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ferreira_gullar_-_divulgacao

 

 

Malas prontas, mais alguns dias e viajo, mas não posso fazê-lo sem deixar de falar de Ferreira Gullar, que faz parte do pequeno grupo de poetas que sempre me fará companhia nos momentos insones, no silêncio mágico da noite.

Não vou falar dos rótulos que lhe atribuíram no traçado de seu caminho, alguns deles levianos, necessidade inerente do ser humano em tarjar as pessoas como se fossem bebidas, latas de comida, vestimentas de grife, carros de última linha.

Nem tão pouco quero falar de suas ideologias políticas, o que deixo essa parte para biógrafos, historiadores e jornalistas, embora toda vez que penso em seu exílio, sinto aquele vazio espelhado em seu olhar triste, ausente, doído, de solidão imposta, amarga, embora de sua boca sempre brotassem palavras de esperança.

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pulsando há 45 anos (*)

esse coração oculto

pulsando no meio da noite, da neve, da chuva

debaixo da capa, do paletó, da camisa

debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária

meu coração de menino.

(*) à época da criação do poema

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O que quero é falar um pouco do Ferreira Gullar que, como disse, em noites insones sempre me faz companhia (conjugarei sempre no presente) e, ouvindo sua voz pausada e rouca, me perco em suas palavras, me embriago em seus sentimentos, pois tens o dom, oh! Poeta, de tornar-me pássaro noturno que voa em direção às estrelas.

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Em uma noite dessas (ainda me parece um sonho!) consegui reunir Gullar, Saramago e Manoel de Barros.

Foi um momento memorável! Tomamos vinho português e saboreamos queijos e frutas, ao som de poemas, sorrisos, indagações, lembranças e de pequenas lágrimas que rolaram, furtivas, de nossos olhos atentos.

E eu, na minha pequenez, bebia cada poema, cada gesto, cada silêncio, por saber estar ali o néctar dos deuses!

E assim adormeci, ainda não sei bem se sentada com todos eles na laje de algum prédio muito alto, observando a vida acontecer incessante lá em baixo, ou simplesmente no sofá de minha sala.

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Lembrei-me agora de quando eu te encontrei há alguns meses atrás, na livraria Travessa, no Leblon.

Trazia eu junto ao peito teu livro “Toda Poesia” e um outro de Adélia Prado.

Nossos olhares se cruzaram, nossos olhares se sorriram e minha timidez colou meu corpo no chão, não me permitindo ir cumprimentá-lo; apenas levantei a mão em um aceno e disse simplesmente, Olá, Poeta! e com um aceno de cabeça respondeste com carinho..

Fiquei com vontade de te perguntar, Poeta, se chegaste a abrir meu livro, a ler algum poema, se consegui levar-te à alma um pouco da minha.

Apertei tão forte teu livro junto ao corpo que por uns instantes o ar me faltou e fiquei assim, como criança, com o coração transbordando de amor, a fitar tua imagem.

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Como relâmpago, passou-me pela mente da vez que contaste que um fã assustou-se em ver-te na feira de Copacabana comprando frutas, ao que respondeste, Poeta também come!

E mais uma vez sorri pelo teu humor e assim procurei-te entre as pessoas, mas já havias ido embora.

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Obrigada, Poeta, por enriquecer tanto nossa cultura, literatura, pintura, artes plásticas e cênicas, hoje tão desvalorizadas, ignoradas mesmo em um universo de consumismo desvairado, sem qualidade alguma.

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Sei que continuarei ouvindo tua voz rouca e pausada no silêncio da noite e, como diz meu Mestre Interior, Quem pensa para falar, fala pausadamente; primeiro para ser ouvido e depois, entendido e depois ainda, refletido.

E agora, quando não estiveres em minha sala a declamar poemas para minha alma, também poderei ver tua luz resplandecendo no manto da noite, estrela de primeira grandeza que sempre serás.

Mesmo antes de ter sido empossado como um Imortal, penso que já havias sido informado que assim seria, quando escreveste:

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meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo

meu corpo feito de água

e cinza

que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio

e me sentir misturado

a toda essa massa de hidrogênio e hélio

que se desintegra e reintegra

sem se saber para quê

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Ouso dizer, Poeta,  que a resposta em algum momento virá e, como um lampejo de luz, saberás para quê.

 

 

 

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o quintal 2

 

E então o menino descobriu o quintal.

Grande, ensolarado.

Na verdade, um campo aberto para correr até cansar.

Um escorrega para sentir um friozinho na barriga.

Um balanço para levá-lo até o céu.

Um pequeno lago para sentir o frescor da água a escorrer-lhe pela alma.

Alguns pequenos frutos para matar sua imensa sede de viver.

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Não sabia para onde correr primeiro e, por isso, abriu os braços e imitando um avião em voo rasante, percorreu todos os caminhos que se lhe apresentavam pela frente.

A sensação do vento em seu rosto, seus cabelos como asas ao léu, seu corpo a flutuar, seus pés resvalando na grama… tudo o deixava leve como uma ave que voa pela primeira vez depois de uma tempestade.

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Como descobriu o quintal, não sabe dizer.

Não sabe em que momento o vislumbrou, mesmo que de longe fosse.

Não se recorda se havia muro, se havia portão de passagem.

Apenas de uma coisa tinha certeza: não estava cercado com arames farpados.

E foi exatamente isso que o animou a entrar!

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Com cuidado sondou o quintal até aonde sua visão permitia; poderia haver um cachorro bravo escondido em algum canto, por que não?!

Depois sentiu-se mais seguro, mais contente, pensando no que diria se alguém ali encontrasse.

Mas à medida que adentrava o terreno, sentia-se cada vez melhor, como se estivesse em um lugar que já conhecera antes, mas que não se lembrava.

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Não havia ninguém.

Mas sentiu que ali existia vida.

Havia flores nos canteiros, havia lençóis macios dançando nos varais.

Havia música e que peculiar música!

Foi quando viu uma gaiola pendurada à sombra da mangueira.

Dentro dela um pequeno periquito mais verde que amarelo, olhando seus olhinhos negros nos olhos do menino.

Por um instante ficaram calados, se olhando.

Um silêncio de reconhecimento, um silêncio de carinho.

E depois, o periquitinho cantou para ele, saudando-o, dizendo de como era bem vindo!

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Foi quando sentiu o perfume de café coado naquele instante, naquela pequena casa que vislumbrou escondida atrás de um vasto e fascinante canteiro de tulipas!

E ainda correndo como se avião fosse, chegou à soleira da cozinha.

Pensou se deveria contornar a casa e bater na porta da frente, pois não tinha nenhuma intimidade para ir-se atirando pelos fundos.

Mas pensou, Já que estou aqui, por aqui entrarei… se for convidado, lógico.

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Quando pisou no primeiro degrau, à sua frente surgiu, assim do nada, braços que o abraçaram demoradamente, lábios que o beijaram carinhosamente e um sorriso simples mas verdadeiro, que o menino sentiu vir da alma daquela mulher.

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Hoje ele vai ao quintal quando quer, a qualquer hora.

Para correr, para brincar, para pintar, para admirar e conversar com a avezinha, para sentir o carinho das tulipas entre seus dedos, que está a copiar para cinzelá-las no metal.

Mas há momentos em que fica quietinho, quase que imóvel, sentindo na brisa a magia da vida.

Em tudo.

Em si.

Na mulher.

No quintal.

 

Este quintal é do menino Anizio Silversmith

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Encontro Marcado

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Entre amigos que a todo instante se esbarram, mas que dificilmente se reúnem  em um só momento.

Já se conhecem há tanto tempo que sabem quem chegará primeiro e quem o último será.

 

Seg, o extremado, chega todo atrapalhado, tropeçando nos próprios pés, dizendo para si, Se os outros demorarem mais um pouco, irei embora.

Escolheu uma mesa acolhedora e sentou-se, tamborilando freneticamente na mesa.

Não pediu nada para beber ao gentil e solícito garçom.

 

Min veio cantando, mas disse que o fazia por pura preocupação; não poderia muito ficar, Outros compromissos, você sabe.

Conversaram, trocaram algumas idéias rápidas e Seg de repente se levantou, nervoso, Para mim não dá mais, dê um abraço nos outros.

 

Min ficou sozinho, aceitou a sugestão do garçom quanto aos petiscos e algo refrescante para beber.

Começou a olhar para o relógio e, nada! Será que entenderam certo o local? E justo hoje fui me esquecer do celular…

 

Depois de longos momentos, Hor chegou, tranquila, com seus afazeres encaminhados, sorrindo para todos e dando um longo abraço em Min, que já estava alimentado, bebido e completamente desestabilizado.

E assim, pediu mil desculpas à amiga, contando meio por cima da sua necessidade de partir.

Hor também se desculpou pelo atraso, mas não adiantou, o amigo se foi.

 

O mesmo garçom se aproximou, E a senhora, vai tomar o quê?

Hor escolheu algo na carta de vinhos e aguardou pacientemente pelo último amigo.

Pediu uma segunda rodada, resolveu degustar uns queijinhos e nada do amigo chegar.

Pagou a conta e quando deixava a mesa, surgiu Tem lá na entrada.

 

Tem, com seu ar sereno, sorriso largo, passo cadenciado, foi a seu encontro.

Hor foi abraçada demoradamente, beijada nas mãos e convidada a ficar mais um pouquinho que fosse.

Ela ficou meio constrangida, mas se desculpou e, deixando no ar seu perfume suave de lembranças, se foi.

 

Tem sentou-se, pediu tudo o que tinha direito e depois de atendido no capricho pediu um charuto ao garçom, que o atendeu satisfeito porque, Pelo menos um deles consumiu o suficiente para uma boa gorjeta! pensou o rapaz entusiasmado.

Ousou ainda fazer um comentário, Se os outros o tivessem esperado, teriam aproveitado melhor o seu gosto requintado, não é?

Depois de seu delicioso cafezinho, Tem tirou uma bela caneta do bolso e escreveu em  um fino guardanapo, que propositalmente deixou sobre a mesa: Hoje, em um dia de qualquer mês de qualquer ano imaginário, tentaram aqui se reunir o Segundo, o Minuto, a Hora e eu, o Tempo.

E dando uma longa baforada em seu charuto, falou para si mesmo, Não adianta nada correrem, nunca se libertarão de mim!

 

 

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Preciso de paz, minha mãe

para fitar tua imagem

na moldura dourada do tempo

 

Só assim

ao entardecer nas teclas deste piano

conseguirei fitar tua doçura

 

O sorriso leve

na tua boca vermelha e desenhada

delineando os desejos de meu pai

 

Teu uniforme de normalista

tuas iniciais bordadas na blusa

a mocidade apaixonada brilhando nos olhos teus

 

Olhavas para quem, minha mãe

quem roubava teu olhar

fazendo-a mostrar apenas teu delicado perfil

 

Preciso de serenidade, minha mãe

para encontrar-te nesta noite de outono

mas consigo apenas morrer de saudade

 

 

 

 

 

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Sinto saudade de minha mãe.

Sua voz, seu sorriso, suas brincadeiras, seus acenos.

Às vezes falava alto, gritava mesmo, perdendo sua santa paciência, mas tudo porque queria o bem de todos.

Por puro amor.

 

Sinto saudade das vezes sem fim que me chamava a um canto, a contar-me pensamentos colhidos em sua vida.

Sim, compartilhava suas descobertas, suas alegrias, suas surpresas e desalentos comigo, dando a mim uma parte do seu coração, aquela parte de angústias, mais tarde confirmada pela sua doença.

Lembro-me do final do ano último, seus olhos buscando nos meus um raio de esperança de mais um ano a viver.

Mas não aconteceu.

 

Hoje continuamos a nos encontrar.

Confesso que para mim de uma forma mais difícil, mas não mais distante.

Compartilho com ela, eu desta vez, os medos, alegrias e tristezas e sustos que vêm acontecendo com certa frequência.

Mas quando me sorri aquele sorriso luminoso, espelho de sua alma, a sensação de que tudo torna-se mais brando me invade, como a calmaria depois da tormenta.

E mais amena, consigo contar-lhe das pequenas coisas que fazem meus dias especiais.

Consigo até contar-lhe dos meus sonhos.

E ela me ouve e sorri.

Às vezes balança a cabeça, chega mais perto, procura uma palavra, um olhar.

 

Pressinto, neste momento, sua presença e peço baixinho que me afague mais uma vez os cabelos, que cante canções de ninar, que me embale e me faça dormir.

Entre uma lágrima e outra, peço por sua proteção, sua força, sua determinação e crença que tudo vale à pena, como tudo sempre fez para aquietar meu desassossego.

Assim adormeço com a certeza de que ela me segura em seus braços de amor.

 

Perdoe-me minha mãe, talvez eu não tenha crescido a contento de seus esforços, por não ter conseguido enfrentar de frente esta vida sem você, sem os seus conselhos, sua alegria, seu carinho…

Há tantas passagens boas e alegres que vivemos e que eu poderia contar, mas é que ando bastante assustada com a vida e tenho medo de ferir-me mais.

 

Saudade, minha mãe, saudade.

Pediria apenas mais uma coisa: passar um dia inteirinho a seu lado.

Não precisa ser hoje.

Pode ser para sempre.

 

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Sempre que podia, Lia gostava de observá-los.

Não por mera curiosidade, mas com profunda admiração, posto que toda e a cada vez sempre se mostravam como se primeiro encontro fosse.

 

Trocavam algumas palavras, breves sorrisos, respiração  suspensa, olhares intensos, silêncios intermináveis.

Seus espíritos irrequietos, ansiosos, não se espelhavam nunca em seus gestos.

 

Lia sentia em ambos um comedimento tenso, como se algum descuido pudesse atirá-los um nos braços do outro, nas palavras a borbulharem em suas bocas, ou no calor de seus corpos sentido naquele simples toque de mãos, vindo a desmoronar a tentativa explícita de submissão.

Submissão aos fatos incontornáveis que se apresentavam, mas não o suficiente para sufocar o que sentiam.

 

Lia sentia que as pessoas ao redor, quase sempre as mesmas,  nada viam porque não compreendiam mesmo,  não sabiam ler os sinais.

 

Mas Lia sabia que eles se amavam, cada vez mais.

Não se diziam, mas se amavam.

Por isso admirava profundamente esse encontro silencioso.

Em silêncio.

 

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Quando inventares de passear

Veste tua túnica mais alva

Saia pela janela do céu

 

Em algum lugar

Na infinita sombra do espaço

Estarei a te esperar

 

Só conseguirás enxergar

Um ponto de luz

Meu anjo de guarda

 

Quando acostumares com a escuridão eterna

Onde estou

Verás que tenho nas mãos

Um sonho branco

 

Verás também que de meus olhos

Ainda brotam pequenos cristais

Mas agora brotam também pequenos raios

 

Vou querer te abraçar, eu sei

Mas poderás abraçar somente meu anjo

Anjo abraça anjo

 

Trocaremos algumas palavras

As que te dediquei

Mais que isso, as que sempre senti

 

Tu dirás apenas duas

As que sempre quis ouvir

E tu nunca pudeste dizer

 

E quando meu anjo me carregar de volta

Sentirei em suas asas teu perfume

E adormecerei serena

 

Tu voltarás para o céu

Para teu íntimo

Brilhando a tua luz natural

 

Eu continuarei aqui

Neste silêncio eterno

Esperando

Já não sei mais

 

 

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