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Posts Tagged ‘humanidade’

 

“Quando eu morrer… se pusessem uma lápide no lugar onde ficarei, poderia ser algo assim: “Aqui jaz, indignado, fulano de tal”. Indignado, claro, por duas razões: a primeira, por já não estar vivo, o que é um motivo bastante forte para indignar-se; e a segunda, mais séria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto.”  

                                                                            José Saramago

 

 

Nestes dias em que permaneci em completa incapacidade física, o que me restou de prazeroso, além de pouco me alimentar e muito repousar, foi ler bastante.

É verdade que dormi muitas vezes no meio das leituras, com palavras embalando minha alma em devaneios e só acordava quando o livro me caia das mãos.

Consigo ver o lado bom dessa quase inércia física, além da minha total vulnerabilidade; é que a febre traz consigo a alucinação e assim, meus pensamentos se apossam de meus sentidos; é quando me entrego toda aos sonhos mais impossíveis, aos desejos mais incontroláveis, a presenças eternamente invisíveis, a esperanças que se foram a cada final de estação.

Mas essa é outra história.

 

Nos meus momentos de lucidez, comecei a reler José Saramago e lembrei-me da data em que se foi para outras esferas, onde por certo continua com sua obra mágica, magnífica e instigante.

Sempre.

Deixo aqui a minha mais profunda saudade e uma pequena homenagem ainda que tardia.

Fui à minha micro-biblioteca e aleatoriamente peguei um livro dele, ou melhor, caiu-me às mãos o livro “As Palavras de Saramago” organizado e selecionado por Fernando Gómez Aguilera.

Lembrei-me do pensamento de Harold Bloom, crítico norte-americano, que diz  que “Saramago é um dos últimos titãs de um gênero literário que se está a desvanecer”.

Serve-me de consolo que, como a alma, as palavras também são eternas.

Efêmero é o corpo físico, mas a reflexão através de sábias palavras fortifica ainda mais o espírito, a mente, o caráter; diga-se de passagem, caráter este raro num tempo em que todas as virtudes morais estão, estas sim, se desvanecendo.

Sempre atento às injustiças da era moderna, vigilante das mais diversas causas sociais, Saramago não se cansava de investir, usando a arma que lhe coube usar: a palavra.

Gostaria de comentar uma citação que penso cair como luva à nossa realidade, neste exato ponto a que chegaram a dignidade e o respeito exercidos neste país de nome Brasil.

Na realidade, não quero comentar; as palavras falam por si mesmas.

Quero sim, convidar você para um reencontro com a inteligência e discernimento desse valiosíssimo ser humano e escritor, muitas vezes e por muitos, tão mal interpretado.

E mesmo que muitos continuem rezando o contrário, isso já não tem a menor relevância, porque a reflexão nos mostra como seus pensamentos continuam sendo atuais, vivos, verdadeiros, dignos e eternos.

Quisera poder dizer que o trecho que cito sirva apenas para este momento ruim pelo qual estamos passando, mas infelizmente ele se estende a perder de vista, de mãos dadas com nossos desencantos.

 

“Quando nós dizemos o bem, ou o mal… há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação… No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades… Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar essa simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do gênero por onde se chega não ao egoísmo, mas à relação humana.

Sustento que, quando descobrirmos o outro, nesse mesmo instante descobrimos a nós mesmos, algumas vezes no melhor, outras no pior, quando tentamos dominá-lo. Se chegarmos a uma relação com o outro em que a condição principal seja respeitar suas diferenças e não tentar sufocá-las para fazê-lo como a gente, então aparecerá em nós o positivo. Todos têm o direito a um lugar na Terra, não há motivo para que eu, pelo fato de ser branco, católico, louro, índio, negro, amarelo, seja superior. Não podemos nos dar ao luxo de ignorar que o respeito humano é a primeira condição de “convivialidade”.

Cada vez se torna mais claro, para mim, que a ética deve dominar a razão.

Se a ética não governar a razão, a razão desprezará a ética.”

 

 

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Moacyr Jaime Scliar, nascido em 23 de Março de 1937, em Porto Alegre, recebeu esse nome, Moacyr, por escolha de sua mãe depois que leu o romance Iracema de José de Alencar.

Ele mesmo dizia que os nomes são recados dos pais aos filhos e são como ordens a serem cumpridas para o resto da vida.

 

E Scliar cumpriu sua parte, com humanidade, dignidade e muitas vezes com humor.

Não tenho receio algum em afirmar que foi um gênio, podendo esta verdade  ser constatada em todas as suas obras, desde romances, contos, críticas e na sutileza de suas traduções.

Em toda a sua vasta passagem literária por este mundo, deixou registrada também um pouco da sua ironia, principalmente quando toca em nervos nevrálgicos como condições sociais e judaísmo.

 

Relendo seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, fico extremamente comovida com cada palavra que deixou como reflexão para aqueles que buscam alguma coisa mais que simples palavras.

Não posso deixar de destacar um pequeno trecho inicial em que disse estou falando daquela trajetória que percorrem todos os escritores, uma trajetória de auto-descoberta e de auto-aperfeiçoamento e que, às vezes, chega a esta Casa. Quando isto acontece, vive-se um momento de inusitada emoção, um peculiar momento em que, de súbito, descortinamos uma imensa paisagem literária, da qual somos, mesmo na condição de humilde detalhe, integrantes.

  

Neste ponto interrompo minha leitura para olhar demoradamente para esta imagem que aqui postei.

Sinto em seu olhar e em seu riso, a generosidade que deixou como marca no transcorrer de sua vida, para que não morramos nós de tristeza quando essa dor no peito, por pessoas incríveis como ele e alguns poucos, nos trouxer a realidade de que os bons estão partindo; e assim, profundamente vazios, acenamos com gestos ausentes para ninguém.

 

É lamentável que permaneçamos convivendo com tanta mediocridade, essa que nos cerca diariamente, com esse empobrecimento literário divulgado pela mídia como se fosse a nata da cultura atual.

É lamentável quase tudo no campo da cultura deste país; resta-nos apenas e desesperadamente abraçar-nos às boas obras, como as de Scliar, para podermos, num último fôlego, sobreviver e não deixar morrer este legado de verdadeiro valor.

 

Scliar perdoe-me este possível mau humor; gostaria tanto de ter podido falar apenas dessa luz de paz, de generosidade e de dever cumprido que vejo e sinto nos teus olhos azuis.

 

 

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