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lenço

 

Um dia desses vi um homem tirar um lenço de tecido do bolso.

Ontem, vi novamente.

Como da primeira vez, fiquei surpresa, admirada e senti uma satisfação interior.

Para mim, essa atitude simboliza uma educação requintada.

Não que o contrário signifique uma má educação, longe disso; tenho como exemplo meus irmãos que nunca usaram lenço de tecido e meus sobrinhos que não usam e que tiveram e têm uma ótima educação.

É que essa atitude vem imbuída de outros valores que estão sendo deixados de lado e, digamos assim, fazendo com que a vida perca sua qualidade.

Há tantos outros símbolos de uma boa educação, mas tomei do lenço de tecido como ponto de observação.

 

Vivemos em tempos modernos, práticos; usa-se e, usado, joga-se fora.

Tenho muito medo de descartes, além da tristeza que sinto porque tudo é jogado fora de forma displicente, tudo sem exceção, inclusive a vida.

É raro se ouvir um “por favor”, um “obrigado”, um “você primeiro”.

Não se vê um gesto harmonioso, uma generosidade, carinho então… o que dizer da falta dele, quando o ser vai se tornando duro como rocha, frio como gelo, calculista, manipulador, oportunista?

E a brutalidade e insensatez vêm à tona, a tal ponto e com tal poder, que se auto permitem dispor e acabar com a vida de seu semelhante, por atitudes impulsivas que, se a brandura não tivesse sido descartada, tudo poderia ter sido resolvido de forma diferente, com certeza a favor da vida.

Há, sim, descartes que precisam ser feitos, mas aí os identifico como casos pensados, pesados, analisados e definidos como prejudiciais ao corpo e ao espírito.

Desvencilhar-se deles é doloroso, deixam marcas, causam dores, mas são necessários, inadiáveis.

Há várias situações de descarte que eu poderia citar, mas estou me entristecendo à medida que escrevo; não quero me aprofundar mais.

 

Prefiro falar da imagem que gravei do homem com seu lenço nas mãos.

Ontem vi que o usou para deter lágrimas que teimavam em correr de seus olhos.

De emoção.

De tarefa cumprida, de encontro consigo mesmo neste seu momento de evolução.

 

Mais tarde, quando já estava a sós comigo mesma, criou-se em minha mente uma imagem, a da mulher desse homem lavando esses lenços com carinho e com cuidado, sabendo que eles ali, usados, ainda detinham emoções ou mesmo o suor do rosto desse homem tão requintado.

Esta cena acalmou meu coração.

Esqueci-me dos descartes (que trazem tanta escuridão e medo ao meu coração) para lembrar-me de que sou uma criatura privilegiada por conviver com algumas pessoas incríveis e de muita luz!

Como, por exemplo, o homem do lenço de tecido.

 

Este texto é uma singela homenagem de agradecimento que faço a  Antonio Francisco Sobrinho, com o qual tenho tido a honra de compartilhar momentos tão sublimes e marcantes.

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Ser II


buraco_negro1

.

Ando

pela casa escura

como se cega fosse

do corpo e da alma

 

Tateio paredes

quadros antigos

móveis lanhados

o negro vazio

 

É quando me invade

o medo

tirano

e descubro que nada sou

 

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Saudade IV 

 

Parada diante deste mármore negro e gélido, não consigo pensar em nada.

Meus olhos não conseguem desviar-se de teu nome nesta lápide.

Quero olhar para este anjo de bronze que tão bem esculpido foi, mas não consigo.

Imóvel, apenas sinto o vento frio do outono, as folhas correndo pelo chão, como se tempo houvesse para mais algum pedido ou esperança.

Meus olhos se turvam, mas meu coração está em paz.

Teu nome cravado em minha alma tenta mostrar a razão de todos os sentimentos em que me procuro em vão.

 

 

Penso em nada.

Lembro-me de meu mestre que diz, Para se entrar em estado de meditação é preciso que não se pense em nada.

Não consigo; nada, para mim, possui forma, cor, peso, aroma, calor, dor.

Penso em nada.

 

 

Não te trouxe uma flor sequer.

Sei que sempre dizias que flores foram feitas para serem apreciadas, não para serem colhidas e, assim, mortas.

Mas a natureza, generosa, enfeitou este lugar que ainda penso não ser o teu.

Não trouxe nada.

Nenhuma novidade para compartilhar, alguma dúvida a indagar, muitos dos medos a me rondar.

Nada.

 

 

Veio-me um pensamento.

A primeira coisa que nos dão nossos pais ao nascermos é um nome e, depois de trilhado o caminho que nos cabe, tornamo-nos apenas esse nome.

Esculpido em uma pedra.

Acho que é daí que vem aquele adágio, Vamos colocar uma pedra nisso e seguir em frente.

Uma pedra, um nome; será mesmo só isso?

 

 

A tua passagem por minha vida hoje me parece um sonho.

Quando foste embora, adormecemos os dois; tu do lado da tua nova descoberta, eu aqui seguindo ao lado de meus passos, fazendo-me de mansa para brincar de aceitar situações.

Perdas.

Sonhos em vão.

 

 

Tiro a luva da mão direita e atiro um beijo para o teu nome, é apenas o teu nome que ali está, eu sei.

Um beijo de saudade, de carinho, de dor, de vontade de ouvir novamente tua voz, teu riso, tua postura de príncipe que sempre foi.

Deixo que as folhas de outono permaneçam sobre o mármore; já não precisas de adornos porque tu és a própria luz, embora o céu esteja cinzento e comece a chover.

 

 

Abençoe-me, é só o que peço, e olhes sempre e um pouquinho para mim.

Preciso tanto do teu amor para poder prosseguir.

 

 

 

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– Bom dia, amor!

diz baixinho, espreguiçando-se e sorrindo, mesmo que não haja sol, vente, chova e faça muito frio lá fora.

Às vezes falam-se por cartas, bilhetes, recados sutis; acostumaram-se a cuidar um do outro assim, à distância.

Às vezes encontram-se.

Raramente.

Quando acontece, ela quase não fala, tem medo de perder o pouco que tem.

Às vezes um breve aceno e separam-se suas vidas.

Seus medos, suas alegrias, suas angústias, seus sonhos em universos diversos.

Quando Esther se deita, seu último pensamento é somente para ele.

Com um sorriso, às vezes triste, a contagiar-lhe o semblante, sentindo o travesseiro sempre tão aconchegante, seus olhos vão se fechando lentamente, não antes de balbuciar

– Boa noite, amor!

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Logo cedo, a primeira providência que tomei, mesmo antes do café, foi ligar para o CBDC; para quem não sabe, Comando dos Bandidos Donos da Cidade, para pedir permissão para sair de casa.

Preciso abastecer minha casa de alimentos e também de produtos de higiene pessoal e de limpeza.

 

Perguntei com um pouco de receio se poderia aproveitar a saída, para dar uma chegada rápida ao Mercado Municipal, para comprar frutas e flores.

O CBDC permitiu que eu comprasse frutas, flores não.

Pedi também para dar uma volta até a Praça Buenos Aires onde, em épocas tranqüilas, eu costumava ir à tarde para ler, escrever ou pintar, ao que permitiu, mas sem livro, caneta ou lápis nas mãos.

 

Ordenou que eu usasse óculos escuros, o mais escuro possível, para não ver com clareza a beleza da natureza e, se por acaso eu tivesse vontade de cantar, que emprestasse a mordaça de algum pitbull que por lá estivesse a brincar.

Ah! o CBDC também me orientou a não falar e muito menos a sorrir para qualquer pessoa que por ventura cruzasse o meu caminho.

Também me ordenou para não mudar de itinerário sem aviso prévio.

 

Alertou-me de que não adiantará atravessar as ruas nas faixas de segurança e nos sinais verdes; haverá sempre componentes do CBDC trafegando pela cidade, prontos para cometerem barbáries, as piores possíveis.

E, por fim, que não adiantará eu segurar com firmeza a bolsa junto ao corpo; quando eu menos esperar o CBDC a arrancará de meus ombros e se eu resistir, azar o seu, disse ele em tom debochado.

Depois desses apartes que me deixaram bastante tranquila e relaxada, deu uma sonora gargalhada, dessas de filme de terror, e me informou que eu tinha permissão para sair, mas não garantia nada que eu retornasse; e desligou o telefone proferindo costumeiros palavrões.

 

Diante do exposto, resolvi não sair mais.

Faz cinco horas que estou tentando cancelar minha saída, mas a linha só dá ocupada.

Só parei uns minutos para tomar um copo de água e olhar, com medo, pela janela, para ver se o tiro que ouvi foi mesmo aqui por perto.

 

Se eu não conseguir cancelar é bem capaz que invadam minha casa, me intimidando e humilhando por eu ter pedido licença e não ter saído.

Para não perderem a viagem, quebrarão tudo o que virem pela frente; levarão tudo o que encontrarem de valor.

A minha vida para o CBDC não tem o mínimo valor, mas se estiverem um pouquinho só invocados e ficarem irritados, também a levarão.

 

Será o fim da brincadeira.

 

 

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Literalmente o mundo está expirando.

Desabamentos.

Alagamentos.

Incêndios.

Terremotos.

Tsunamis.

Vulcões em erupção.

Fenômenos da natureza?

Sim, da natureza humana que a tudo devasta, consome, corrompe, transgride, manipula, devora.

 

Política corrupta.

Violência física e moral.

Miséria física e mental.

Fome física e cultural.

Tráfico de drogas, de mulheres, de órgãos, de armas, de crianças, de ideologias.

Também fenômenos da natureza humana.

Enquanto algumas casas vão se tornando gaiolas de ouro, as ruas vão de transformando em montes de lixo de embalagens, de acidentes, de garrafas, de assaltos, de papéis, de corpos.

 

Desespero, fúria, ira são alguns dos sentimentos que afloram.

Aí se lembram de um deus e em cima dele descarregam seu ódio, suas incompetências, suas mazelas, sua condição de espécime ignorante, tão mais inferior que muitos animais ditos irracionais.

Como pensar nos atributos da alma humana, na dimensão divina do homem, se nem da parte mais objetiva e prática e consciente se é capaz de levar a contento quando, ao contrário, são promovidas guerras registradas nos tempos e nas mentes doentias de lunáticos fantasmas que perambulam pelo planeta se intitulando deuses?

 

Torre de Babel, diz a passagem alegórica da bíblia.

Torre de papel.

Que vai se desintegrando no ar, no fogo, na água, na lama da ganância, do egoísmo, da luxúria.

 

Onde, então, buscar um pouco de luz?

Onde encontrar uma palavra que traduza verdadeira confiança?

Onde compartilhar um doce olhar se as pessoas não mais se enxergam, afogadas que estão em suas angústias e medos?

 

Se alguém tem uma resposta, uma que seja, gostaria de ouví-la; preciso respirar e pensar que, numa virada de esquina, ainda existe a possibilidade de se encontrar um Oasis que não tenha sido atingido pela mão do homem de valores corrompidos, estraçalhados, jogados no poço das misérias, onde soterrou seu amor próprio, sua dignidade e caráter; onde ele mesmo enterrou sua verdadeira divindade.

 

É verdade; não há apenas uma torre de babel; são várias as torres de babel e são gêmeas, embora de aparências díspares.

São gêmeas, espalhadas por todo o mundo, feitas do mesmo cimento, da mesma massa; por isso, o mesmo tombo, o mesmo rombo, o mesmo abismo.

 

Logo os pólos descongelarão, as estrelas cairão e o amor… ah! o amor… bem, o amor não passará de pura fantasia que um dia os poetas enalteceram em suas loucuras.

Nada mais.

 

Na verdade, bem sabemos que quem está dando seu último suspiro não é o mundo.

 

 

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