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Posts Tagged ‘lamentos’

Quem sou eu

para que a onda do mar venha até onde estou

e se quebre aos meus pés

em espuma e murmúrios

 

Quem sou eu

para que o mar permita que eu brinque e pule e cante

enquanto envolve meu corpo

em força e poder

 

Quem sou eu

para que o sol mostre as ilhas ao redor e os navios tão distantes

a gemerem seus lamentos

ao mais profundo do oceano

 

Quem sou eu

para que o Tempo traga lembranças em seu manto

vividas em outras praias

fazendo-me ver criança a catar conchinhas para castelos enfeitar

 

Quem sou eu

para que a lua me banhe com clarão e lágrimas

por sentir no ar o perfume dos que já se foram

sem algum vislumbre dos que virão

 

Quem sou eu

para que esta escuridão da noite me trague por inteira

sentada nesta pedra

onde brilha a imagem de uma oferenda aos céus

 

Quem sou eu

para que o Universo me presenteie com esta brisa carinhosa

que faz esvoaçar meus cabelos

minha alma

 

Quem sou eu

para que Itararé de São Vicente me acolha em seus braços

com tanta doçura, magia e leveza

 

Quem sou eu

pergunto ao silêncio embriagador do por do sol

um pequenino grão de areia responde-me ele

beijando-me a boca e o riso

como se faz a um eterno amor

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Acabei de ler um texto que diz ser o homem portador de pelo menos uma virtude.

É, virtude, palavra esquecida, enterrada com os sonhos, a delicadeza, a educação.

 

Um dia desses estava eu transitando por uma rua onde havia uma obra em andamento e, de repente, formou-se uma fila imensa encabeçada por mulheres.

Estiquei o olhar para ver o que ocorria: em um lugar onde passava somente uma pessoa por vez, sem riscos de atropelamento, as mulheres tiveram que parar para que uns marmanjões passassem! Não havia um que se dignasse ceder a passagem a uma mulher sequer, que se detivesse para que a fila do outro lado andasse um pouco!

Minha amiga Ademilde ficou com pena de mim por reparar nessas coisas e disse que eu sou da época dos dinossauros; acho que sou mesmo, os dinos eram muito mais educados que os racionais de agora.

 

Fico muito confusa com o que vejo e com o que leio.

O texto diz que a virtude é um elo que une o profano ao divino e que devemos utilizá-lo de forma pura e sublime, fazendo brotar através dessa virtude nossa própria alma.

Haverá alguém, alguns olhos, algum sentido em sintonia com essa energia.

Aí me perdi por completo; aonde, em pleno século XXI, vou encontrar um dinossauro para trocar energias sensíveis, doçura?

 

Há pessoas, continua o texto, que se utilizam de suas virtudes para cortar atalhos, buscar caminhos fáceis, passar por cima dos outros. Elas nunca saberão como é o prazer de pisar na terra, sentir o cheiro do mato, tomar chuva entre as plantas e as flores, conversar com os animais.

Se elas conhecessem esse estado de espírito haveria mais cordialidade, generosidade, carinho.

É uma questão de escolha, de escolher como ser.

 

Quando acabei de ler o texto senti uma saudade tão grande da era paleozóica ou mesozóica, não sei; da era em que os dinos passeavam pelas matas, alimentando-se de folhas e frutos… e à noite, quando a lua brilhava lá na imensidão do espaço, eles emitiam aqueles sons que mais pareciam lamentos; depois, entrelaçados uns aos outros, adormeciam…

 

Lamentos.

Lamento tanto que tenhamos chegado neste século sem poder compartilhar nossas sonoridades escritas em partituras de emoções e delicadezas.

Por isso lamento tanto a solidão interior de cada um.

Lamento tanto que a tecnologia esteja dando saltos velozes e mortais à frente do homem em anos, décadas, e o próprio homem esteja marcando passo, arraigado que está à pobreza de espírito, à mesquinharia, ao egocentrismo.

Lamento tanto tudo o que passou e não foi aprendido e muito menos apreendido e  que não voltará jamais.

 

 

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