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Posts Tagged ‘feridas’

Por puro desespero e solidão, pintou-se cuidadosamente, mas sem prestar muita atenção à sua máscara refletida no espelho.

Colocou uma rosa de tecido já meio desbotado nos cabelos, a saia mais justa e mais curta que nunca parava dependurada em seu guarda roupa, um sapato extravagante, uma bolsa, um batom.

E entregou-se a outros homens.

Permitiu outras mãos que não as dele, ouviu sussurros e indecências, mas que de uma certa forma faziam-na sentir-se viva.

Paciente esperava a satisfação alheia, nunca a sua, e ria de todos ao sentir-se desejada sem nada oferecer.

Beijaram-na, abusaram-na e só quando foi abandonada em algum travesseiro frio é que voltou a pensar naquele que sempre amou.

Suas lágrimas de vidro brotaram sem soluços e mais uma vez rasgaram-lhe os olhos, retalharam-lhe o rosto, corroeram-lhe a  alma.

Não se sentia no direito de fazê-lo enxergar sua terna existência, que invisível era diante de tantos desencontros.

E ele, inteligente, profundo, sensível, brilhava até mesmo quando o tempo fechava-se em tempestades.

E não conseguindo alcançá-lo, deixava-se alcançar.

Até que eles a matassem lentamente.

De uma vez.

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Quero morrer esquecida

da política tirana que precisei engolir

quando se jurava igualdade

 

Quero morrer esquecida

dos preconceitos porque passei

por ser apenas uma mulher

entre burgueses engravatados

 

Dos desamores porque sofri

dos amores que sufoquei

do último despojado

de sua condição de primeiro

 

Quero morrer esquecida

das palavras que cortavam

como canivetes afiados

meus sonhos

 

Da mesquinhez

mascarada de verdade

a dizer sobre mim

o que nada sabia

 

Quero morrer esquecida

me pensar uma borboleta

um grilo da mata

uma criança

 

Sorrindo para as pontas

de meus dedos

arrastando um lençol leve e branco

como se fosse um anjo

a me acompanhar

 

Esquecida

de que um dia

lembrei de esquecer

 

 

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