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Posts Tagged ‘madrugada’

sabia

 

 

O pássaro da primavera voltou.

Sempre chega antes, anunciando a estação que está por vir.

Como um relógio, começa seu canto às quatro horas da manhã; como um relógio, desperta-me com sua canção.

Todos os dias, mesmo nos frios ou chuvosos.

Seu trinado preenche todo o meu quarto, como se estivesse tão próximo, em alguma planta do meu terraço.

Fico quietinha, ouvindo-o e imaginando sua alegria pulando de árvore em árvore, de galho em galho, como que presenteando a todos com essa madrugada musical.

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Na primavera passada alguém reclamou para mim de seu canto intermitente (mas não tão repetitivo, repleto de solfejos diferentes) e eu fico a pensar como é possível eu sentir prazer com um mesmo fato onde outro sente desalento, irritação…

Quem não gosta da música da natureza está mal consigo mesmo, penso eu.

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Abrindo aqui um parênteses, lembrei-me de uma situação ocorrida ainda esta semana.

Liguei para meu porteiro informando que precisaria viajar e se eu poderia, mais uma vez, deixar meu periquitinho na portaria para eles cuidarem (e, claro, quando volto, sempre os recompenso por isso, nada mais justo!)

Meu Plingo canta o dia todo, só pára para comer, beber e dormir.

Ele é tão feliz, que dá gosto de observar!

Pois não é que “alguém” reclamou que ele não pára de cantar e, por isso, torna-se irritante?

Fechando parênteses.

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Vou até a janela da sala e, além de ver um céu todo estrelado e a lua, majestosa, crescendo a cada noite, me apercebo que o pássaro deixa a árvore do meu prédio e vai se afastando para outras árvores.

Volto para a cama e ouço seu cantar se distanciando, distanciando, distanciando… e assim acabo dormindo outra vez.

Com o coração repleto de música, de doçura, de amor, mesmo que de meus olhos esteja rolando uma lágrima de saudade daquela que fui e não serei mais.

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A Primavera, como o sabiá, enfeitará e perfumará meu coração novamente.

E isso me basta.

 

 

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fadinha na lua

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Dorme em minha cama um homem sereno e profundo, silencioso e eterno.

 

De madrugada costuma levantar-se sem fazer um ruído sequer e escancara a janela de sua alma para que as estrelas o vejam e possam então conversar, divinos que são.

 

Uma noite dessas acordei com risinhos como se sussurros fossem e, quando ainda sonolenta quis saber o que acontecia, ele pediu-me para que adormecesse novamente, Estamos apenas recordando nossas travessuras infantis… 

 

Quando meus olhos já se fechavam, se entregando à viagem do sonho,  vi ao lado dele uma estrelinha azul sentada no beiral da janela a roubar-lhe um beijo.

Tomada pelo ciúmes quis  reagir mas então me lembrei de que ele apenas dorme em minha cama e que às vezes, com voz baixa e macia como convém aos anjos, canta para eu dormir.

 

 

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Aquele homem triste e cabisbaixo estava sempre caminhando na contramão.

Quando a maioria das pessoas apagava a luz para dormir, ele levantava-se.

Antes de caminhar, sentava-se em um banco do jardim e sempre encontrava um tempo para admirar a lua que já se desenhava no manto noturno.

Quando não surgia, entregava-se à carícia das estrelas.

 

Quando todos se levantavam, esse homem triste fechava sua janela e seus olhos e dormia quase que de imediato.

De certa forma esse estar só provocava-lhe cálido conforto.

 

Embora sentisse que o pensamento que o pegava de sobressalto era incoerente com a disciplina que havia aprendido com seus pais, estar ausente de tantas trivialidades, banalidades mesmo, trazia-lhe certo fortalecimento interior, provando-lhe a vida que o curso do tempo não dependia de promessas monótonas que, de tão repetitivas, tornavam-se insignificantes.

 

Talvez, por isso, sentisse tanto desânimo e tristeza na maioria das pessoas.

Também sentia uma vergonha acentuada na sombra de seus olhos, por ser obrigado a situações que não escolhera.

Talvez, por isso, quisesse ficar em silêncio consigo mesmo.

 

Quantos não sentiam o frescor da noite acariciando seus pensamentos, por mais doloridos que fossem…

Quantos conseguiam perceber que ser amado por tantos às vezes torna-se tão pesado quanto arrastar pedras.

Quantos não sentiam a si mesmos…

Quantos de tantos, indagava-se.

 

Quando esse homem triste dormia, o que perdia de mais importante que a presença da natureza em sua vida? Nada, mesmo que os outros estivessem trabalhando, produzindo.

Isso ele também fazia no decorrer da noite, além de encontrar-se com as surpresas da madrugada no seu caminhar.

 

Estar na contramão traz sempre descobertas, desafios, reflexões, palavras que muitos não são capazes de dizer; é conseguir enxergar e não apenas ver.

Estar na contramão é muito bom; só assim posso ser íntegro comigo mesmo, pensava ele, aconchegando-se às cobertas, antes de cerrar as janelas e os olhos.

E dormir sonos sem sonhos.

Apenas dormir.

 

Só não entendia o porquê de, no meio dessa contagiante satisfação interior, ainda se sentir triste…

 

 

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Necessito do Silêncio
em suas profundezas
encontro minha superfície
a outra dimensão

 

Encontro a mim mesma
quando inebriada pelo céu da madrugada
consigo ver-me no mar
no rio, na relva
descubro-me
quando cruzo o espaço
como uma estrela cadente
mas em ascensão

 

Sinto-me como que em casa
como se tivesse achado
o meu canto predileto
o meu banco predileto
o meu jardim predileto
o meu momento predileto

 

Necessito do Silêncio
mesmo entre ruídos demolidores
porque pressinto quem sou
quando envolvida em seu sopro

 

Sinto o Silêncio
é como entregar-me
à Natureza
é como um encantamento
um anjo de asas velozes

 

Silêncio, êxtase
é sentir e quase ver o divino
mesmo que a Essência seja invisível
aos olhos mundanos

 

A quietude do meu ser me embala
e assim posso respirar
silenciosamente

 

 

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