Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘lucidez’

 

 

 

 

Gosto de livros novos.

Claro é que se os tenho, foram escolhidos e adquiridos depois de muita observância e prazer.

Gosto de livros novos.

Executo um ritual toda vez que tenho um em minhas mãos.

E, interessante, percebi que esse ritual não acontece em livrarias, somente quando estamos eu e a obra; já tentei, chego até o meio do caminho, mas não existe intimidade suficiente no ambiente para que possamos nos apresentar.

Aprecio a arte gráfica da capa, cores, imagens, título, altos e baixos relevos.

Leio as orelhas do livro para saber do que se trata, a biografia do autor e em seguida, a contra capa.

Aí então chega o momento que mais gosto (antes de ler, é claro).

Abro o livro em qualquer página e cheiro-o profundamente.

Profundamente… como se assim pudesse colher em mim todo o seu conteúdo e, quando o estiver lendo, apenas estarei tomando conhecimento do que dentro de mim já está; é a tinta, o papel e também um pouco do perfume da alma de seu  autor o que me embriagam tanto.

Assim permaneço por alguns instantes, olhos fechados, deixando-me invadir pelas sensações para depois, com lucidez, saborear as palavras.

Sorrio com elas, choro com elas, me emociono com elas, durmo com elas.

Às vezes sonho, às vezes me assusto com elas.

Mas é certo que, novo ou velho, quando estou lendo um livro, abraço-o como se a um grande amor.

Talvez, um dia, alguém possa ler as anotações que costumo fazer nas margens desses livros e assim saiba que aquelas palavras foram importantes para alguém que redescobriu emoções adormecidas através das emoções de outras pessoas humanamente sensíveis e inspiradoras.

Livros, meus mestres silenciosos, mas que me falam tanto à alma.

 

 

Read Full Post »

Senhor,

 

Domingo passado a TCM apresentou o início do seriado Os Bórgias.

A chamada para o filme calou-se no mais profundo do meu inferno existencial, onde habita a ira que sinto quando as imagens brotam em minha mente, imagens de toda a miséria, fome, doença e morte que assolam este planeta.

E em especial esta pátria generosa e rica, porém sempre nas mãos da impunidade, representada por figuras que nunca queremos colecionar, mas que todos os dias somos obrigados a colar num álbum cujo título não preciso mencionar.

Tentando me conter, não me contendo, prostrando-me diante da minha insignificância e sabendo que sou mais um ninguém, transcrevo aqui a chamada do filme, mesmo se indigna de tal pedido:

“Senhor, não os perdoe. Eles sabem exatamente o que fazem”

 

 

Read Full Post »

 

Acorda com vozes sussurrantes.

Finge estar dormindo.

A cama a acolhe como um colo de mãe.

Sente-se aquecida, confortável, serena.

 

Conversam em outro idioma, essas criaturas de branco.

Falam sobre ela.

E ela sorri interiormente, já usou desse recurso para se expressar diante da não-comunicação, da impossibilidade de falar às claras.

E justo na língua que domina um pouco.

 

Querem observá-la mais.

Querem avaliá-la melhor.

Querem retê-la por mais dois dias.

 

O sussurro a entorpece.

As vozes se esvaem de sua mente, voam para longe, cada vez mais longe, até nada mais ouvir.

Mas, mesmo sonolenta, sabe que continua a sorrir.

Depois de três longos dias sem ver a luz do sol, sabe que está novamente no quarto.

Que pode ver a mesma paisagem.

Mentalmente visualiza no topo daquela rocha monstruosa, o esboço de uma coluna vertebral gigantesca, como se ela fosse a sustentação do mundo.

 

Essa montanha petrificada não possui o Cristo Redentor, mas ela sente o dedo divino apontando-lhe novo caminho.

De cuidados e muito carinho para com essa criança que ainda é.

 

 

Read Full Post »