Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘felicidade’

papai-noel-002

 

A primeira vez que me lembro de ter vindo a São Paulo, talvez com nove ou dez anos, fui trazida pelas mãos de minha mãe e de meu avô.

Assustei-me com uma cidade que não tinha fim, que crescia para cima, para baixo e que parecia um verdadeiro formigueiro.

.

Era Natal e fomos passear , primeiro de carro na 23 de Maio inaugurada há pouco e depois, de ônibus na Paulista, quando ainda era aquela avenida larga, linda, com alguns casarões (dos quais hoje resta apenas a Casa das Rosas, casa de encontro dos poetas paulistas).

.

Ao subirmos no ônibus, não achamos lugares juntos; sentei-me um pouco à frente de minha mãe e meu avô ficou mais atrás.

A cada parada, pessoas iam se acomodando.

Comecei a me afligir porque agora já havia pessoas em pé entre minha mãe e eu e, meu avô, eu já havia perdido de vista.

A cada parada ninguém descia, só subia.

E eu já não enxergava direito minha mãe.

.

E se eles descerem e me esquecerem? pensava eu.

E se eles, ao descerem, não conseguirem me levar junto? sofria eu.

Tamanho meu desassossego que, em um ímpeto de medo e insegurança, fiquei em pé sem me apoiar em nada.

No exato momento em que o motorista deu uma freada brusca, talvez por imprudência de algum pedestre ou outro motorista.

.

Sem equilíbrio, comecei a despencar corredor à fora, defendendo-me como podia, desequilibrando os outros, agarrando pernas, vestidos, calças (aqui entre nós e para o bem da verdade, agarrei em um senhor que, tenho a impressão, não se esqueceu tão cedo de minhas mãos pequenas porém muito fortes, a apoiar-se aonde não devia…)

.

Quando o chão do ônibus já estava no meu campo de visão, senti alguém me segurar e me erguer rapidamente, de modo que não cheguei a me ferir.

E fui olhando aquela imensa mão no meu braço, coberta por uma luva branca e, assim, fui percorrendo com os olhos o seu braço em um casaco vermelho vibrante, até chegar em seu rosto de barba comprida e branca, capuz na cabeça…

.

Não cabia em mim de felicidade por ter sido salva pelo Papai Noel!

Procurei minha mãe e avô, como que para confirmar o que havia acontecido.

Lá no fundo do ônibus, meu avô sorria doce e cúmplice de minha felicidade e minha mãe logo disse, Agradeça ao Papai Noel, Isabel!

.

E, ao invés disso, olhei devagar para ele e perguntei, Mas Papai Noel anda de ônibus? Aonde está o seu trenó?

Ele nada respondeu, apenas sorriu e me deu um beijo na testa, ao notar meu espanto.

.

Descendo do ônibus ouvi minha mãe comentar, Ninguém vai aguentar essa menina contanto essa história a noite toda!

Bom… e aqui está a história mais uma vez para quem já havia escutado; para quem não conhecia, posso dizer que meu coração ainda bate diferente quando me lembro dessa passagem, e minha mãe estava coberta de razão, contei inúmeras vezes para muitas pessoas dessa noite que, para mim, foi encantada!

.

Ah! Antes de descer, também dei um beijo no Papai Noel e pelo caminho fiquei pensando, Como é que a gente sabe que o Papai Noel está sorrindo debaixo de toda aquela barba?

Então descobri (e nunca mais me esqueci) que Papai Noel sorri com os olhos e é por isso que eles brilham como estrelas!

.

Feliz Natal!

 

Anúncios

Read Full Post »

Sabes quem é?

flor-coracao

 

 

As visitas só podem ser feitas às terças feiras.

Mas a cada terça, a menina a encontra com uma lembrança diferente, de pessoas diferentes, de momentos que já não sabe mais em que espaço adormeceram.

 

Desta vez encontrou-a com uma foto nas mãos, de alguém que não havia mencionado sequer a existência.

Seu rosto estava iluminado e a menina se surpreendeu com essa quase felicidade que não havia notado em nenhum momento, até então.

As mãos da senhora tremiam e, assim, dava impressão à menina de que a pessoa na foto se mexia enquanto sorria.

 

Sabes quem é? – pergunta a senhora, arrumando a gola de sua blusa, como se quem estivesse na foto pudesse vê-la – e a menina negou com a cabeça, esperando um nome, uma data, uma história.

Mas o que viu foi apenas os olhos da senhora pousarem novamente naquele sorriso e com os dedos ainda trêmulos acariciar o rosto, os olhos, a boca, os cabelos daquele que lhe sorria.

 

Por algum tempo assim permaneceu a fitar aquela expressão serena, tranquila, suave.

E a menina, a seu lado, apenas acompanhava o caminhar daquele instante.

 

Até que a senhora se apercebeu novamente de sua presença e, passando-lhe as mãos delicadamente em seus cabelos sedosos, perguntou novamente – Sabes quem é? É o grande amor de minha vida! – e a menina novamente se calou, intrigada com a surpresa que notou na voz da senhora, como se ela tivesse o dever de saber a quem se referia.

 

No instante seguinte, a senhora guardou a foto na caixa de lembranças e retirou-se novamente para o mundo que construiu, onde sempre era feliz, onde sempre sorria como criança para seu amor.

 

E o horário da visita terminou.

E a menina saiu da mesma forma que entrou, sem sequer saber um nome, um lugar no tempo, embora com a certeza de que havia escutado, no silêncio daquele mundo mágico, uma história de amor.

 

 

Read Full Post »