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Posts Tagged ‘irmão’

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Gosto de escancarar as janelas para admirar a vista que tenho deste décimo terceiro andar.

Faço meu passeio matinal neste meu terraço, cumprimentando as plantas, as flores do meu micro jardim e também as ararinhas que fizeram seu ninho no vão do telhado.

Depois meus olhos se perdem lá naquela parte da Serra do Mar, na torre que, incessante, pisca no alto daquele pico, o do Jaraguá.

Não vislumbro o Campo de Marte, mas vejo pequenos aviões em curvas descendentes para lá pousarem e repousarem.

Ultimamente tenho ouvido o barulho de helicópteros persistentes e ensurdecedores, com seus imensos holofotes, cruzando os ares que por boa coisa não deve ser, mas isso já é outra história.

Ao entardecer estendo minha rede amarela no terraço, levo comigo um bom livro e o coração aberto a novas emoções.

Há vezes em que apenas fico a cantar… canções que meu pai gostava, que minha mãe cantava e as que têm significados importantes e profundos para mim.

Às vezes paro porque choro.

À noite, já altas horas, coloco uma cadeira no terraço, como vi cadeiras nas calçadas depois do jantar em cidades do interior, e fico observando as estrelas.

Não perco de vista meus pais, meu avozinho, meu irmão João, meu amigo Odair e outras pessoas tão queridas que hoje são estrelas.

Quando é noite de lua cheia, aí então me perco nessa luz que me fascina, que me arrebata e transporta para um mundo mágico, para o qual tão poucos hoje em dia conseguem se entregar.

Bem mais tarde, acompanhada de duendes carinhosos e fadas sorridentes, fecho as portas e as janelas aparentes, portais que se abrem para o mundo exterior, para abrir as de minha alma.

Deito-me entre cobertas macias e fecho os olhos, agradecendo a vida.

Em um lento e profundo bocejo, murmuro algumas palavras desconexas, pequenos sons; é que já me encontro em outra dimensão.

E continuo a sonhar.

 

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 João, meu irmão

 

Pela minha idade, calculo a que deverias ter.

Hoje completarias 56 anos.

E a despeito de seres meu irmão, é certo que serias um homem inteligente, charmoso (como eras bonito!) e sensível.

Alma de artista.

 

Fico imaginando-o às vezes de barba, de outras sem, debruçado em tua mesa de trabalho a desenhar com tanto cuidado, gestos sutis que se moviam nas pontas de teus lápis ou pincéis, ora como aceno de partida, ora de reencontro, uns de alegrias, outros de melancolia.

 

E quando cansado estivesses, faria uma pausa com teu violão, tua voz doce contando de encontros e desencontros.

“Belezas são coisas acesas por dentro, tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”, cantavas junto com a Gal.

 

Lembro-me de nossas viagens e conversas sem fim; ríamos de tudo e chorávamos por nada.

E sabíamos calar na hora precisa, para não magoar o outro ou ferir a si mesmo…

 

Com tua dedicação, tua crença nas pessoas, tua sensibilidade, teu modo leve, porém profundo de viver, aprendi tantas lições que reviso vez por outra, para tentar entender melhor tudo o que me cerca, e tudo significa também escolhas que não fiz.

 

O que nos separa neste instante são apenas duas teses que existem somente na concepção do ser humano: Tempo e Espaço.

E por não existirem, assim sabemos, continuamos unidos, caminhando juntos, de mãos dadas com a vida e com o amor.

De tua irmã e amiga,

Isabel

 

 

et: Sente-me neste instante como eu a ti?

 

 

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Não há muito que dizer.

Tenho receio de faltar-me palavras.

Sobrar-me o pranto.

Mas quero agradecer a você, querido Raul, a inspiração que teve daquele momento de perdas irreparáveis, um dos mais dolorosos de nossas vidas.

 

Como disse a você, morro a cada palavra.

Mas meu irmão, nosso querido João, e nosso querido Eduardo, hão de nos querer sempre vivos, pulsantes, mesmo que varados de saudades.

 

Infelizmente perdi o contato com a Heloísa, mas guardo na memória e nos sentimentos tudo o que de tão terno e importante fez.

 

Com sua permissão, deixo aqui registrado seu poema, sua sensibilidade e magia que foram tecidas cuidadosamente, como traços de uma planta de arquitetura que você executa com tanta propriedade, eternizando aquele momento de profundo amor e de dilacerante e silencioso aprendizado.

 

 

Las Quatro Mujeres

 

 Houve um tempo, sem tempo para quatro mulheres

minutos seculares de lua trocando o sol

rapidamente, sem diferença de tom

 

Suas vidas não existiram nessas noites claras

zelavam decididas, plantadas todo tempo

com as mãos no tempo que ainda restava

aos dois meninos alegres de overdose

 

Nem o menor ruído passou batido

sussurro algum passou despercebido

entre sopas, lençóis, afagos e poesias,

misteriosas, na mágica alquimia,

faziam dos tufões, ventos macios,

de pesadelos, sonhos de ninar

 

Ai dos maus fluidos que ousassem perturbar,

mesmo distraídos, o sono dos meninos!

mais que depressa elas filtravam sonhos,

Elis, Caetano, Bach e violinos

 

Implacáveis, insurgem contra o tempo,

atrasando os ponteiros insistentes,

num tic tac tenso e incessante,

até parar o tempo por instante

 

Zelavam os lentos pingos transparentes,

que gota a gota desciam correndo,

avidamente, para sumir nos braços,

na rápida esperança de criar mais dias.

 

Se entregaram as quatro sem piscar

ao mais bruto dar e sem nuances

e eles beberam tanto dessa fonte

que impossível foi dar o último trago

 

Um dia os dois travessos decidiram ir

para um lugar que só eles conheciam

e o tempo todo guardaram em segredo

 

Buenos Aires, França ou Maresias?

onde seria esse lugar distante?

de malas prontas, passagens marcadas,

piscando um olho, foram de mansinho

 

Mas indecisos, param de repente,

descem a bagagem e pensam num instante:

como sair do ninho dessas deusas

quatro mutantes, lindas, todas suas

e que ainda trocaram suas vidas pelas deles?

 

Debruçadas no leito a doze mãos,

tocaram um barulhento tango, louco de ternura

Tu me Acostumbraste a afagos e docinhos

e Bel, Marga, Rosa e Helô eles beijaram

 

Embriagados em delírios mil e gargalhadas,

os seis deitaram roucos e exaustos

mas só os dois de fato adormeceram

e delicadamente foram mergulhando

num mar de travesseiros brancos e cambraias

 

Superlotados de mãos, enternecidos

do privilégio de ir em mãos macias

devagarinho, nem sequer deixaram

o som das pálpebras quebrar a luz do dia

 

E sorrindo os dois meninos acenaram

com as mãos brincando leves e macias

mas de verdade mesmo, não se foram,

trapaceando toda despedida

 

Como é possível ir de vez embora

se o tempo todo tinham em suas mãos

quatro mulheres que com seus encantos

tinham o dom de amanhecer a noite escura?

 

                                             Raul Isidoro Pereira

                      Março de 1992

 

 

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Devaneio

  

 

 Esta noite sonhei com meu irmão, o irmão que arrumou suas malas lenta e dolorosamente e foi morar em outra dimensão.

Mas hoje não quero falar dessa dor; quero falar do sorriso que ele desenhou em meu rosto durante esta noite, desenhista que era a dominar os traços, as nuances, a sombra e a luz, o pulsar da vida em uma pintura, sem nunca perder sua postura de príncipe diante das tolices dos irmãos ou mesmo diante do irremediável por vir.

Lembrei-me então de uma carta que ele me escreveu quando ainda morava no Rio, quando a vida ainda lhe parecia um mar revolto, inconstante ao mesmo tempo que surpreendente; pensando melhor, acho que sempre foi assim…

Assim, ainda com esse sorriso no rosto que ele desenhou suavemente durante toda a noite e com  o coração cheio e tão apertado de saudade, deixo aqui um fragmento dessa carta, onde apenas acrescentei o título acima.

  

“Nesta manhã calma, quando me sento à mesa de desenho e espalho os papéis brancos, vejo todos os matizes do branco.

Embaralho tudo novamente, fazendo um jogo silencioso, descobrindo as idéias que também se espalham na minha cabeça.

Hoje percebi que são muitas e é preciso saber, ter consciência disso.

O traço vai dançando por entre o papel, devagar, impreciso e meus olhos muitas vezes se esquecem de olhar para dentro e ver meu mosaico.

São tantas as pedrinhas e tantas as cores, que me perco.

Fujo de uma emoção forte que sei que me espera.

É a coragem de abrir a porta e tomar a ventania.

É a emoção que me toma todo e que sei que procuro esse escancaramento.

É como um enorme espelho onde me vejo de corpo inteiro.

Senti coisa parecida quando me vi no vídeo e pensei que ainda há muito a fazer.

Meus olhos fogem do papel e buscam ver o que meu traço se esforça em desenhar.

E vejo prédios em construção.

Ruídos de rua.

Da cidade.

E apago as luzes do céu, desse sol embaçado e me vejo nas ruas da madrugada.

Vagabundo e amante do mundo.

Vejo-me perdido.

Só.

Buscando o sabor da aventura que um dia tive e que hoje se repete.

E caminho, caminho, meu desenho não acaba.

Pego os lápis de cor e mancho os papéis.

Verde azulado.

Ultramar.

E me entrego aos pensamentos.”

 João Rodrigues Nepomuceno Filho

1980

 

 

 

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