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Posts Tagged ‘inverno’

 

Naquela tarde de outono Sofia resolveu escrever uma carta de amor para ninguém.

Escolheu um envelope de cor suave.

Fechou-o com um decalque, uma pequena borboleta azul.

Saiu à rua segurando-a nas pontas dos dedos e, num descuido proposital, soltou-a a revelia do vento que começava a soprar.

Quando a ouviu bater no chão sentiu sua alma angustiada, mas também sentiu  esperanças.

Correu para casa, postou-se à janela para observar se alguém a recolhia.

Sofia viu sua carta de amor voar de lá para cá, sujar-se, molhar-se.

Aquela dor lancinante no peito persistia enquanto passantes desatentos a pisavam, rasgando-a, tornando-a pedaços de papel a rolar pela rua.

Sua carta de amor reduzida, cruel verdade, a palavras dilaceradas.

Mas não desistiu.

Na tarde seguinte, ainda outono, Sofia reescreveu sua carta de amor para ninguém.

Na mesma cor suave, fechou o envelope com um decalque, desta vez um delicado e pequeno girassol.

E novamente soltou-a na rua e voltou à janela mais uma vez.

A noite veio, fria, enevoada.

Sua carta, silenciosa.

O dia chegou aos raios de um sol tímido, branco.

A carta, em aflita solidão, ali permanecia.

Sofia, na janela, a confirmar sua desesperança.

Foi quando ele surgiu.

Vinha cabisbaixo, triste, falando sozinho ou cantando, não sei.

Parou de repente e, com um brilho diferente no olhar, ficou por um tempo estagnado como se houvesse encontrado um tesouro.

Com o envelope a brincar entre os dedos, meio surpreso, meio intrigado, sentou-se no meio fio da calçada, abriu-o e leu, primeiro de um fôlego só e depois lentamente, aquela carta de amor.

E chorou.

Chorou por um tempo sem fim, sem que algum passante se importasse com seus soluços e seus gestos tardios.

Ainda com os olhos marejados, tirou um lápis de cor de seu bolso esquerdo e escreveu alguma coisa no envelope, junto ao girassol.

E se foi.

Com a carta de amor em seu bolso, junto ao coração e a outros lápis que costumava carregar sem saber ao certo porquê.

Sofia desceu em desabalada carreira pelas escadas, pegou o envelope do chão, leu-o e, com o coração a sair-lhe pela boca, procurou-o com os olhos em meio à multidão.

Mas ele já havia sumido, com a mesma maestria com que havia aparecido.

O certo é que depois daquela tarde Sofia nunca mais conseguiu permitir a entrada de outro em seu coração.

Tentou, mas aquele momento foi profundo e mágico, foi mais forte que sua simples vontade de querer outro alguém.

Muitos outonos passaram.

Outro inverno chegou.

E o envelope continua, com aquela caligrafia firme e terna, guardado em sua caixa de lembranças, adormecido em seu coração.

Para sempre.

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Palavras que o vento traz com as folhas de outono

incessantes

 

Sussurram invernos em meus cabelos

e saudades de acenos

que lamentam lembranças

 

Contam segredos de silêncios

de abraços inacabados

de beijos invisíveis

 

Cravam lágrimas no olhar

que se atira distante

como pedra no lago

 

Vibram na água do tempo

como carícias

depois submergem

e se esquecem

 murmúrios…

 

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Outono

 

 

Meu amigo João, conversando comigo ao telefone, certo dia disse-me que havia um outono em minha voz.

Engoli o pranto e num esforço supremo lutei para não vacilar.

Não poderia entristecê-lo ainda mais.

Não poderia entristecer as pessoas que amo, não poderia.

Por esta simples razão tenho passado tempestades de neve sozinha.

A vida tem se mostrado tão cruel com a fragilidade do ser, que não posso pedir que se exponham ao gelo e ao vento comigo.

Sei que alguns se solidarizam, mas nem todos possuem fogueira e água para se manter.

Tento aquecer-me  com  lembranças e saudade.

Tento fincar os pés no chão para que o vendaval das mentiras e dissimulações não me arraste e me arrase por completo.

Tenho tentado, amigo João, tenho tentado.

Meus dedos doem, o frio os queima e é por isso que não tenho mais escrito com tanta frequência.

Você me pede uma carta de próprio punho, para matar a saudade de dias em que fomos felizes, crianças felizes, crescendo ao pé da jabuticabeira ou embaixo do caramanchão, como se fôssemos dois pequenos girassóis a descobrir a luz.

Tenho tentado, amigo, mas minha vista anda ruim, turva; às vezes quando saio a caminhar, onde eu via flores e jardins e pássaros, hoje só vislumbro vultos silenciosos, tristes e cambaleantes.

Meu estômago dói, pois a seiva que me sustentava se esgotou, junto ao último por do sol.

Meu coração não bate mais, apenas rebate a solidão.

Porém em minha mente brotou uma tênue luz porque, pelas suas palavras, amigo, pude perceber que ainda existe em alguma região inexplorada, uma ponte que me pode levar a um lugar enfim.

Se você acha que no tom de minha voz há um outono é sinal que já estou conseguindo sair deste inverno.

Talvez um dia nos encontremos amigo, talvez, e entre uma taça de vinho e um doce sorriso eu possa te contar das montanhas que precisei escalar para aprender conter o pranto e apenas ouvir, sorrir e silenciar.

 

 

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