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Posts Tagged ‘eternidade’

 .

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Antes de encontrá-lo pela última vez é necessário

que eu chore o que me resta

para eu secar por dentro

 

Então estarei pronta

hirta e ausente,

para ouvir sua voz de palavras escolhidas,

mas opacas, vazias como seu coração

 

Para eu ver seu riso frisado, gelado

em um esforço supremo de emoção

como se carinho se encontrasse à venda

em qualquer gesto

 

Para eu sentir suas mãos frias

no meu rosto ardente…

de dor e despedida

 

Para que tanto cuidado em não me ferir

se já me apunhalou…

 

Não faltarei a esse encontro,

digo ao meu coração tão calado

 

É preciso que eu morra para renascer

no canto da boca de um outro sorriso

sentir o calor de outras mãos em profundo aconchego

morar no brilho de um olhar sereno, cuidadoso,

intenso, de desejo

 

E não haverá necessidade de palavras

 

O silêncio é mágico, é portal para outros pulsares

é linguagem de eternidade

 

É preciso que eu morra mais um pouco

um pouco mais, só mais um pouco

 

Falta tão pouco…

 

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Marcamos um encontro, apesar da nevasca.

Cheguei primeiro ao moinho.

O ambiente pareceu-me frio e abandonado.

A mó, inerte, tecida com teias de aranha, mais parecia uma mesa vazia.

Fiquei com vontade de girá-la, um pouco que fosse, só para ouvir o som da eternidade.

Fiquei tentada também em movê-la ao contrário; quem sabe, assim, eu me encontrasse com você, novamente no tempo em que sabíamos sorrir.

Subi ao palheiro e atirei-me naquela cama natural, querendo que ali você já estivesse, para sonharmos em voz alta algum momento de nossa infância.

Sozinha contemplei aquelas vigas de carvalho sustentando todo o moinho, vigas pelas quais o tempo apenas passa e que perdurarão quando muitas coisas já não mais existirem.

A idéia assustou-me, fazendo-me descer rápido do palheiro, para subir por uma escada lateral que eu não sabia aonde iria dar.

No último degrau vislumbrei um quarto em penumbra, quase vazio, mas com cortinas na janela e um breve perfume no ar.

Resolvi não adentrá-lo porque a sensação de deixar algo para ser desvendado mais tarde me agradava, sugerindo descobertas, talvez surpresas, quem sabe confirmações.

Retardei então o instante.

Deixei-o pairando no ar, como uma pena alvíssima que nunca atingiria o solo.

Somente quando se tornasse um momento real e  você estivesse presente e eu me sentisse segura por isso.

A lareira, agora inativa, ocupada por entulhos que outrora foram objetos úteis ou valiosos para alguém.

Faltava o calor da madeira a crepitar suas labaredas, até que se tornasse brasa coberta por cinzas, tal como um espelho meu.

O vento gélido e forte me abraçou e os flocos de neve, centenas, acarinharam meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.

Alguns colaram-se em meu casaco de lã e em minhas botas pesadas, pegadas que testemunharam minha presença.

Enrolei-me melhor no xale verde que emoldurava uma possível e ainda esperança em meus olhos e tomei o rumo da estrada.

 

Até hoje continuo procurando o caminho.

O caminho que me leve à sua alma, para que eu possa parar um pouco, tomar fôlego e água, respirar o ar que me falta e me debruçar na centelha de luz do seu olhar.

E caso você não me queira mesmo, ave de voo tardio que sou mesmo em meio a temporais, poder continuar ou regressar.

Ao moinho.

À espera da primavera.

 

 

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A do passado afirma

te reconheço

 

A do presente constata

ainda não te conheço

                                                                                 

A do futuro pressente

te saberei

 

E enquanto a eternidade vai passando diante dos olhos

para todo o sempre

as temporalidades recolhem-se em uma só

sem saber se esse amor

liberta ou sufoca

 

 

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Canto

… e então abraçou-me como se o anjo fosse eu!

Com ternura e suavidade.

Por um segundo senti seu coração batendo junto ao meu corpo, seus braços cingindo minha cintura.

Depois me beijou os cabelos.

E me sorriu lentamente, com o vagar da eternidade.

Senti minhas pernas fraquejarem, as imagens turvarem, a respiração alterar.

Só via seus olhos e neles mergulhei  a nadar sentimentos profundos.

Foi quando me perguntou se eu queria voar.

Não tenho asas, meu amor – respondi – mas, se quiseres,  aprendi a cantar uma bela canção, que me ensinou um passarinho sabiá!

Sem nada falar, tomou-me nos braços e alçou suave voo, voo de anjo, até o por do sol.

E de mãos dadas, sentados em uma nuvem rosa – alaranjada, vendo o sol a despedir-se de nossos olhos para dentro de nossas almas, disse-me então, com voz mansa e doce, para eu cantar aquela canção.

Sem largar de suas mãos, fechei os olhos e cantei do jeitinho que o passarinho sabiá me ensinou: com a simplicidade da alma, com a intensidade da emoção.

Por toda a noite.

Por todo o verão.

Por toda a vida.

Para ele.

Só para ele.

 

 

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Quando inventares de passear

Veste tua túnica mais alva

Saia pela janela do céu

 

Em algum lugar

Na infinita sombra do espaço

Estarei a te esperar

 

Só conseguirás enxergar

Um ponto de luz

Meu anjo de guarda

 

Quando acostumares com a escuridão eterna

Onde estou

Verás que tenho nas mãos

Um sonho branco

 

Verás também que de meus olhos

Ainda brotam pequenos cristais

Mas agora brotam também pequenos raios

 

Vou querer te abraçar, eu sei

Mas poderás abraçar somente meu anjo

Anjo abraça anjo

 

Trocaremos algumas palavras

As que te dediquei

Mais que isso, as que sempre senti

 

Tu dirás apenas duas

As que sempre quis ouvir

E tu nunca pudeste dizer

 

E quando meu anjo me carregar de volta

Sentirei em suas asas teu perfume

E adormecerei serena

 

Tu voltarás para o céu

Para teu íntimo

Brilhando a tua luz natural

 

Eu continuarei aqui

Neste silêncio eterno

Esperando

Já não sei mais

 

 

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Gosto de ser assim
paciente, calma
trocando um pé depois do outro
embora minha tranquilidade
às vezes
seja tão aparente quanto a do espelho
onde costumo encontrar-me sempre
pelas manhãs

 

 
Gosto de ser assim
atenta, delicada
gestos suaves
porque pretendo,
até que eu me vá,
estar sempre fazendo um carinho
nas coisas, nas pessoas,
na vida

 

 
Gosto de ser assim
silenciosa
em meio a um turbilhão
discreta, ponderada
para que as pontes
às vezes tão precárias
aos meus pés não se rompam
atirando-me nas correntezas frias
das águas de pedras cortantes

 

 
Gosto de ser assim
de olhar nos olhos
pressentindo um riso doce
ou um gesto
desenhando pequenas alegrias
no ar

 

 
Gosto de ser assim
buscar o improvável
a mola que me move
infinita

 

 
Gosto de ser assim
suave e colorida
quando voo
ao encontro do meu lar interior
quando comungo com as forças
do Universo
sentindo em meu rosto
o suave roçar da eternidade

 

 
Gosto de ser assim
com todos os medos catalogados
(como diz  Adélia Prado)
e com todos os sonhos organizados
para serem sonhados
outra e mais outras vezes

 

 
Gosto de ser assim
quando choro
quietinha de emoção
quando as palavras são mais
que palavras
sentimentos
que me tocam profundamente

 

 
Gosto de ser assim
mesmo quando morro pouco  a pouco
de saudade de ter vivido
o que não houvera…

 

 
Gosto de ser assim
embora aconchegante
e tranquila e sozinha
em minha cama,
sentí-lo por perto
tão perto
a mim abraçado
como uma possibilidade
e dormir serena
sentindo-o a me acarinhar

 

 
Gosto de mim assim
com pés no chão
coração a voar pelos campos
mares
lugares que me fazem ser assim

 

 
Gosto de mim

 

 

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Imagem Eterna

 

 

Saber que a vida é eterna

o que me faz sentir

 

 

O que escolhi para lembrar

o que não quero esquecer

que palavras deixar para trás

e qual novamente trazer

 

 

E  quando me encontro procurando

de mim

um sentido para esta saudade

esta vontade de viver

um abraço que não dei

um beijo que não roubei

 

 

Penso compreender

que você é o presente

que eu quis trazer

mesmo que ausente

de meus braços

nesta vida

 

 

Mas como a vida é eterna

eternamente terei você

como saudade

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