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Posts Tagged ‘euforia’

 
 
 
 
 
 
 
Bandeiras nas janelas.
Prédios enfeitados com balões e bandeirolas de festa junina em verde e amarelo.
Calçadas e ruas pintadas.
Entristeço-me.
Acho que essa é a única ocasião em que a maioria dos cidadãos entra em contato mais estreito com a bandeira de sua pátria.
Pergunto ao rapaz se não vai escrever “Ordem e Progresso” na faixa branca. Não, diz ele, todo mundo sabe que é a bandeira do Brasil, moça!
É, sem os dizeres talvez retrate melhor o país.

 

 Outro rapaz desenha e pinta, no meio da rua, as caricaturas dos jogadores mais famosos.
Pergunto se ele conhece alguma técnica, desenha tão bem!
Não, não conheço, diz ele; é um dom a serviço dos outros.
Me animei.
Pergunto se ensina, se faz alguma atividade voluntária.
Só na copa, moça, ou em decisões finais de campeonatos.
Entristeço-me.
Ando muito sensível, entristeço-me à toa.

 

 Vejo o cuidado com que pintam a rua, a gentileza com que pedem aos motoristas para que desviem seus carros das pinturas…
Fico feliz, moça, fico eufórica em estar cooperando, diz uma garota.
Entristeço-me ainda mais. 
Há tanto o que fazer, modificar…

 

Fico imaginando toda essa energia pairando no ar, onde tudo o que querem realiza-se, basta que queiram.
A vontade é a senhora das realizações, não é assim?
Fico imaginando todos eles reunidos, ajudando a pintar uma escola, a jogar o lixo nas latas ao invés de sujar as ruas, a doar um agasalho, um prato de sopa, um pedaço de pão.
Fico imaginando-os gentis no trânsito, em casa com seus familiares, tratando com educação os porteiros e moradores de seus prédios, desejando um bom dia a seus colegas de trabalho, em qualquer ambiente que seja, no dia a dia.
Fico imaginando… já sei, já sei! Estou sonhando, ou melhor, delirando; melhor ainda, estou em grave estado febril.
 Perdoem-me esta alucinação momentânea.

 

Vou tomar um comprimido na farmácia e depois achar uma loja para comprar uma vuvuzela bem potente, para fazer muito barulho.
Quem sabe assim esqueço-me do potencial que habita cada ser humano e que está sendo jogado no lixo, a cada dia, a cada instante, por ele mesmo, quando se fecha, se tranca e vive só para si.
E quando se comunica com o exterior, geralmente o faz da forma mais agressiva ou irônica ou prepotente.

 

Paro no meio fio da calçada para descansar um pouco, constatando mais uma vez do quanto podemos e pouco fazemos… Dá licença, moça, preciso pintar aí; será que você me faz o favor de mudar de lugar?
A educação, a confraternização da copa… ou seja, a mesma do Natal, a mesma do final de ano: gentileza com data marcada.

 

A cidadania está para bater um penalti mas já sabemos o resultado.

 

Alguém de sabedoria secular disse uma vez que o resultado do que fazemos nos espera mais adiante.

                                                                     

  

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