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Posts Tagged ‘emoção’

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Antes de encontrá-lo pela última vez é necessário

que eu chore o que me resta

para eu secar por dentro

 

Então estarei pronta

hirta e ausente,

para ouvir sua voz de palavras escolhidas,

mas opacas, vazias como seu coração

 

Para eu ver seu riso frisado, gelado

em um esforço supremo de emoção

como se carinho se encontrasse à venda

em qualquer gesto

 

Para eu sentir suas mãos frias

no meu rosto ardente…

de dor e despedida

 

Para que tanto cuidado em não me ferir

se já me apunhalou…

 

Não faltarei a esse encontro,

digo ao meu coração tão calado

 

É preciso que eu morra para renascer

no canto da boca de um outro sorriso

sentir o calor de outras mãos em profundo aconchego

morar no brilho de um olhar sereno, cuidadoso,

intenso, de desejo

 

E não haverá necessidade de palavras

 

O silêncio é mágico, é portal para outros pulsares

é linguagem de eternidade

 

É preciso que eu morra mais um pouco

um pouco mais, só mais um pouco

 

Falta tão pouco…

 

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E o menino continuou a correr pelos campos de centeio, como se pássaro fosse.

Suas mãos tocavam os talos tenros e dourados, como uma colcha macia bordada pelo Tempo, da cor do sonho que sonhara de olhos semi cerrados, antes de entrar, pela primeira vez, em um templo.

Um sonho de vôo pleno onde, num ímpeto de emoção e liberdade, levantava seus braços, ficava nas pontas dos pés como se assim pudesse tocar o céu, sem se dar conta direito de que o Sol já o abraçava por inteiro.

 .

Se fez uma prece, não me recordo, mas sua existência já era a própria prece!

 .

Sentiu o aconchego do silêncio, as mãos da brisa em seus cabelos, o corpo leve a caminhar sentimentos só seus.

 .

De volta à realidade, pressentiu que seu vôo fora marcado no coração e na mente, não sabia ainda por quê.

 .

Mas quando entrou no templo, lá estava esculpida em uma parede de luz, a imagem sublime daquele que, de braços levantados em plenitude infinita, comungara com seu Deus e a Seus pés depositara sua vida, que recebera um dia como divino presente.

 .

E agora o menino está aqui, à minha frente, e eu o vejo agigantar-se solene e poderoso, elevando seus braços aos céus, transmutando sombras em luz, silêncio em sons, mundano em divino.

 .

É o mesmo menino, eu sei.

Apenas se transforma em um guerreiro dourado, para cumprir sua tarefa de Amor.

Depois, volta a ser o menino que sempre foi.

 

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lenço

 

Um dia desses vi um homem tirar um lenço de tecido do bolso.

Ontem, vi novamente.

Como da primeira vez, fiquei surpresa, admirada e senti uma satisfação interior.

Para mim, essa atitude simboliza uma educação requintada.

Não que o contrário signifique uma má educação, longe disso; tenho como exemplo meus irmãos que nunca usaram lenço de tecido e meus sobrinhos que não usam e que tiveram e têm uma ótima educação.

É que essa atitude vem imbuída de outros valores que estão sendo deixados de lado e, digamos assim, fazendo com que a vida perca sua qualidade.

Há tantos outros símbolos de uma boa educação, mas tomei do lenço de tecido como ponto de observação.

 

Vivemos em tempos modernos, práticos; usa-se e, usado, joga-se fora.

Tenho muito medo de descartes, além da tristeza que sinto porque tudo é jogado fora de forma displicente, tudo sem exceção, inclusive a vida.

É raro se ouvir um “por favor”, um “obrigado”, um “você primeiro”.

Não se vê um gesto harmonioso, uma generosidade, carinho então… o que dizer da falta dele, quando o ser vai se tornando duro como rocha, frio como gelo, calculista, manipulador, oportunista?

E a brutalidade e insensatez vêm à tona, a tal ponto e com tal poder, que se auto permitem dispor e acabar com a vida de seu semelhante, por atitudes impulsivas que, se a brandura não tivesse sido descartada, tudo poderia ter sido resolvido de forma diferente, com certeza a favor da vida.

Há, sim, descartes que precisam ser feitos, mas aí os identifico como casos pensados, pesados, analisados e definidos como prejudiciais ao corpo e ao espírito.

Desvencilhar-se deles é doloroso, deixam marcas, causam dores, mas são necessários, inadiáveis.

Há várias situações de descarte que eu poderia citar, mas estou me entristecendo à medida que escrevo; não quero me aprofundar mais.

 

Prefiro falar da imagem que gravei do homem com seu lenço nas mãos.

Ontem vi que o usou para deter lágrimas que teimavam em correr de seus olhos.

De emoção.

De tarefa cumprida, de encontro consigo mesmo neste seu momento de evolução.

 

Mais tarde, quando já estava a sós comigo mesma, criou-se em minha mente uma imagem, a da mulher desse homem lavando esses lenços com carinho e com cuidado, sabendo que eles ali, usados, ainda detinham emoções ou mesmo o suor do rosto desse homem tão requintado.

Esta cena acalmou meu coração.

Esqueci-me dos descartes (que trazem tanta escuridão e medo ao meu coração) para lembrar-me de que sou uma criatura privilegiada por conviver com algumas pessoas incríveis e de muita luz!

Como, por exemplo, o homem do lenço de tecido.

 

Este texto é uma singela homenagem de agradecimento que faço a  Antonio Francisco Sobrinho, com o qual tenho tido a honra de compartilhar momentos tão sublimes e marcantes.

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Não suporta meu pranto, mas me faz chorar.

De alegria, de tristeza, de pura emoção.

 

Não me abandona, mas me deixa só.

No silêncio eterno de um segundo, na desesperança de um olhar, no gesto impossível.

 

Não se descuida do meu rumo, mas me esquece.

Na cama, na rua, no balanço cadenciado da rede, em um canto de sofá.

 

Não suporta sentir saudade, mas se ausenta.

E volta só na lua cheia, nas pétalas da flor que ainda não se abriu, na estrela distante.

 

Não me aprisiona, mas me assalta.

Nos sonhos, na imaginação, nos devaneios.

 

E, no entanto, eu o invado e ele permite.

Minuciosa e cuidadosamente, em todos os seus segredos, em cada ponto, em cada contorno, esconderijos.

E ele se abre, quieto e abnegado, se entrega e suspira entre meus dedos, meus olhos, meus murmúrios.

Pouco falo com ele porque é ele quem conta tudo para mim.

 

O que importa mesmo é que nos amamos.

Muito, sempre.

Quando, por alguma razão, eu o acaricio ternamente, e sempre o faço, sinto-o como um pedaço de mim, minha luz, minhas descobertas, minhas fantasias, meu eterno querer sonhar.

Meu ar.

 

 

Te homenageio hoje e sempre, a cada emoção meu querido amigo, que me faz crescer e tentar entender outros universos, outras buscas, outras origens.

À você, meu amigo inseparável que atende pelo nome de LIVRO, meu amor eterno.

 

 

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Poética

A poesia é triste

porque vem da alma

e a alma é triste

porque encerrada no corpo

como pássaro preso no tempo

canta mas não pode voar

até que o aceno o liberte

e assim, finalmente,

possa revoar emoções

 

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Hoje armei meu presépio.

Um pouco tardio com relação ao ano passado.

Mas como no ano passado, já sabia que recordações iriam aflorar à medida que desembrulhasse cada peça, cada imagem.

Também me recordei de vários natais, principalmente os da infância.

E os da infância da infância.

Daqueles que levantávamos pé ante pé, logo de manhãzinha, para espiar o que Papai Noel havia deixado aos pés da árvore de Natal.

Faço questão de escrever com maiúsculas, pois naquela época acreditávamos em tudo o que nos contassem a respeito dessa data mágica.

 

Éramos felizes e sabíamos!

E nossos pais irradiavam carinho e muita alegria ao nos verem felizes assim.

A primeira boneca de louça, maior que eu e que chamei de Lila, em homenagem à minha mãe.

A primeira bola de vidro que quebrei, ao tentar ajudar meu pai a enfeitar o alto do pinheiro, um pinheiro alto e natural.

 

A primeira vez que vi o amigo de meu pai vestido de Papai Noel a nos entregar os presentes; não posso me esquecer do momento que o vi subindo as escadas, tocando sininhos e dando sua risada… não consegui balbuciar uma palavra sequer; apenas olhava-o e sorria, fascinada por ele estar justo à meia noite em minha casa e não, na de outras crianças, milhares de crianças pelo mundo!

Quando estava de partida, não me deixaram ir ao terraço para acenar para ele, na hora em que seu trenó levitasse no ar; disseram-me que as renas se assustariam e não seria bom que isso acontecesse…

A primeira vez que fiquei sabendo quem era realmente aquele homem vestido de Papai Noel.

 

A primeira vez que pude comprar presentes para todos; foi quando descobri e senti a profunda alegria que externavam meus pais!

 

A primeira vez que passei o Natal sem meus pais e meu avozinho.

A primeira vez que passei o Natal sem meu irmão caçula.

A primeira vez que passei o Natal sozinha.

 

Tudo tem a primeira vez.

O riso, a dor.

A união, a separação.

Ganhar, perder.

Ganhar achando que perdeu, mas que ganhou.

Perder definitivamente.

 

A cada imagem, a lembrança de uma pessoa marcante, mesmo que silenciosa, sensível e quieta, porém marcante.

 

Este ano não chorei, meus olhos apenas lacrimejaram.

Talvez esgotou-se a fonte durante os dias deste ano que termina, por algumas injustiças a que fui submetida e ainda o sou.

Ou talvez, neste dia, minha criança estivesse dormindo ou saído a passear.

Talvez por ser esta a primeira vez que armei meu presépio pressentindo que, depois de muitos anos, não estava sozinha.

Por isso, pela primeira vez, apaguei todas as luzes da casa, deixando acesas só as do presépio e, tomada pela emoção da companhia tão sutil, quase que imperceptível, cantei baixinho aquela música antiga de Natal, vezes seguidas.

 

Depois adormeci em paz.

 

 

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Ternura

 

Ultimamente minha alma tem fugido de mim
corre para ti

 

Não para atirar-se em teus braços
beijar tua boca
colar-se ao teu corpo

 

Simplesmente fugindo de mim
corre para ti

 

E mesmo que te encontre
triste e ferido
quer embalá-lo nos braços
quer cantar a mais suave canção
para que possas acreditar
que ainda há ternura

 

Que os homens não são feitos apenas de barro
engrenagens de ferro
e estupidez

 

Minha alma fugidia
quer acariciar teu rosto
beijar teus olhos
até que durmas e sonhes
para  que depois acordes e sintas
que falar de amor ainda é possível
sentir emoções ainda é possível

 

Ainda é possível mostrar-se
sem que alguém faça de ti
ave branca e frágil
de mira de alvo

 

Ainda é possível abrir a camisa ao vento
molhar-se em uma chuva imprevista
como imprevisto é o sol
e a vontade de viver

 

Mas minha alma quando foge
não te encontra
não descobre teu esconderijo

 

São dois a vagar na hora última
tu, escondido atrás de tua dor
minha alma, atrás de ti
porque é para ti
somente para ti
esta ternura

 

 

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