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Posts Tagged ‘infância’

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Às vezes ouço ruídos que outrora ouvia na casa da minha infância.

Ruídos sutis que por tantos anos ouvi, como se fizessem parte da estrutura da casa, dos móveis, das pessoas, das plantas e dos pássaros.

  

Às vezes  admiro-me de senti-los e, de imediato, ser levada por eles àquela casa que não existe mais.

Apenas dentro de mim.

Apenas como sensação, mas tão vívida que consigo, em segundos, estar no meio da sala, naquela tênue luz de fim de tarde a tocar-me suavemente a face.

O silêncio da noite chegando, os quadros me acompanhando com os olhos quando lentamente movia-me entre eles.

A sensação provocada pelo riso ao longe de minha mãe, pela voz de meu pai a cantar…

 

Como é possível sentir as mesmas sensações após tantos anos?

Cerro os olhos e sinto no ar, no silêncio… pequenos ruídos que vão aflorando na pele, com uma carícia, mais que uma lembrança, quase como um toque…

 

Fico pensando se isso ocorre também com outras pessoas de forma tão nítida ou sou eu que, fugindo constantemente do presente, refugio-me naquela que fui.

 

Acabei de ouvir um outro ruído e já não sei se estou aqui ou estou lá.

Já não sei qual de nós duas está a escrever e qual está a sentir.

 

 

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Estou indo ao encontro da Natureza, respirar ar puro, ouvir pássaros.

Poder, no final da tarde, sentar-me na escadinha do quiosque e assistir a mais um por do sol.

Com o coração pulsando amor e saudade.

 

Saudade da infância, dos aniversários alegres, dos infindos dias das crianças tão esperados e tão mágicos…

 

Lembrei-me então de uma passagem perto dessa data que minha irmã Rosa jura, de dedos cruzados nos lábios, que fui eu quem causou o episódio que logo mais vou contar, e eu, por minha vez, juro de pés juntos que foi ela a dar a cartada decisiva.

E assim estamos a jurar por todo o sempre.

Quantos anos tínhamos? Talvez 8, 10 anos.

 

Certo dia, no intervalo da aula, quando descíamos para o recreio da manhã, uma amiguinha nossa (que já não me lembro o nome), querendo contar vantagem para cima de nós… O quintal da minha casa é enorme!

A Rosa respondeu de imediato, O nosso vai até quase o outro lado do quarteirão!!

 

A menina sentindo que não surtira efeito algum… No meu quintal há vários balanços, um para cada irmão!

Então rebati, Além de balanços (que havia mesmo), no nosso quintal há gangorras para todos nós!!

É isso mesmo!, reforçava a Rosa.

 

Ela não se deu por vencida e irritada… Mas no meio do meu quintal há um enorme escorregador!!!!!

Minha irmã, indignada, não querendo que perdêssemos a “causa”, não vacilou um segundo, Isso não é nada! No nosso quintal há uma roda gigante!!

 

A menina arregalou os olhos e eu fiquei sem fala.

Uma roda gigante igual a essas de parque?

Igualzinha, não é Isabel?

Eu não conseguia falar, apenas balançava a cabeça.

O sinal de volta a aula nos salvou.

Saí correndo, mas com tempo de ver o ar triunfante de minha irmã e o assombro de nossa amiguinha.

 

O tempo passou e chegou o dia das crianças.

Estávamos brincando no quintal quando alguém nos avisou que havia algumas meninas nos chamando no portão.

Era nossa amiguinha acompanhada de um comitê de meninas do colégio.

Ficamos surpresas, mas descemos as escadas para recebê-las.

Oi, Rosa! viemos ver sua roda gigante! podemos andar nela?

Nós duas trocamos um rápido e sutil olhar e, pela primeira vez, vi a Rosa em apuros, sem uma resposta a dar.

Senti que não poderia deixá-la na mão, Ah!… que pena!!! meu pai mandou retirar ontem para consertar e não chegou até agora, disse eu sem gaguejar.

Todas ficaram decepcionadas, arrasadas mesmo e foram embora.

Nem lembraram das gangorras, pensei eu aliviada.

 

Passaram alguns dias e a menina… Rosa, a roda gigante já voltou?

Ela, fingindo a maior naturalidade, Ainda não; acho que meu pai vai devolver, não tem conserto… 

Essa é a versão de minha memória.

Essa é uma das deliciosas recordações que tenho de um dia das crianças, quando éramos felizes e sabíamos.

 

 

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A Menina

 

 

menina pula corda

desce a ladeira em carrinho de rolimã

anda de perna de pau

pula dentro de uma rede

lá de cima de uma árvore

brinca desses brinquedos

mas é menina

 

menina pula amarelinha

embora goste do lilás

pensa que é princesa

mesmo sem coroa

mas de princesa

só carrega o nome

 

menina pula poças passíveis

de água

pisa pedras

levita pensamentos

onde tudo é possível

 

menina chora

o espelho confidenciou

que está crescendo

perdeu as fitas

perdeu o riso

perdeu as roupas

 

menina brinca

que é gente grande

que entende das coisas

no fundo sabe

que é apenas menina

doce

 

 

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Marcamos um encontro, apesar da nevasca.

Cheguei primeiro ao moinho.

O ambiente pareceu-me frio e abandonado.

A mó, inerte, tecida com teias de aranha, mais parecia uma mesa vazia.

Fiquei com vontade de girá-la, um pouco que fosse, só para ouvir o som da eternidade.

Fiquei tentada também em movê-la ao contrário; quem sabe, assim, eu me encontrasse com você, novamente no tempo em que sabíamos sorrir.

Subi ao palheiro e atirei-me naquela cama natural, querendo que ali você já estivesse, para sonharmos em voz alta algum momento de nossa infância.

Sozinha contemplei aquelas vigas de carvalho sustentando todo o moinho, vigas pelas quais o tempo apenas passa e que perdurarão quando muitas coisas já não mais existirem.

A idéia assustou-me, fazendo-me descer rápido do palheiro, para subir por uma escada lateral que eu não sabia aonde iria dar.

No último degrau vislumbrei um quarto em penumbra, quase vazio, mas com cortinas na janela e um breve perfume no ar.

Resolvi não adentrá-lo porque a sensação de deixar algo para ser desvendado mais tarde me agradava, sugerindo descobertas, talvez surpresas, quem sabe confirmações.

Retardei então o instante.

Deixei-o pairando no ar, como uma pena alvíssima que nunca atingiria o solo.

Somente quando se tornasse um momento real e  você estivesse presente e eu me sentisse segura por isso.

A lareira, agora inativa, ocupada por entulhos que outrora foram objetos úteis ou valiosos para alguém.

Faltava o calor da madeira a crepitar suas labaredas, até que se tornasse brasa coberta por cinzas, tal como um espelho meu.

O vento gélido e forte me abraçou e os flocos de neve, centenas, acarinharam meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.

Alguns colaram-se em meu casaco de lã e em minhas botas pesadas, pegadas que testemunharam minha presença.

Enrolei-me melhor no xale verde que emoldurava uma possível e ainda esperança em meus olhos e tomei o rumo da estrada.

 

Até hoje continuo procurando o caminho.

O caminho que me leve à sua alma, para que eu possa parar um pouco, tomar fôlego e água, respirar o ar que me falta e me debruçar na centelha de luz do seu olhar.

E caso você não me queira mesmo, ave de voo tardio que sou mesmo em meio a temporais, poder continuar ou regressar.

Ao moinho.

À espera da primavera.

 

 

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Fui visitar minha amiga Donata e logo que saí do elevador senti aquele cheirinho gostoso de amendoim recém torrado.

Conversamos um pouco e quando saí o cheiro estava mais acentuado ainda.

Vim andando pela rua, ou melhor, meu corpo veio caminhando porque a mente estava lá atrás, em um momento da minha infância, quando eu deveria ter, não sei ao certo, uns oito, nove anos.

Mamãe assava amendoins no forno para fazer alguma guloseima, quando entrei intempestiva pela cozinha, Mamãe, mamãe, quero dois amendoins, Mas para quê, minha filha? Para comer, mamãe!

Como mamãe estava atarefada com outras coisas, pegou uma porção deles e colocou na minha mão, Só quero dois, mamãe, e saí correndo, deixando o restante em cima da mesa.

Como já havia planejado, fui ao lugar mais isolado da casa naquele horário, a sala de visitas.

Fechando a porta de mansinho, sentei-me no cantinho do sofá, tirei as casquinhas dos amendoins e… pronto! estavam prontos para a minha experiência.

Peguei um, o menor, enfiei na narina esquerda e disse em voz alta, não muito alta, Anotar no caderno a conclusão da 1ª fase do teste: ainda consigo respirar.

Peguei o outro amendoim e o enfiei na narina direita, ordenando a mim, mas mentalmente, com medo de ser ouvida, Anotar no caderno a conclusão da 2ª fase: ainda consigo respirar, mesmo quando estou de boca fechada.

E, satisfeita, ordenei para mim finalmente, Anotar última fase: 100%de sucesso na experiência!

Agora era só tirar os amendoins, jogá-los fora, anotar as informações, guardar meu caderno de experiências e contar a todos o resultado da minha curiosidade.

Foi aí que o desastre aconteceu: os amendoins, lisinhos, subiram narinas acima quando, acho eu, respirei um pouco mais profundo.

Tentei puxá-los.

Enterraram-se mais.

Saí correndo e chorando, Mamãe, enfiei dois amendoins no nariz e não consigo respirar! Tire para mim, por favor!

Mamãe, aflita, tentou tirá-los, mas os danadinhos entraram ainda mais.

Trocou minha roupa, trocou-se, ligou para meu pai e para meu padrinho e fomos parar, todos, no hospital.

Lembro-me do médico indagando meu pai, Por que essa menina, com essa feição de anjo, resolveu fazer isso? Ninguém viu?

Já liberta dos amendoins, contei a ele da minha experiência.

Fiquei brava por ele querer culpar meus pais e acrescentei ingenuamente que Embora eu esteja ainda bastante assustada, quero chegar logo em casa para anotar tudo no meu caderno. Doutor, como é mesmo o seu nome?

No meu íntimo estava contente em ter podido satisfazer minha curiosidade.

No dia seguinte, quando mamãe dava orientações à cozinheira que escolhia feijão, entrei toda alegrinha, Lurdes, posso pegar dois feijões?

Mamãe, suspendendo a respiração, olhou-me incrédula.

Mas sentiu um grande alívio quando dei uma gostosa risada, contente com a nova brincadeira que havia inventado, ou seja, tudo que eu pedisse a alguém, seria sempre apenas dois.

Gostava de observar a reação das pessoas quando eram pegas desprevenidamente.

Foi sorrindo daquela lembrança, que coloquei a chave na fechadura de minha porta.

E aí fui eu quem teve uma reação assustadora porque não me lembrava de ter atravessado a rua, entrado no prédio, apertado o botão do elevador, saído no corredor…

Meu anjo já me alertou para eu não sonhar em trânsito e agora só me resta pedir que me perdoe pelo trabalho que devo ter dado, e também recomendar à você que me lê, Não sonhe em trânsito, mesmo e principalmente se você for um adulto criança como eu.

 

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Sinto saudade da casa da minha infância, a casa onde guardei meus sonhos e magias, tantas travessuras, muitas alegrias, algumas tristezas profundas…

 

Mas neste momento sinto saudade daquela sala grande, tão clara, tão limpa e que à tarde, como a de hoje, sempre estava vazia, quieta, como se ali estivesse uma criança a dormir.

E isso era surpreendente, pela quantidade de pessoas que transitavam pela casa.

 

Lembro-me que por muitas vezes entrei nessa sala nesse momento mágico!

Era como se eu estivesse entrando num lugar sagrado.

Ficava quietinha, olhando os quadros, os móveis, os objetos, andando na ponta dos pés, para não quebrar esse encanto…

 

Mas o que mais me maravilhava era a luz que entrava através daquelas imensas janelas, aquela luz que ia dançando em tudo que ali existia, lentamente, parecendo dar vida, dar força a cada peça!

Assim ficava acompanhando todo o envolvimento da luz até que meus olhos  atingissem uma imagem de Nossa Senhora de Fátima que, banhada pela luz, parecia sorrir para mim.

 

E eu sorria para ela, porque tudo era incrível, tudo era luz!

 

Sinto saudade desse momento mágico que se repetiu algumas  vezes e que agora se repete na minha lembrança, no pulsar de meu coração.

 

Jamais o esquecerei, mesmo quando a realidade teimar em me tragar por inteira.

 

 

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Não, ninguém entendia que, além de um leite com café dentro de uma xícara, era possível se ver mais outras coisas.
  
Ficava uma hora exata sentada à mesa, para tomar o café da manhã.
Olhava-me refletida no leite.
Sorria para mim e dizia bom dia e, juntas, ríamos pela cumplicidade.
  
Quando começavam a caçoar da minha vagareza em comer e beber, eu e a refletida na xícara chorávamos, magoadas, ressentidas.
Os outros não sabem que você existe, que você está aqui e que todas as manhãs converso com você; os outros não entendem nada – eu a consolava.
E ouvia minha mãe dizer “Dorme em cima de uma mesa!”, pois na certa queria ocupar o espaço com seus afazeres.
 
Então eu tomava todo o leite, de uma só vez.
Bebia, todas as manhãs, além do leite, aquela refletida.
 
Pronto, acabou; nós duas estamos juntas novamente – dizia, olhando para dentro de mim mesma, para aquela imagem que ainda trazia uma pequena lágrima correndo pelo rosto.
 
Então nós duas levantávamos, sorríamos para minha mãe, aquele sorriso preguiçoso que acabou de amanhecer, e íamos pular corda, estudar, desenhar.
 
Todas as manhãs dos meus oito anos de idade.
E por muitos outros anos.
Todas as manhãs.
 

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