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Posts Tagged ‘gesto’

 .

 

Foi então que Raquel resolveu definitivamente fugir.

Digo definitivamente porque já havia ameaçado fazê-lo por diversas vezes, faltando-lhe a atitude final.

Agora não, era para valer.

 

Para que não percebessem de imediato sua ausência, levou apenas uma pequena bolsa onde guardou aquele livro inseparável de poemas, uma fita para amarrar seus cabelos, um óculos de sol, outro de leitura e, uma hortênsia do seu jardim que insistia em fazer-lhe companhia.

 

Fora isso, os sapatos nos pés, as roupas no corpo e um enorme chapéu na cabeça para, caso chovesse, dar abrigo aos passarinhos.

Na mão direita um bloco e uma caneta de tinta violeta: na esquerda, um mapa que, a bem da verdade, de nada ser-lhe-ia útil, porque a ideia era a de não traçar mais rumos algum.

 

Raquel não deixou bilhete a ninguém, mas fez uma anotação bem falsa na agenda que deixou aberta em cima da cama, para enganar a quem lesse, do destino que tomou.

 

Não apagou a luz; já bastava ter vivido no escuro por tanto tempo.

Não levou nada para o trajeto porque pretendia continuar alimentando-se somente de sonhos.

 

Antes de sumir de vista, Raquel virou-se para trás e fez seu primeiro e último gesto grosseiro a tudo e a todos, mesmo sem que a vissem.

Depois virou a esquina e, num salto mortal, pulou para fora do planeta para nunca mais.

 

 

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 movimento

 

  

Voar em círculos

circunscritos

pousar no centro

  

Olhar de dentro

reconhecer

em tempo

  

Buscar no silêncio

o espelho das estrelas

centelhas

  

Olhar de fora

sem sobressaltos

o vulto oculto

  

A sombra

O gesto

O desafio

  

No quarto círculo

circunscrito

repousar

 

 

 

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Sinto-me

tua

como se em teu gesto

mais sereno

ou mais severo

eu morasse

 

 

Sinto-me

pequena

entre teus planos

tuas buscas

e mesmo assim

sinto-me tua

 

 

Sinto-me

tua e só

porque em meio

a tantos projetos

e anseios

não consegues sequer saber

que existo

 

 

 

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Em Você

  

  Ando

silenciosa e branca

pela casa

silenciosa e branca

procurando nos espelhos

o olhar perdido

 

Entre um passo

e outro

os pés se cansam

do permanente desencontro

 

Nas folhas das plantas

um possível carinho

nas flores

apenas orvalho

 

O perfume

e a beleza

a doçura

e a poesia

estão todos em você

 

 

 

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Dor

 

 

Com água, mel e calor

acalento tua dor

uma dor que não sei

mas uma dor que sinto

nos teus olhos

nas tuas palavras

em teus gestos perdidos

desenhados no ar

 

Quando te olho

morro-me toda de saudade

por não poder tirar

teus óculos

e olhar em tua alma

e entregar a minha alma

esta, que tens há tanto tempo

sem ao menos saberes por quê

  

Com água, mel e calor

te embalo

e também à tua dor 

 

 

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Gosto de ser assim
paciente, calma
trocando um pé depois do outro
embora minha tranquilidade
às vezes
seja tão aparente quanto a do espelho
onde costumo encontrar-me sempre
pelas manhãs

 

 
Gosto de ser assim
atenta, delicada
gestos suaves
porque pretendo,
até que eu me vá,
estar sempre fazendo um carinho
nas coisas, nas pessoas,
na vida

 

 
Gosto de ser assim
silenciosa
em meio a um turbilhão
discreta, ponderada
para que as pontes
às vezes tão precárias
aos meus pés não se rompam
atirando-me nas correntezas frias
das águas de pedras cortantes

 

 
Gosto de ser assim
de olhar nos olhos
pressentindo um riso doce
ou um gesto
desenhando pequenas alegrias
no ar

 

 
Gosto de ser assim
buscar o improvável
a mola que me move
infinita

 

 
Gosto de ser assim
suave e colorida
quando voo
ao encontro do meu lar interior
quando comungo com as forças
do Universo
sentindo em meu rosto
o suave roçar da eternidade

 

 
Gosto de ser assim
com todos os medos catalogados
(como diz  Adélia Prado)
e com todos os sonhos organizados
para serem sonhados
outra e mais outras vezes

 

 
Gosto de ser assim
quando choro
quietinha de emoção
quando as palavras são mais
que palavras
sentimentos
que me tocam profundamente

 

 
Gosto de ser assim
mesmo quando morro pouco  a pouco
de saudade de ter vivido
o que não houvera…

 

 
Gosto de ser assim
embora aconchegante
e tranquila e sozinha
em minha cama,
sentí-lo por perto
tão perto
a mim abraçado
como uma possibilidade
e dormir serena
sentindo-o a me acarinhar

 

 
Gosto de mim assim
com pés no chão
coração a voar pelos campos
mares
lugares que me fazem ser assim

 

 
Gosto de mim

 

 

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