhos brilhavam, seus dedos trabalhavam ansiosamente porque sentia que o momento que se fazia era o supremo.

 

Levantou-se, distanciou-se um pouco e olhou.

Não gostou da forma que via.

Desmanchou-a.

Pensou por um momento.

  

Com a fisionomia contrita, porém feliz, sentia seu coração bater e bater palmas, quase a sair pela boca.

Juntou novamente um pouco de areia e assim a forma tinha melhor aspecto, mas precisava de água; havia necessidade de coesão para que a areia não se esparramasse.

Correu ao mar, pulando e correndo como criança e, com uma concha cor-de-rosa nas mãos, trouxe água para que a forma se mantivesse.

 

Havia propósito em realizar o melhor e assim seria!

 

O sol estava a pino.

O suor escorria em sua fronte, seus cabelos estavam molhados, sua túnica e pés também, seus olhos brilhavam, sua boca cantarolava, suas mãos agitadas trabalhando, afilando, modelando…

 

E nesse instante houve um lampejo em seus olhos, igual a um fecho de luz penetrando um diamante.

 

E todo o Universo se calou.

 

Deus fechou os olhos, ouviu sua voz interior e entendeu que acabara de criar o que vinha buscando já há algum tempo nas outras coisas que havia criado.

Respirou fundo, não conseguindo ficar por mais tempo com os olhos fechados; queria contemplar sua criação.

Quando os abriu surpreendeu-se, bateu palmas, deu cambalhotas na areia, pensou em chamar todos os outros seres para darem uma olhadela, mas não o fez.

Olhou com mais vagar, com cuidado, pois o queria o mais perfeito possível.

 

Olhou em volta e sentiu que a Natureza era sua cúmplice; sentiu que a forma era o que de mais belo havia criado até então.

 

E por assim sentir, resolveu acabar com a solidão.

Até então conversava com os pássaros, os animais, a terra, a água; brincava de correr com o fogo e o ar.

Mas não era o bastante.

Precisava ouvir palavras, pensamentos de um igual.

 

Deus então resolveu dar à forma o poder do livre pensar, seguido do poder do livre expressar.

 

Com carinho e cuidado, como se temesse acordar uma criança, insuflou em suas narinas o sopro da vida.

A forma pela primeira vez respirou e o sopro dentro de seu corpo circulou e tudo o que tocava ganhava vida, movimento, expressão.

 

Quando começou a despertar, Deus mais que correndo ajoelhou-se a seu lado, colocou a cabeça daquela forma, que agora era um ser, em seu colo, alisou-lhe os cabelos, o rosto e a fronte.

 

Quando abriu os olhos, a primeira visão daquele ser foi a de Deus debruçado sobre ele, sorrindo, transbordando de alegria.

 

A gaivota piou ao longe, a brisa embalou as ondas e o sol a tudo iluminou.

 

Deus tomou o rosto daquela criatura entre suas mãos, beijou suas faces e disse “Bom dia, meu amigo!”

Então o Homem sorriu.

 

Abraçados saíram a caminhar, Deus mostrando-lhe todas as coisas.

O Homem extasiado com a Natureza e Deus com sua criação.

 

                                           (primeira publicação, em 1975, no jornal da empresa em que trabalhei, na época intitulada O Dia da Criação)

 

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