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Posts Tagged ‘flor’

cerejeira1

 

 

Cerejeira, cerejeira…

com teus galhos quase secos

quase negros

voltados aos céus como em prece!

 

Logo tua pele eclodirá

em milhares de florzinhas rosas

quase brancas

como dádivas de seu pedido à Natureza

de perfume, beleza e ternura

 

Maravilharás meus olhos

que, como encantados,

acompanharão essa transmutação

como se mágica fosse

 

Todo ano, todo encanto

como surpresa de primeira vez!

 

Me fazes sempre lembrar

da vontade de ter junto à mim

aquele que habita meu coração

 

Por certo comigo desvendaria

tua leveza, tua beleza,

Senhora Alteza Cerejeira,

hoje em prece e luz

 

 

 Em homenagem à cerejeira cultivada por minha amiga irmã Elizabeth Panebianco, em sua casa de campo

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Filosofar

moça e água

 

Rio

porque esta que me olha

me sorri

e eu nem sei quem é

 

Estende-me as mãos

me oferece uma flor singela

e eu me aproximo do rio

para ver

quem é?

 

E por estar assim

rés ao espelho d’água

nele caio como um sopro

 

Rio

porque mergulho no rio

e o rio porque se envolve em mim

 

E rimos os dois

o rio porque corre em mim

eu porque corro com o rio

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” Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”.

Antoine de Saint-Exupéry

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Sem pedir licença, esta lembrança vai me pondo em sobressaltos, impregnada de  emoção e pranto.

 

Um dia tornaste-me tua rosa.

Fui tua rosa.

Regaste-me mais do que eu a ti, muito mais.

Plantaste-me, definindo com cuidado os tons das pétalas, a sustentação do caule, as folhas farfalhantes ao vento  e meu perfume suave, porém marcante.

Espinhos também, para que eu pudesse me defender caso tu adormecesse.

 

Um dia veio a vontade de libertar-me.

Tudo parecia triste, pequeno, solitário.

No meio da noite imóvel talhei meu caule sem vacilar.

Fugi do teu canteiro que meu também era.

Mas tu, jardineiro de minha alma, me encontrando mesmo assim, continuaste visitando-me e regando-me, agora com o silêncio da tua dor.

Não me perguntaste sequer se eu havia sido roubada e replantada neste outro canteiro ou se sozinha fugi.

Deste-me vida e nada pediste; em troca, nada te dei.

 

Depois de chuvas e sóis, no antigo canteiro outra flor nasceu.

Outra rosa, uma rosa que você plantou, não sei bem se com o mesmo cuidado, o mesmo riso matinal, o mesmo beijo carinhoso, cantando os mesmos versos de amor.

Outra rosa… lembra-te?

 

Embora eu soubesse da nova vida em teu jardim, quando passavas por perto da minha contínua solidão (de nada adiantou-me fugir), eu apenas sorria e perguntava se estavas bem.

Mas meu coração gritava sufocado, perguntando se por ventura brotara alguma folhinha, alguma florzinha de meu pé esquecido lá no canteiro, ou se ele havia morrido de vez.

 

Hoje resta o orvalho em mim.

Cresci, é verdade; hoje meço dez pétalas, cinco folhas e uma haste.

Os espinhos, perdi a conta.

para meu primeiro amor

1.971

 

 

 

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Me encontravas, mãe querida, quando ainda pequena, de joelhos aos pés de minha cama a rezar.

Achavas bonito e terno, eu sei, e corrias a chamar e a pegar meu pai pelas mãos, para que ele visse também.

E juntos, à entrada do quarto, abraçavam-se enternecidos pelo meu gesto.

Quem sabe até agradeciam por aquele momento sublime, intimista, de elevação espiritual.

 

Mas o que não sabias, minha mãe, é que todas as noites eu pedia a Deus para morrer antes da senhora e meu pai, porque eu não suportaria, não suportaria tanta ausência.

 

Um dia, agoniada com essa possibilidade, fui me aconchegando ao vovô e contei-lhe da minha aflição, Estou errada, vovô, estou?

Ele olhou-me nos olhos com olhos de doçura e, com serenidade na voz e nos gestos, falou-me, O que você acha que é pior, um filho perder seus pais que já viveram uma parte de suas vidas,  ou os pais perderem esse filho que mamãe sentiu no ventre e que, junto, papai viu nascer e crescer a cada momento de sua vidinha?

A partir desse dia, minha mãe, não fiz mais meu pedido a Deus, embora deixasse claro a minha incapacidade de sobreviver.

 

Hoje, para mim, continua sendo a data de teu aniversário e com certeza, minha mãe, aonde eu estivesse, correria para teus braços, teu calor, teu beijo doce, teu riso contagiante, tua voz a dizer meu nome com carinho (ainda guardo em mim o timbre de tua voz…), para entregar-te esta flor da cor que tanto gostavas.

Com a mesma certeza, escreveria um cartão repleto de palavras de eterno amor, colocando dentro dele, mais uma vez, o que já era tua: minha razão de viver!

 

Deus não me ouviu, eu sei.

Talvez, enquanto eu ainda pedia, naquele horário já estivesse dormindo ou contando histórias para os anjos.

Sei também que hoje és um de seus anjos a me proteger e a todos os seus filhos, mas… o que faço, minha mãe, assim de mãos vazias, sentindo essa insuportável e insustentável saudade?

 

 

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Saudade IV 

 

Parada diante deste mármore negro e gélido, não consigo pensar em nada.

Meus olhos não conseguem desviar-se de teu nome nesta lápide.

Quero olhar para este anjo de bronze que tão bem esculpido foi, mas não consigo.

Imóvel, apenas sinto o vento frio do outono, as folhas correndo pelo chão, como se tempo houvesse para mais algum pedido ou esperança.

Meus olhos se turvam, mas meu coração está em paz.

Teu nome cravado em minha alma tenta mostrar a razão de todos os sentimentos em que me procuro em vão.

 

 

Penso em nada.

Lembro-me de meu mestre que diz, Para se entrar em estado de meditação é preciso que não se pense em nada.

Não consigo; nada, para mim, possui forma, cor, peso, aroma, calor, dor.

Penso em nada.

 

 

Não te trouxe uma flor sequer.

Sei que sempre dizias que flores foram feitas para serem apreciadas, não para serem colhidas e, assim, mortas.

Mas a natureza, generosa, enfeitou este lugar que ainda penso não ser o teu.

Não trouxe nada.

Nenhuma novidade para compartilhar, alguma dúvida a indagar, muitos dos medos a me rondar.

Nada.

 

 

Veio-me um pensamento.

A primeira coisa que nos dão nossos pais ao nascermos é um nome e, depois de trilhado o caminho que nos cabe, tornamo-nos apenas esse nome.

Esculpido em uma pedra.

Acho que é daí que vem aquele adágio, Vamos colocar uma pedra nisso e seguir em frente.

Uma pedra, um nome; será mesmo só isso?

 

 

A tua passagem por minha vida hoje me parece um sonho.

Quando foste embora, adormecemos os dois; tu do lado da tua nova descoberta, eu aqui seguindo ao lado de meus passos, fazendo-me de mansa para brincar de aceitar situações.

Perdas.

Sonhos em vão.

 

 

Tiro a luva da mão direita e atiro um beijo para o teu nome, é apenas o teu nome que ali está, eu sei.

Um beijo de saudade, de carinho, de dor, de vontade de ouvir novamente tua voz, teu riso, tua postura de príncipe que sempre foi.

Deixo que as folhas de outono permaneçam sobre o mármore; já não precisas de adornos porque tu és a própria luz, embora o céu esteja cinzento e comece a chover.

 

 

Abençoe-me, é só o que peço, e olhes sempre e um pouquinho para mim.

Preciso tanto do teu amor para poder prosseguir.

 

 

 

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Fecho os olhos, respiro profundamente e vislumbro os teus cômodos mais íntimos.

Aquele onde teus vestidos luxuosos permanecem estáticos.

Aquele onde teus sapatos se calam sem caminhos.

Aquele onde tuas jóias adormeceram em caixas silenciosas de veludo.

Aquele onde um espelho de parede inteira não mais reflete tua imagem.

Aquele onde um batom permanece aberto, como se fora usado a pouco, acenando o inacabado.

Nada se move, silêncio profundo, penumbra.

 

Necessitando de ar, permito-me correr as cortinas do quarto e abrir aquela porta que dá para o jardim, onde pássaros e flores seguem o curso natural da vida.

É quando os cômodos são invadidos primeiro pela brisa e depois pelo sol e essa lufada de vento e luz me faz constatar que realmente é primavera e que estamos na presença uma da outra.

Sei que estás ali, com teu riso farto, tua naturalidade, tua espada de guerreira nas mãos, tuas palavras doces e tua vontade tão grande de viver.

 

Em uma entrevista me fizeste lembrar, o que me sensibilizou, um dos escritores que tanto amo, José Saramago,  quando falaste “não tenho medo de morrer, mas tenho uma peninha… adoro conviver com as pessoas, meus cachorros, meu trabalho, conhecer lugares.”

 

Tão forte tua presença que cheguei a ouvir tua risada e a sentir, mais uma vez, a imensidão da tua luz, a distância que um simples gesto teu pôde alcançar, o pedaço de teu coração que entregavas junto a cada carinho.

 

Então me certifiquei de que teus cômodos mais íntimos não foram os que de imediato vislumbrei, porque não importa o que tenhas deixado pelos cômodos de tua casa e sim, o que guardavas em teu coração e transbordava em tuas emoções: Vida!

Sem medo de críticas, julgamentos, rótulos, sem receio de nada, porque o que expunhas era autêntico, tua alma rara.

 

Cerro as cortinas e antes de deixar esta visão, coloco uma rosa, a que mais gostavas, em teu travesseiro, certa de que a receberás aonde quer que brilhes agora.

Querias apenas ser feliz, Hebe Camargo, e assim o foi.

Linda de ver, Linda de viver!

 

  A vida é tão bonita e eu tenho tanta pena de morrer”

José Saramago

 

 

 

 

 

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Pega-me entre as mãos

como se eu fosse uma flor

já vivendo sua tarde

 

Sente meu perfume suave

como é suave a brisa

lá nos bambuzais

 

Coloca-me num vaso

e enquanto alimenta-me

com a água pura e fresca

 do rio que corre lá no pomar

diz-me uma palavra doce

para me confortar

 

Afinal não é todo dia

que uma flor tardia

tem consciência

da sua permanência

 

Estende por debaixo do vaso

aquela toalha rendada

pelas mãos de minha mãe

para que me faça companhia

 

E quando saíres da sala

pisa manso

devagar

para que eu não suspeite

que partes

e nunca possa mais te olhar

 

 

  

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