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Posts Tagged ‘experiências’

 

Fui visitar minha amiga Donata e logo que saí do elevador senti aquele cheirinho gostoso de amendoim recém torrado.

Conversamos um pouco e quando saí o cheiro estava mais acentuado ainda.

Vim andando pela rua, ou melhor, meu corpo veio caminhando porque a mente estava lá atrás, em um momento da minha infância, quando eu deveria ter, não sei ao certo, uns oito, nove anos.

Mamãe assava amendoins no forno para fazer alguma guloseima, quando entrei intempestiva pela cozinha, Mamãe, mamãe, quero dois amendoins, Mas para quê, minha filha? Para comer, mamãe!

Como mamãe estava atarefada com outras coisas, pegou uma porção deles e colocou na minha mão, Só quero dois, mamãe, e saí correndo, deixando o restante em cima da mesa.

Como já havia planejado, fui ao lugar mais isolado da casa naquele horário, a sala de visitas.

Fechando a porta de mansinho, sentei-me no cantinho do sofá, tirei as casquinhas dos amendoins e… pronto! estavam prontos para a minha experiência.

Peguei um, o menor, enfiei na narina esquerda e disse em voz alta, não muito alta, Anotar no caderno a conclusão da 1ª fase do teste: ainda consigo respirar.

Peguei o outro amendoim e o enfiei na narina direita, ordenando a mim, mas mentalmente, com medo de ser ouvida, Anotar no caderno a conclusão da 2ª fase: ainda consigo respirar, mesmo quando estou de boca fechada.

E, satisfeita, ordenei para mim finalmente, Anotar última fase: 100%de sucesso na experiência!

Agora era só tirar os amendoins, jogá-los fora, anotar as informações, guardar meu caderno de experiências e contar a todos o resultado da minha curiosidade.

Foi aí que o desastre aconteceu: os amendoins, lisinhos, subiram narinas acima quando, acho eu, respirei um pouco mais profundo.

Tentei puxá-los.

Enterraram-se mais.

Saí correndo e chorando, Mamãe, enfiei dois amendoins no nariz e não consigo respirar! Tire para mim, por favor!

Mamãe, aflita, tentou tirá-los, mas os danadinhos entraram ainda mais.

Trocou minha roupa, trocou-se, ligou para meu pai e para meu padrinho e fomos parar, todos, no hospital.

Lembro-me do médico indagando meu pai, Por que essa menina, com essa feição de anjo, resolveu fazer isso? Ninguém viu?

Já liberta dos amendoins, contei a ele da minha experiência.

Fiquei brava por ele querer culpar meus pais e acrescentei ingenuamente que Embora eu esteja ainda bastante assustada, quero chegar logo em casa para anotar tudo no meu caderno. Doutor, como é mesmo o seu nome?

No meu íntimo estava contente em ter podido satisfazer minha curiosidade.

No dia seguinte, quando mamãe dava orientações à cozinheira que escolhia feijão, entrei toda alegrinha, Lurdes, posso pegar dois feijões?

Mamãe, suspendendo a respiração, olhou-me incrédula.

Mas sentiu um grande alívio quando dei uma gostosa risada, contente com a nova brincadeira que havia inventado, ou seja, tudo que eu pedisse a alguém, seria sempre apenas dois.

Gostava de observar a reação das pessoas quando eram pegas desprevenidamente.

Foi sorrindo daquela lembrança, que coloquei a chave na fechadura de minha porta.

E aí fui eu quem teve uma reação assustadora porque não me lembrava de ter atravessado a rua, entrado no prédio, apertado o botão do elevador, saído no corredor…

Meu anjo já me alertou para eu não sonhar em trânsito e agora só me resta pedir que me perdoe pelo trabalho que devo ter dado, e também recomendar à você que me lê, Não sonhe em trânsito, mesmo e principalmente se você for um adulto criança como eu.

 

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