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Posts Tagged ‘espelho’

Olhar

 

 

O vento faz brisa

O fogo faz brasa

 

O espelho faz reflexo

A água faz imagem

 

O pé faz caminho

A mão faz carinho

 

Os olhos…

Vou fechá-los

Senão vais adivinhar

O que eles querem fazer

 

 

 

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Outra Face

 

  

Tenho diante de mim vários espelhos

Recostada onde estou

vejo em cada um deles

partes de mim

mas um só reflete meus olhos

 

Procuro neles

o sentido dessa indiferença

de brilho ausente

de gesto interrompido

de ternura antiga

 

O que procuro perdeu-se

atrás de algum dos espelhos

de algum prego solto

que rola pelo chão

em busca de outra face

 

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Eterna

 

 

Ali está aquela que me acompanha há tantos anos.

Não sei quando a encontrei pela primeira vez, perdeu-se no tempo…

Já se fez presente em algumas salas, visível e invisível aos olhos de uns, de outros.

O que mais gosta… acho que de lembranças.

Recortes de rostos, de histórias, de sensações que um dia achou importante guardar, para a qualquer momento reler, consultar, confirmar; ideologias, pequenas jóias, sentimentos, roupas, perfumes…

Daqui da onde estou, olho para ela.

Ela me sorri.

E como hoje foi dia de arrumação, empurrei-a de lá para cá, daqui para lá; depois retornei-a ao lugar de antes; aonde ela sente-se bem, porque dalí domina toda a sala, todos os olhares e palavras e gestos que se desenham na vida, nos móveis, no tempo.

Dalí admira os quadros nas paredes e lembra-se do autor, conheceu-o, sente saudade das brincadeiras que faziam, de dançar todas as músicas da coleção de discos com rótulos vermelhos

Dalí escuta conversas ao telefone, ruídos da rua, notícias na tv.

Dalí sente o aroma dos alimentos postos na mesa, do café que vem lá da cozinha e também o perfume das flores que enfeitam o vaso.

Dalí me vê, quando na rede sonho os sonhos mais improváveis, balançando a cabeça negativamente pelo meu breve sorriso que sempre evapora-se no ar.

Vê o tempo passando lá fora, a chuva, o vento; vê as pequenos periquitos quando chegam para o bom dia e, ao entardecer, como a dizerem boa noite.

Vê demoradamente meus pais e avós eternizados em molduras invisíveis, tentando adivinhar se um dia alguém a fitará também assim, em silencioso reconhecimento.

Ás vezes me vê chorando e corre a me enxugar os olhos com seus cabelos macios, feitos de paz interior; de outras me vê cantando, dançando entre as plantas, pintando, pensando, com os olhos perdidos de amor ou distantes, na escuridão do espaço, em busca da luz de uma estrela ou de um anjo.

Quando me ausento, se emudece; deita no sofá e se me demoro, entristece.

Mas quando ouve o barulho da chave na fechadura, corre para a porta, bate palmas, me beija, me abraça, sorri seu sorriso mais doce…

E, pedindo-me colo, eu a embalo até que lenta e  suavemente adormece.

Adormece em mim.

Cuido dessa criança com muito carinho, com todo o amor que sou capaz de sentir.

Para mantê-la viva.

Como meu espelho.

Como minha luz.

 

 

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Ser

 
   
 
 
Este que é meu
não é o mesmo que vejo
na companhia dos outros.
 
Este que é meu
fala ainda menos
olha ainda mais
e vejo-o, às vezes, a sorrir.
 
Este que é meu
lê comigo e para mim
poemas de animais
de campos floridos
de chegadas
de algumas partidas.
 
Este que é meu
aquieta-se em cumplicidade
com o silêncio
abraça-me
dorme conversando com as estrelas.
 
Este que é meu
está sempre comigo
no café da manhã
no espelho
nas palavras que procuro
no teclado.
 
Este que é meu
 faz-me dormir
beija-me os olhos com doçura
e fecha os seus.
 
Este que é meu
dorme e acorda comigo
como se comigo
conseguisse viver para sempre.
 
Este que é meu
não é meu
não é de ninguém
nem dele mesmo.
 
Este que é
simplesmente.
 
 

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