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Pablo Neruda

 

Vontade tenho de alçar vôos por onde passaste.

Por certo deixaste rastros de palavras refletidas por cabeças politizadas, mas também de palavras estelares, de amor e, não posso omitir, de profunda solidão.

Sempre que penso em solidão, meu coração se aperta e tanto, ao lembrar-me de criaturas tão raras como tu, Mestre Neruda, que por transbordarem emoções, impressões fortes e tão cruas sobre o rumo das vidas, retiraram-se de entre os homens e, no que acredito, também foste tu retirado dos dias que a ti seriam destinados por mãos imundas e covardes, logo após o golpe militar.

 

Sorriste por nada e choraste por tudo que o cercava, mas que de ti já não faziam mais parte quando deflagrada a guerra civil espanhola.

Cambaleaste mais uma vez na crença de uma humanidade justa quando do assassinato de Federico García Lorca (outro poeta de rara lírica) e por assim ser, pela tua coesão com os republicanos espanhóis, acabaste destituído do teu cargo consular.

Foi quando, mais uma vez, tuas lágrimas não cansaram de indagar o que estava sendo feito desse povo que também tinhas como teu.

 

Exilado em tua própria pátria em 1949, mesmo assim nos presenteaste com o livro Canto Geral, na ocasião publicado no México e clandestinamente no Chile, onde deixou transparecer tua profunda dor, tua denúncia à imposição dos conquistadores que sugavam um povo já amargurado  pelo poderio desmedido do chamado Novo Mundo.

 

Considerado seu diário de exílio, encontro no As Uvas e o Vento, as profundas marcas que sangraram tua alma.

Amores perdidos, amigos desaparecidos, sonhos partidos como vidros que, embora multicores, já não compunham mais a tua poesia, a tua magia de viver.

 

A ti, Mestre, esta homenagem.

Eternamente despertarás minha alma a cada verso, aflorando teus sentimentos em meu ser tão carente de lirismo, como este poema que aqui deixo, junto com meu amor também e para sempre eterno.

Como é mágico poder falar contigo, mesmo que tu sejas uma grande estrela e eu, um pequeno grão de areia no universo.

 

 

 

Explicação

 

Para este país, para estes cântaros de greda:

para este jornal sujo que voa com o vento na praia:

para estas terras quebradas que esperam um rio de inverno:

quero pedir algo e não sei a quem pedi-lo.

 

Para nossas cidades pestilentas e encarniçadas, onde há no entanto

escolas com sinos e cinemas cheios de sonhos,

e para os pescadores e pescadoras dos arquipélagos do Sul

(onde faz tanto frio e dura tanto o ano)

quero pedir algo agora, e não sei o que pedir.

Quero pedir que não se mova a terra.

somos tão poucos os que aqui nascemos.

somos tão poucos os que padecemos

(e menos ainda os ditosos aqui nas cordilheiras)

há tantas coisas para fazer entre a neve e o mar;

ainda as crianças descalças atravessam os invernos;

não há tetos contra a chuva, faltam roupa e comida;

e assim se explica que eu tenha que pedir algo

sem saber bem a quem nem como fazê-lo.

 

(Quando já a memória do que fui se apague

com a repetição da onda na areia

e não lembre ninguém o que fiz ou não fiz

quero que me perdoem de antemão,

não tive tempo nunca de fazer ou não fazer nada:

porque a vida inteira eu a passei pedindo,

para que os demais alguma vez pudessem

viver tranqüilos.)

 

 

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