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Posts Tagged ‘marcas’

Marcas IV

  

Partiste, bem sei

Deixaste em tua passagem rastros de luz

                                        o aroma das romãs maduras

                                        o gesto dos príncipes

 

Apenas a palavra inacabada

                            pairou por um segundo no ar

                            para depois

                                                     c

                                                     a

                                                     i

                                                     r

                                                         sob tuas pegadas

                                                         marcadas, por fim,

                                                         nos Tempos

 

 

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Marcamos um encontro, apesar da nevasca.

Cheguei primeiro ao moinho.

O ambiente pareceu-me frio e abandonado.

A mó, inerte, tecida com teias de aranha, mais parecia uma mesa vazia.

Fiquei com vontade de girá-la, um pouco que fosse, só para ouvir o som da eternidade.

Fiquei tentada também em movê-la ao contrário; quem sabe, assim, eu me encontrasse com você, novamente no tempo em que sabíamos sorrir.

Subi ao palheiro e atirei-me naquela cama natural, querendo que ali você já estivesse, para sonharmos em voz alta algum momento de nossa infância.

Sozinha contemplei aquelas vigas de carvalho sustentando todo o moinho, vigas pelas quais o tempo apenas passa e que perdurarão quando muitas coisas já não mais existirem.

A idéia assustou-me, fazendo-me descer rápido do palheiro, para subir por uma escada lateral que eu não sabia aonde iria dar.

No último degrau vislumbrei um quarto em penumbra, quase vazio, mas com cortinas na janela e um breve perfume no ar.

Resolvi não adentrá-lo porque a sensação de deixar algo para ser desvendado mais tarde me agradava, sugerindo descobertas, talvez surpresas, quem sabe confirmações.

Retardei então o instante.

Deixei-o pairando no ar, como uma pena alvíssima que nunca atingiria o solo.

Somente quando se tornasse um momento real e  você estivesse presente e eu me sentisse segura por isso.

A lareira, agora inativa, ocupada por entulhos que outrora foram objetos úteis ou valiosos para alguém.

Faltava o calor da madeira a crepitar suas labaredas, até que se tornasse brasa coberta por cinzas, tal como um espelho meu.

O vento gélido e forte me abraçou e os flocos de neve, centenas, acarinharam meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.

Alguns colaram-se em meu casaco de lã e em minhas botas pesadas, pegadas que testemunharam minha presença.

Enrolei-me melhor no xale verde que emoldurava uma possível e ainda esperança em meus olhos e tomei o rumo da estrada.

 

Até hoje continuo procurando o caminho.

O caminho que me leve à sua alma, para que eu possa parar um pouco, tomar fôlego e água, respirar o ar que me falta e me debruçar na centelha de luz do seu olhar.

E caso você não me queira mesmo, ave de voo tardio que sou mesmo em meio a temporais, poder continuar ou regressar.

Ao moinho.

À espera da primavera.

 

 

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Final de tarde.

Sol de outono.

Escuto músicas do passado tão presentes na minha pele.

É como se o teu olhar ainda pairasse no ar, diante do meu olhar, embora não saibas que já me olhou dessa maneira…

Mergulhando no invisível, toco teu rosto.

Como a retribuir o carinho, de uma forma doce sinto tua boca a beijar minha boca, embora também não saibas que um dia me beijou assim…

Não sabes tantas coisas que sonho…

E as palavras da canção vão entrando por meus poros, meus nervos e nos sonhos que só acontecem em mim.

E vou me lembrando de como eu era quando a ouvia há tempos atrás.

O que mudou, pergunto a mim.

Mudaram algumas marcas no rosto, alguns sinais onde havia um riso largo na boca, mudou a intensidade da luz que ainda me habita.

Mas os sentimentos são os mesmos.

E o inatingível continua sendo atingido apenas em sonho.

A canção te trouxe mais uma vez em suas asas de sons e, sentindo-o tão presente, é necessário que eu me tranque em meus sonhos para te sentir mais perto, bem perto, bem mais perto, para ouvir tua respiração, sentir teu calor, habitar o teu silêncio.

Quando acordo já é noite.

Está frio, preciso entrar.

Mas… como preciso entrar se até agora estava caminhando dentro de mim mesma?

E Joanna canta “aonde foi que eu perdi o teu sorriso e trouxe pros meus dias a saudade… o que será que posso mas não faço e deixo me morrer em agonia…” 

Em um derradeiro aceno, olho para as poucas estrelas visíveis no céu e confio um segredo ao meu coração: os sentimentos ainda são os mesmos.

Amo-te!

 

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E o leopardo que a havia ferido de morte passeava soberanamente pelo jardim, como se nada houvera.

Deixava suas pegadas de sangue em cada margarida que pisava e matando sua sede tingiu as águas da fonte, como se ali depositasse todo o terror de sua irracionalidade.

Quando se deitou à sombra de uma árvore, a mesma em que costumavam descansar,  ainda arfava e sua pele suada estava quente e reluzindo ao sol e em seus olhos profundos a faísca do ocorrido ainda persistia, brilhante, intensa  e ameaçadora como suas presas.

Lambeu suas patas como se apagada pudesse ser a evidência daquela brincadeira mortal, ainda sentindo entre as garras o perfume tão conhecido dos passeios matinais.

No alvo leito, aquela que um dia o salvara de outros felinos quando ainda um pequeno filhote, daqueles felinos maiores e mais fortes e mais perigosos, agonizava em silêncio.

Sabia que trazia na alma e no corpo as marcas da luta que travara com ele, das garras que impiedosamente dilaceraram seu coração, seu riso, sua possibilidade de caminhar e encontrar-se com o resto de sua vida; marcas que nem o tempo apagaria mais.

Antes que seus olhos se tornassem apenas dois pedaços de vidro, tomou as mãos de seu amor entre as suas, fazendo-o jurar que não maltrataria aquele animal; ele nunca teria consciência do que havia feito, apenas sentiria sua falta no início mas, com o passar das horas, a esqueceria e nada mais.

Num último suspiro fez também um juramento silencioso que levaria consigo por toda a eternidade.

E o leopardo, satisfeito e  refestelado na grama do jardim, abriu sua enorme boca, bocejando preguiçosamente. 

Depois dormiu.

 

 

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