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No Primeiro Dia

 

Quando os poemas me tocam profundamente, quando tornam-se poesias a correrem em minhas veias, costumo apossar-me do poeta, dizendo que ele é meu.

Hoje, 23 de setembro, deixo aqui minha homenagem a um de meus poetas de alma, transcrevendo abaixo não um de seus imortalizados poemas, mas desta vez, um poema dedicado a ele, escrito por um outro poeta.

 

Pablo Neruda, tua voz é inconfundível na poesia, teu jeito tão próprio de dizer do amor, da melancolia a jorrar pelas palavras como se lágrimas fossem.

 

Sinto meu corpo se agitar quando falas do fogo que arde no coração dos amantes…

 

Sinto vida, vibração e luz em tuas palavras, que sei brotarem de tua alma, de tua maneira de ver e sentir a poesia em cada momento em que a natureza se mostra aliada a cada ser pulsante.

 

Sinto solidão profunda naquele até breve que transmutou-se em adeus…

 

Amo-te, poeta, e à tua magia que me leva pelo espaço e pelo tempo, como uma ave a piar e a planar intensos sentimentos.

 

Só uma coisa não entendo, meu poeta… porque foste embora justamente no primeiro dia da primavera…

 

 

Boa noite, Pablo Neruda. Neste instante

Ouvi cantar o primeiro pássaro da primavera

E pensei em ti. O primeiro pássaro da primavera

Cantou, parece incrível. Mas ainda existem pássaros

Que cantam em noites de primavera.

 

Estou sozinho e tudo é silencio. Meus filhos

Foram dormir. Minha revolta, provisoriamente

Também foi dormir. A verdade, poeta

É que te tenho presente, a cerveja está bem gelada

E o pior ainda está por vir.

 

Hoje pensei em Lorca. Vi-o nitidamente

Caminhando entre soldados. Seus olhos

Me olhavam entre dois canos de fuzis, desfigurados.

Hoje soube que teve medo, teve medo de morrer

Teve medo, mas não dizia nada.

Agora, no entanto, a noite, amigo

Se estende sobre nós, plantada de lírios

Faiscantes. Lorca morreu. Outros morrerão

Talvez tu, talvez eu. O inimigo

Possui fuzis, o que não impede a primavera

ser saudada pelos pássaros.

Hoje mais do que nunca o mundo avança

Para uma Aurora ainda aprisionada.

Tentemos resgatá-la com poesia

Cada poema valendo uma granada

Como disseste imortalmente um dia

                                              Vinicius de Moraes (1948)

 

 

 

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