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Posts Tagged ‘lembrança’

 

Quando conto para os amigos que fui uma menina muito arteira a maioria não acredita; acham-me calma, comedida demais para assim ter sido.

E por ter sido como fui, mamãe sempre me entretinha junto a ela com algum brinquedo, objeto ou o que fosse, para eu não sair correndo pelo quintal (que era enorme!) ou abrir o portão e sair para a rua; afinal eu tinha apenas cinco anos, talvez até menos, não sei bem.

Era muito engraçado (e talvez estranho para os adultos) essa minha vontade de correr e correr e correr… será por isso que gosto tanto de vento?

Bem, voltando ao entretenimento… enquanto minha mãe plantava folhagens, outros tipos de mudas e florzinhas, dava-me uma pazinha para cavoucar a terra, achando que plantava também!

Me divertia quando achava tatuzinhos agitados, correndo de lá para cá, talvez vexados por eu ter descoberto seus esconderijos de uma forma tão fácil e, cá para nós, tão invasiva…

Me divertia com as borboletas coloridas que beijavam as flores e brincavam com os raios do sol.

Me divertia com as pocinhas de água que eu fazia na terra, pequenas piscinas que eu construía para as minhocas nadarem! (me divertia com tantas coisas pequenas mas que me maravilhavam, coisas que muitas crianças, hoje,  nem sabem que existem… ainda existem?)

Lembro-me de um chapéu imenso que mamãe colocava em minha cabeça para eu não tomar tanto sol; não sei se ele era tão grande assim ou eu que era muito pequena; só sei que fazia uma imensa sombra à minha volta e que tinha uma linda fita vermelha rodeando a cabeça!

Acredito que não foi a primeira vez que vi um grilo, mas foi em um dia desses de jardinagem matinal que vi pela primeira uma joaninha.

Veio voando de mansinho e aterrissou no meu braço!

Fiquei estática, com medo de me mexer e ela ir-se embora..

A primeira impressão que tive foi a de uma florzinha vermelha esvoaçando no ar.

Quando começou a andar pelo meu braço, fazendo coceguinhas, chamei mamãe para ver, ao que ela largou do que fazia para me falar sobre o bichinho.

A Joaninha deu uma voadinha e se aquietou novamente, desta vez em minha mão, e eu pude ver suas asas vermelhinhas com pintinhas pretas e seus olhinhos que mais pareciam cabeças de alfinete.

Quando mamãe contou-me que se chamava Joaninha… não gostei.

As Joanas que me perdoem (inclusive Joanna D’Arc, minha protetora) mas, na minha insignificância, achei um nome muito pesado para um bichinho tão delicado.

Minha irmã e eu vimos, em um outro dia de peraltices, duas Joaninhas, uma em cada planta; comecei a gritar Mamãe, mamãe, a Joaninha, a Joaninha voltou!

Quando ela veio ver, perguntei a ela o nome da outra; mamãe olhou-me meio surpresa e disse chamar-se Joaninha também.

Lembro-me de que pensei Que coisa mais sem graça… o mesmo nome?

Então resolvi chamá-las, a cada vez que apareciam, de nomes diferentes como, por exemplo, Pin, Mia, Liz, Raio e outros mais.

Mamãe ria tão gostoso quando eu dizia que as Joaninhas eram florzinhas que voavam!

Esquecia-me dos tatuzinhos, minhocas, grilos, borboletas e das plantinhas; ficava olhando aquele bichinho andando pelo meu braço, meu dedo, voando para o meu cabelo todo sujo de terra.

Queria fazer um carinho, mas ao menor gesto ela voava um pouquinho, para ir sentar-se em outro lugar.

Eu ficava maravilhada em ver que um bichinho tão pequeno, tão engraçadinho parecia mesmo uma florzinha a voar.

Os anos passaram, não vejo mais tudo o que me divertia.

E duramente descobri que minha mãezinha é uma florzinha que voou.

Às vezes ela vem à noite, em sonhos, conversar com a minha criança… faz um carinho, beija-lhe os olhos, escova-lhe os cabelos, veste-lhe um pijama quentinho, afofa o travesseirinho e depois se vai, antes do sol chegar, como uma florzinha a voar… 

 

 

 

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Vaga Lembrança

escombros 2

 

 

Quando eu te amava

era mais feliz, mais risonha, mais leve

conversava com os pássaros e as hortênsias

deixava o vento brincar com meus cabelos e meus dedos

sorriam uns para os outros

quando folheavam algum livro colorido de criança

para adultos

.

Quando eu te amava

acordava no meio da noite

escancarava a janela e cantava com a lua

bebia as gotas de orvalho que brincavam

nas pétalas das flores

e nas ramagens

.

Quando eu te amava

andava descalça entre as pedras do jardim

e deixava que a grama fizesse carinhos molhados

e frescos nos meus pés

.

Quando eu te amava

saía no meio da tarde com minha varinha mágica

(escondida dentro da manga)

e sem que ninguém percebesse

dava vida a tudo que encontrasse e que estivesse seco

sem vida

.

Quando eu te amava

meus cabelos eram mais brilhantes mais sedosos mais longos

meu sorriso era farto

trazia entre os lábios um poema recitado com ardor

deste poeta que até hoje dorme na cabeceira

de minha cama

.

Quando eu te amava

andava assim como quem sempre está indo

encontrar alguém

na cadência de meus pés mostrava

a ansiedade daqueles que descobrem

a vontade de caminhar ainda mais

.

Quando eu te amava

você me chamava de Minha Deusa

beijava-me as mãos os olhos a boca

tirando-me os pés do chão

e os sentidos …

.

Naquele dia coberto por uma densa bruma

sem sol, sem brilho

sem palavras de ternura

partiste

.

Com tua espada, teu escudo

teu elmo abaixado para que não pudesse vislumbrar

meus olhos molhados

minhas mãos trêmulas

meus pés sem passos, colados ao nada

.

Daqui da onde estou

olhando os escombros de um castelo

que um dia supus ser de pedras sólidas e ferro

resta-me a vaga lembrança

do quanto te amei

 

 

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Início de um ciclo, na continuidade de tantos outros.

Borbulham lembranças em minha pele; cheiram a mel, a ternura, principalmente a saudade…

 

Brincávamos com tudo o que nos haviam presenteado nossos pais, avô e padrinhos, no quintal de nossa casa.

Era manhã, fazia sol, nossos risos envolviam as flores, as plantas e aquele céu azulzinho, azulzinho, sem uma nuvem sequer.

 

Foi quando mamãe, preparando uma deliciosa sobremesa, pediu para eu pegar algo de que precisava, na quitanda da esquina de casa.

Mamãe sempre fazia isso e eu sempre atendia seu pedido.

Mas naquele dia eu queria ficar junto a meus irmãos, brincando, correndo, simplesmente rindo ao tempo.

Puxa, mamãe! a senhora tem cinco filhos mas só pede para mim!?!

Quem sabe, no caminho, você encontra seu príncipe encantado! respondeu ela, sorrindo.

 

Ah! como minha mãe me conhecia, sabia de meus desejos secretos…

Fui pega de surpresa, incrível!, um pensamento que nunca me havia ocorrido nas tantas vezes que já havia feito aquele trajeto.

Acreditei.

Acreditei e fui.

Quem sabe, viajando na mesma caravana dos reis magos, eu pudesse encontrar um príncipe que, ao contrário dos outros que levavam presentes ao Menino, estivesse trazendo um presente para mim, para encantar meus olhos, meu sorriso e fazer bater mais forte meu coração.

Era Dia de Reis de um ano que mora em mim.

 

 

Como disse em anos anteriores, por vários motivos íntimos escolhi esta data para inaugurar meu blog que hoje completa quatro anos; uma criança que engatinha entre as palavras, na esperança de nelas depositar a simplicidade, a sinceridade e todo o amor de seu coração.

 

 

 

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.
.

Às vezes ouço ruídos que outrora ouvia na casa da minha infância.

Ruídos sutis que por tantos anos ouvi, como se fizessem parte da estrutura da casa, dos móveis, das pessoas, das plantas e dos pássaros.

  

Às vezes  admiro-me de senti-los e, de imediato, ser levada por eles àquela casa que não existe mais.

Apenas dentro de mim.

Apenas como sensação, mas tão vívida que consigo, em segundos, estar no meio da sala, naquela tênue luz de fim de tarde a tocar-me suavemente a face.

O silêncio da noite chegando, os quadros me acompanhando com os olhos quando lentamente movia-me entre eles.

A sensação provocada pelo riso ao longe de minha mãe, pela voz de meu pai a cantar…

 

Como é possível sentir as mesmas sensações após tantos anos?

Cerro os olhos e sinto no ar, no silêncio… pequenos ruídos que vão aflorando na pele, com uma carícia, mais que uma lembrança, quase como um toque…

 

Fico pensando se isso ocorre também com outras pessoas de forma tão nítida ou sou eu que, fugindo constantemente do presente, refugio-me naquela que fui.

 

Acabei de ouvir um outro ruído e já não sei se estou aqui ou estou lá.

Já não sei qual de nós duas está a escrever e qual está a sentir.

 

 

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A chuva turva a visão

molha as hortênsias que brotam tardias

no jardim

 

Assalta-me tua imagem

através dos raios que riscam o tempo

e minha alma

 

Com ternura e tristeza

lembro-me da nossa alegria

do jeito de ser

 

Nós não falávamos

apenas sorríamos um para o outro

lembra-se?

 

De mãos dadas rindo na chuva

tudo bastava

viver era tão cristalino

 

  

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Lembranças III

 

Há fotos que não precisam ser

conservadas

através do tempo

As guardadas na memória

que contam nossa razão

de viver

 

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Sempre que leio livros como se minha alma fossem, e os leio sempre, uso um marcador imantado com a imagem do Pequeno Príncipe.

Quando interrompo a leitura, marco a página e vejo com o livro já fechado,  o rosto dessa criança que sempre habitou meus sonhos.

E ela, nesse instante, me faz pensar em um semblante que me olha de um quadro silencioso, mas que não me vê.

 

Pequeno Príncipe… o garoto que cresceu mexendo em plantas e flores e assim escolheu prosseguir por esse jardim imenso a cultivar girassóis, margaridas, rosas.

Às vezes ainda fere seus dedos em espinhos, pedras, cacos de vidro, mas nunca desiste.

Pensa em fazê-lo quando tudo se adensa ao seu redor, mas segue em frente porque sabe que a semeadura é necessária para depois poder contemplar a paz do realizado, com lucidez e amor.

 

Não desiste nunca.

Se necessário for,  o príncipe transforma-se no Cavaleiro Andante, o homem que crescido busca caminhos que o conduzam a portos em cais distantes, onde sensações verdadeiras povoam seu corpo, seus gestos, suas palavras, seus sentimentos, suas lembranças.

Depois tornar-se novamente a criança doce e silenciosa, a cultivar a vida nos canteiros de esperanças.

 

É tudo o que penso enquanto me vem à lembrança a expressão desse príncipe que me aponta trechos poéticos de incrível beleza no livro que trago sempre nas mãos.

Tudo, não. Descubro a cada palavra, a cada soluço, a cada sensação, o quanto impregnada em mim essa criança está.

 

 

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Lembranças II

 

Olhando por esta janela, com o olhar antes perdido no horizonte, de repente descubro três crianças luminosas brincando de roda num terraço de uma casa antiga, que traz em sua fachada um brasão por certo da família.

O sol reflete em seus risos, em seus vestidos rodados e leves e soltos, de dia de festa, nos laços que usam em seus cabelos, que mais parecem borboletas dançarinas.

As palavras começaram a brotar no papel com a mesma velocidade da emoção que, aflorada, vertia de minha alma em meus olhos.

Emoção que senti ao ver essas meninas que me fizeram lembrar de minhas irmãs e eu brincando nas calçadas de nossas infâncias, num tempo em que eu sentia sempre o carinho de minha mãe, quando tão delicadamente amarrava um laço de fita lilás nos cabelos de sua Isabel.

E aqui estou novamente a relembrar fatos que me fazem quase que senti-la presente.

Se na fachada daquela casa existe um brasão da família, dentro de mim há o carinho abrasador da infância que vivi, de nossas travessuras andando pelos muros, subindo no telhado, abrigando animais no quintal escondido de meu pai, colhendo frutas sem estarem maduras.

Nossas bonecas, nossos jogos, nossas cantigas de roda…

Nossa mãe.

É um momento mágico, sinto o voltar do tempo… enquanto as crianças continuam a cantar, a rodar, a rir, vejo minhas irmãs a brincar como borboletas em festa!

Ao meu lado, minha mãe.

A criança que ainda guardo em mim continua sentindo suas mãos, que me afaga os cabelos já não mais compridos como antes, mas que ainda guardam em si seu carinho, sua luz, sua energia.

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Não me faças lembrar

que tiveste outras

antes de mim

 

Peço-te, acolhe-me

como se eu fosse a primeira

e a única

a invadir tuas noites

insones

convidando-te a dançar

 

Brinca comigo

de colar em meu corpo

estrelas brilhantes

que eu colarei em teus cabelos

os beijos que sempre quis te dar

 

Não me faças lembrar

que enquanto sonhava contigo

tu elegias outra para guardar

com carinho e calor

a tua vida

 

Não me faças lembrar

que depois do dia vem a noite

a noite que sangra

porque depois do amor

vem o adeus

mãos vazias num tempo

de carinhos esquecidos

 

Não me faças mais uma

apenas brinca comigo

como brincam aqueles que se amam

pela primeira vez

 

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Outono… brisa suave

vento e fitas nos cabelos

vento e sorriso no rosto

sol branco, luminoso, acolhedor…

uma alegria não sei de quê no ar!

Lembro de meu uniforme de gala impecável e na mão direita, com uma luva tão delicada como se de vento branco e sutil, lá estava eu a levar minha mãe pelas ruas, entre as folhas que caíam das árvores, bailarinas do tempo, entre os raios do sol simplesmente a refletirem vida.

Na verdade era ela quem me levava pela mão, para mais um dia de aulas lá no colégio das Marcelinas, para as quais meu avozinho ensinou Português.

Lembro do sorriso de minha mãe que, para me distrair, contava alguma história, algum acontecimento porque, na verdade, ela sabia que eu não queria que minha mão direita largasse sua mão esquerda.

Eu não  queria ir ao colégio, queria ficar com ela, fazer perguntas  ou apenas olhar para ela, sentir o calor de sua mão; eu queria ser ela, eu queria ser feliz como ela!

Guardo até hoje uma impressão profunda daquele momento: além do timbre de sua vóz que nunca esqueço, uma sensação de paz, de frescor, de doçura, de alegria, de curiosidade e de amor, tudo ao mesmo tempo, dela por mim, de mim por ela, enquanto caminhávamos de mãos dadas, em direção à escola!

Há quem diga que o outono é triste; pois é a estação do ano que mais gosto porque, do profundo de meu ser, todas essas sensações voltam e ficam à tona, todos os dias, todas as manhãzinhas, todas as noites.

E é assim que acordo e é assim que durmo: de mãos dadas com minha mãe.

Até que o outono também se vá.

 

 

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