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Posts Tagged ‘doçura’

sabia

 

 

O pássaro da primavera voltou.

Sempre chega antes, anunciando a estação que está por vir.

Como um relógio, começa seu canto às quatro horas da manhã; como um relógio, desperta-me com sua canção.

Todos os dias, mesmo nos frios ou chuvosos.

Seu trinado preenche todo o meu quarto, como se estivesse tão próximo, em alguma planta do meu terraço.

Fico quietinha, ouvindo-o e imaginando sua alegria pulando de árvore em árvore, de galho em galho, como que presenteando a todos com essa madrugada musical.

.

Na primavera passada alguém reclamou para mim de seu canto intermitente (mas não tão repetitivo, repleto de solfejos diferentes) e eu fico a pensar como é possível eu sentir prazer com um mesmo fato onde outro sente desalento, irritação…

Quem não gosta da música da natureza está mal consigo mesmo, penso eu.

.

Abrindo aqui um parênteses, lembrei-me de uma situação ocorrida ainda esta semana.

Liguei para meu porteiro informando que precisaria viajar e se eu poderia, mais uma vez, deixar meu periquitinho na portaria para eles cuidarem (e, claro, quando volto, sempre os recompenso por isso, nada mais justo!)

Meu Plingo canta o dia todo, só pára para comer, beber e dormir.

Ele é tão feliz, que dá gosto de observar!

Pois não é que “alguém” reclamou que ele não pára de cantar e, por isso, torna-se irritante?

Fechando parênteses.

.

Vou até a janela da sala e, além de ver um céu todo estrelado e a lua, majestosa, crescendo a cada noite, me apercebo que o pássaro deixa a árvore do meu prédio e vai se afastando para outras árvores.

Volto para a cama e ouço seu cantar se distanciando, distanciando, distanciando… e assim acabo dormindo outra vez.

Com o coração repleto de música, de doçura, de amor, mesmo que de meus olhos esteja rolando uma lágrima de saudade daquela que fui e não serei mais.

.

A Primavera, como o sabiá, enfeitará e perfumará meu coração novamente.

E isso me basta.

 

 

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Foi assim

 

 

Suzana era perversa.

Invejosa e esnobe.

Não gostava de estudar e procurava em tudo, facilidades.

Muita coisa para uma menina de dez anos.

 

Mariana, ao contrário.

Menina observadora e estudiosa.

Derretia-se diante da doçura dos animais.

Havia entre as duas um suportável convívio mantido pelas tolerâncias de Mariana.

 

Até que um dia se cansou.

Achou necessário soltar seu demônio interior.

Deixou que ele quebrasse tudo à frente, berrasse sua agonia, rasgasse sua aparência.

 

Suzana ficou assustada.

Em um primeiro momento quis encarar aquela Mariana desvairada.

Depois, encolheu-se a um canto esperando a tempestade passar.

Mas não passou.

Mariana veio em sua direção, olhos vermelhos, gargalhando, dedo em riste.

Puxou os cabelos de Suzana até que ela uivasse de dor.

Escancarou a janela, empurrou meio corpo de Suzana para fora, fazendo-a tremer de pavor.

Olhou fundo em seus olhos assustados e disse profunda e lentamente, Nunca mais me aborreça com suas maldades, ouviu bem?

Suzana jurou-lhe obediência e quando por ventura se esquecia, Mariana apenas lhe lançava um olhar aterrador, o suficiente para que ela se redimisse.

 

Papéis trocados.

Mariana não tinha mais tempo para estudar ou pintar. Divertia-se em imaginar como amedrontaria Suzana, criando situações para, por nada, encostá-la na parede.

 

Para distrair-se e nada fazer de errado, Suzana começou a dedicar-se à leitura, aos estudos, à música, qualquer coisa que lhe exigisse concentração, desviando assim seus olhos e seus pensamentos de Mariana.

Foi esse o caminho que Mariana escolheu interpretar para que Suzana deixasse de ser perversa.

 

À noite, já deitada no escuro, Mariana ria baixinho; virava para o canto e, agora sim, conseguia dormir sem medo algum.

 

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Viagem

três gerações

 

As pedras se encaixam

precisas

precioso é o tempo

espera

 

 

A carta é escrita

prepara

a dor é pungente

inadiável

 

 

O sonho revelador

a viagem inesperada

angustiante

tantos sinais

 para quê?

 

 

Para eu voar como vento

estar a teu lado

ter tuas mãos entre as minhas

ficares somente comigo

no teu momento

a desprender-se dos laços

 

 

Levaste contigo

a melodia do teu violino

as balinhas de framboesa

que moravam no bolso de teu paletó

para agradar os netinhos

 

 

Levaste o tic-tac do relógio

que me deste

o primeiro

 

 

Deixaste tua biblioteca

teus retratos sorrindo nas molduras antigas

tua sabedoria impregnando nossa pele

nosso tato

 

Deixaste em cada vida

teu carinho eterno

 

 

Levaste tua filosofia

tuas orientações ditas com suavidade

porém concisas

profundas

 

 

Levaste teu sorriso doce

tua mansuetude

tua inteligência aguçada

tua observação da vida

 

 

Levaste contigo

avozinho

um pedaço deste meu coração

 

 

O tempo é preciso

exato

inadiável

as pedras se encaixam

 

Homenagem a meu avô e mestre  Raymundo Marcolino da Luz Cintra, quando se completa trinta anos de sua viagem; uma alusão a seu livro/romance intitulado “Até as Pedras se Encontram”.

Saudade eterna.

 

 

 

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Tenho um fato na infância relacionado a um carneiro.

Passado tanto tempo, não consegui até hoje escrever sobre ele.

Mora dentro de mim, como um carinho inacabado, uma saudade eterna, um amor rompido.

Todo o seu desenrolar, suas imagens, permanecem trancadas em mim.

Talvez seja o único trauma que carrego desta vida.

Gostaria de libertar-me um pouco dessa dor, mas não há caminho.

Além de meus irmãos, são pouquíssimas as pessoas que a conhecem e muito superficialmente.

Procurando fotos antigas, a história despertou em minha mente.

E meu coração apertou-se mais uma vez.

 

Rabisquei, antes de morrer novamente, algumas linhas para meu pequeno e inesquecível carneirinho.

Ele merece mais, eu sei, muito mais, mas é maior do que eu.

 

  

  

Por que sangram carneiros

criaturas de imensa doçura

e fragilidades

 

De suas lãs, o calor

de seus balidos, o murmúrio poente

de seus olhos marejados, só amor

 

Por que sangram carneiros

se apenas o que pedem

é um pouco de carinho…

 

 

 

 

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Sempre que leio livros como se minha alma fossem, e os leio sempre, uso um marcador imantado com a imagem do Pequeno Príncipe.

Quando interrompo a leitura, marco a página e vejo com o livro já fechado,  o rosto dessa criança que sempre habitou meus sonhos.

E ela, nesse instante, me faz pensar em um semblante que me olha de um quadro silencioso, mas que não me vê.

 

Pequeno Príncipe… o garoto que cresceu mexendo em plantas e flores e assim escolheu prosseguir por esse jardim imenso a cultivar girassóis, margaridas, rosas.

Às vezes ainda fere seus dedos em espinhos, pedras, cacos de vidro, mas nunca desiste.

Pensa em fazê-lo quando tudo se adensa ao seu redor, mas segue em frente porque sabe que a semeadura é necessária para depois poder contemplar a paz do realizado, com lucidez e amor.

 

Não desiste nunca.

Se necessário for,  o príncipe transforma-se no Cavaleiro Andante, o homem que crescido busca caminhos que o conduzam a portos em cais distantes, onde sensações verdadeiras povoam seu corpo, seus gestos, suas palavras, seus sentimentos, suas lembranças.

Depois tornar-se novamente a criança doce e silenciosa, a cultivar a vida nos canteiros de esperanças.

 

É tudo o que penso enquanto me vem à lembrança a expressão desse príncipe que me aponta trechos poéticos de incrível beleza no livro que trago sempre nas mãos.

Tudo, não. Descubro a cada palavra, a cada soluço, a cada sensação, o quanto impregnada em mim essa criança está.

 

 

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Cabocla

Alzira, moça bonita, de olhos verdes penetrantes, cabelos negros e sorriso radiante, foi um anjo de guarda que apareceu em minha vida e de minhas irmãs, quando pequenas.

Acompanhava-nos em viagens, ajudando minha mãe a cuidar de nós com tanto carinho.

Lembro-me de Alzira cantando canções antigas, enquanto escovava nossos cabelos com tanto esmero e paciência.

Todos os domingos, depois de nos arrumar, verificava se estávamos prontas e bonitas para irmos à missa das dez horas com nossos pais.

Alzira, moça prendada, que cozinhava alimentos cheirosos e gostosos, encantou o coração de Chiquinho, o leiteiro que morava na mesma fazenda que ela, a do avô de minhas primas.

Ele, que tinha um coração italiano apaixonado, desde o primeiro dia que a viu nunca mais conseguiu viver sem ter ao lado sua Alzira.

Toda manhã Chiquinho levava leite em casa e, mal entrando pela porta do fundo, quando não a via, ia logo tirando seu chapéu e perguntando, Cadê minha cabocla?

Se ela não o ouvia por estar longe, alguém corria chamá-la e, vindo rápido, lhe sorria como o sol em dia pleno de festa no campo, Meu amor, quer uma xícara de café?

Enquanto ele a bebia, embriagava-se nos olhos de Alzira, trocando sorrisos, silêncios e pequenos carinhos.

Depois ele beijava sua testa, colocava seu chapéu e se ia e Alzira suspirava.

Todo dia era assim, um cafezinho, uma troca de olhares e um suspiro, daquele amor que não se vê mais.

Este pensamento me veio depois de remexer em minha caixa de lembranças, onde encontrei uma foto de mamãe e Alzira com minha irmã Rosa no colo, sentadas em um banco de madeira, no meio de árvores frondosas, por certo em um daqueles passeios gostosos de domingo.

Seu sorriso ali eternizado é lindo, é forte, ao mesmo tempo que terno, repleto de doçura e luz.

Onde andará essa cabocla e seu amor…

Será que hoje já se encontram a visitar minha mãe, fazendo piquenique em alguma estrela?

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Preciso de paz, minha mãe

para fitar tua imagem

na moldura dourada do tempo

 

Só assim

ao entardecer nas teclas deste piano

conseguirei fitar tua doçura

 

O sorriso leve

na tua boca vermelha e desenhada

delineando os desejos de meu pai

 

Teu uniforme de normalista

tuas iniciais bordadas na blusa

a mocidade apaixonada brilhando nos olhos teus

 

Olhavas para quem, minha mãe

quem roubava teu olhar

fazendo-a mostrar apenas teu delicado perfil

 

Preciso de serenidade, minha mãe

para encontrar-te nesta noite de outono

mas consigo apenas morrer de saudade

 

 

 

 

 

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