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Posts Tagged ‘egoísmo’

Liberdade

… e um dia, de tão encantada que ficou, pegou escondido na cozinha um lindo vidro e, já à noitinha, resolveu pegar alguns vaga lumes para observá-los.

Entrou sorrateiramente pela porta dos fundos, subiu aquela imensa escada sem fazer um ruído sequer e trancou-se no quarto.

 

Pronto! não morreria mais de medo das sombras que se projetavam e cresciam naquelas paredes tão antigas.

Os móveis austeros e enormes não mais roubariam seu sono.

Não mais ouviria sussurros aterradores vindos por detrás dos quadros.

 

Pegou um fio de seda e passou-o pela tampa do vidro, pendurando-o no lustre.

Depois deitou-se naquela cama antiga, de reis e rainhas que não mais existiam.

Sentiu-se feliz com o quarto todo iluminado pelos vaga lumes.

E os bichinhos, acendendo e apagando seus lumes, esvoaçavam dentro do vidro, como pequenas lanternas, a tudo iluminando e colorindo.

 

Na manhã seguinte, antes do café no jardim junto aos pais e avós, a pequena Sara armou perto de sua janela também enorme, uma tela quadrada de trama bem fechada e lá soltou seus vaga lumes, para que pudessem respirar e voar melhor.

 

Quando a noite novamente chegou e quando conseguiu livrar-se de todos aqueles talheres, copos, mesuras e recomendações de todos os adultos, desabalou escada acima, sob o olhar reprovador da babá.

 

Deitada e coberta,  já não se sentia apenas um minúsculo objeto a compor a imensidão que a cercava.

Agora tinha amiguinhos que traziam alegrias para seus olhos.

Mas… reparou que a luz já não era tão intensa como a da noite anterior.

Mesmo assim adormeceu.

 

Quando acordou decidida a executar seu novo ritual antes do café da manhã, encontrou os vaga lumes no fundo do vidro, desfalecidos.

Um deles, articulando as patinhas dianteiras com muita dificuldade, pediu para que Sara se aproximasse e ouvisse seu apelo.

Penalizou-se então dos bichinhos, sentindo-se muito envergonhada pelo seu egoísmo quando ouviu-o dizer, Por favor, abra a tampa do vidro; precisamos de liberdade para viver.

 

Sara então passou a dormir novamente na escuridão daquele quarto antigo.

Sem medo.

Com a janela aberta.

 

 

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