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Sabes quem é?

flor-coracao

 

 

As visitas só podem ser feitas às terças feiras.

Mas a cada terça, a menina a encontra com uma lembrança diferente, de pessoas diferentes, de momentos que já não sabe mais em que espaço adormeceram.

 

Desta vez encontrou-a com uma foto nas mãos, de alguém que não havia mencionado sequer a existência.

Seu rosto estava iluminado e a menina se surpreendeu com essa quase felicidade que não havia notado em nenhum momento, até então.

As mãos da senhora tremiam e, assim, dava impressão à menina de que a pessoa na foto se mexia enquanto sorria.

 

Sabes quem é? – pergunta a senhora, arrumando a gola de sua blusa, como se quem estivesse na foto pudesse vê-la – e a menina negou com a cabeça, esperando um nome, uma data, uma história.

Mas o que viu foi apenas os olhos da senhora pousarem novamente naquele sorriso e com os dedos ainda trêmulos acariciar o rosto, os olhos, a boca, os cabelos daquele que lhe sorria.

 

Por algum tempo assim permaneceu a fitar aquela expressão serena, tranquila, suave.

E a menina, a seu lado, apenas acompanhava o caminhar daquele instante.

 

Até que a senhora se apercebeu novamente de sua presença e, passando-lhe as mãos delicadamente em seus cabelos sedosos, perguntou novamente – Sabes quem é? É o grande amor de minha vida! – e a menina novamente se calou, intrigada com a surpresa que notou na voz da senhora, como se ela tivesse o dever de saber a quem se referia.

 

No instante seguinte, a senhora guardou a foto na caixa de lembranças e retirou-se novamente para o mundo que construiu, onde sempre era feliz, onde sempre sorria como criança para seu amor.

 

E o horário da visita terminou.

E a menina saiu da mesma forma que entrou, sem sequer saber um nome, um lugar no tempo, embora com a certeza de que havia escutado, no silêncio daquele mundo mágico, uma história de amor.

 

 

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balão de livros

 

 

 

Era um domingo ensolarado e a saudade bateu fundo no coraçãozinho da menina.

Iria ver sua querida Da. Anita somente no dia seguinte, uma demora que duraria mais de 12 horas.

Como não estava fazendo nada mesmo e estava linda no seu vestido de domingo, com fitas nos cabelos que mamãe penteou, pois acabara de chegar da missa das dez, resolveu então ligar para ela.

Pegou da lista telefônica e procurou seu nome e se apercebeu de que esta era a primeira vez, depois de alfabetizada por Da. Anita, que fazia uma pesquisa espontânea e livre, que não fosse obrigações escolares.

Pronto, achou! Cá para nós, não foi tão difícil assim, pois ela morava na mesma rua, General Telles, um quarteirão acima de sua casa; de qualquer forma foi uma atitude individual e, diga-se de passagem, muito feliz!

Olhou pelo vão da porta e viu sua mãe entretida com o almoço, conversando com  seu pai que, sentado à mesa, saboreava algum petisco.

Então discou o número (era a primeira vez, também, que fazia uma ligação sozinha) e ficou com um sorriso ansioso e feliz no rosto, esperando ser atendida.

– Alô?

– Da. Anita? Aqui é sua aluna, Isabel, filha da  Delilah!

– Oi, Isabel, tudo bem com você?

– Mais ou menos, Da. Anita; estou com saudade da senhora.

– Mas amanhã vamos nos ver! – responde ela sorrindo, meio emocionada.

– Da. Anita, a senhora já almoçou?

– Não, querida; ainda estou preparando alguma coisa.

– Então posso ir almoçar com a senhora?

– Claro que pode! – diz ela, completamente surpresa com o imprevisto.

– Então a que horas posso ir? Agora são 11:30 (da altura dos seus seis anos já sabia   ler as horas; o avô havia ensinado) – diz, consultando o grande relógio na sala.

– Uma hora está bem?

– Sim senhora! Até mais.

E, correndo para a cozinha foi, feliz da vida, pulando tal e qual um cabritinho, contar sua proeza aos pais.

– Mamãe, mamãe! Vou almoçar na casa da Da. Anita!

– Como assim?

Então ela conta à mãe a peripécia que fez e esta, aflita, corre à lista telefônica e liga para Da. Anita, desculpando-se pela ousadia da menina.

– Da. Anita me desculpe; não vi a Isabel ligar e não quero, de forma alguma, que ela vá incomodá-la! Imagine só; sei que domingo é dia de reunião familiar e, por isso, estou ligando para me desculpar e para dizer que ela não irá.

– Não, Delilah, deixe que ela venha; fiquei muito feliz com sua ligação e ela não vai me atrapalhar em nada!

O pai ficou de boca aberta, os irmãos ficaram olhando para ela e o avô achou engraçada a atitude da menina (esta também foi a primeira vez que foi almoçar fora de casa sem a companhia dos pais).

Às 12:55 Isabel saiu de casa com um prato de torta de palmito nos braços que a mãe mandava para a mestra, sorrindo e saltitando, feliz, com as recomendações da mãe para se comportar direitinho e para olhar para os dois lados antes de atravessar a rua.

E a mãe ficou olhando do terraço, até ela chegar um pouco mais que o meio do outro quarteirão, no portão da professora.

E ela então parou e, antes de tocar a campainha, ficou olhando aquele jardim encantado, com o qual já havia sonhado muitas vezes; viu a estátua da Branca de Neve e, à medida que seus olhos vagavam de lá para cá, ia citando mentalmente os nomes dos Sete Anões.

Então, prestes a entrar naquele castelo, deu uma ajeitada em seu vestido todo armado, nas fitas de seus cabelos, olhou para seus sapatinhos de verniz preto para ver se continuavam brilhantes e, por fim, tocou a campainha.

Eis que surge na porta sua fada, sua mestra, aquela que a ensinou esboçar as primeiras letras naqueles exercícios sem fim no caderno de caligrafia, as tabuadas aritméticas, o primeiro livro e, naquela fração de segundo, ouviu a voz dela e de suas amiguinhas de classe lendo em conjunto: “A pata nada; pata pa; nada na”.

Subiu correndo aquela escada que parecia não ter fim e pondo o prato em cima de uma mesinha, na varanda, voou para os braços de Da. Anita e, nas pontas dos pés, deu-lhe um longo e forte abraço.

E que assunto haveria de ter uma professora com uma aluna de seis anos de idade?

Perguntou do papai, da mamãe, do vovô, dos irmãos, do quintal que tinha tantos pés de frutas, plantas e flores e, por fim, se estava gostando dos estudos.

E ela confessou à mestra que às vezes (não sempre) confundia a ordem das letras de seu nome.

Da. Anita pegou uma folha muito branca (parecia uma nuvem!) e um lápis muito bem apontado e fazendo-a sentar-se à mesa, disse que iria ensiná-la de uma forma que jamais esqueceria.

– Vamos lá: O “I” é como se fosse uma torre alta, assim como eu. O “S” é uma minhoquinha que anda pelo quintal à procura de alimento. O “A” é um telhadinho para se esconder debaixo quando a chuva forte nos pegar pelo caminho. O “B” é igual à barriga da mamãe que está esperando seu irmãozinho. O “E” é uma boca aberta num sorriso muito gostoso. E, por fim, o “L” que é uma poltrona grande e confortável para se descansar.

– Não pode ser um balanço, Da. Anita? – interpela a menina.

– Não, o balanço é a letra “U”.

– Ah…

Havia mais convidados na casa de Da. Anita: sua irmã, de olhos verdes maravilhosos e cabelos que pareciam de ouro e, seu sobrinho, o Francisco, lindo como a mãe e educado como ela e a tia.

Depois do almoço ela e o Fran ficaram lendo revistinhas, enquanto os adultos sumiam por detrás das portas, para fazer não sei o quê.

E a menina estava feliz por se encontrar em um lugar diferente que ninguém de sua casa conhecia.

Foi então que se sobressaltou com um pensamento; saltando da poltrona, foi ter com a professora.

– Da. Anita, alguma aluna já esteve aqui em sua casa?

– Não, Isabel, você é a primeira!

Ufa! Que alívio! Sentiu-se plenamente privilegiada: era a primeira, era a única até o momento que, sentindo tanta saudade da mestra, foi ter com ela, adentrando em seu mundo.

Não se cabia de emoção ao se imaginar contando às amiguinhas do seu domingo maravilhoso e de como Da. Anita a ensinara a memorizar a ordem das letras de seu nome de uma forma especial, diria até carinhosa, tão diferente de como tinha que ensinar no colégio, seguindo a didática do programa por certo determinado pelas freiras.

Assim a tarde foi passando, nada dela pensar se já era tempo de voltar para casa, de tão encantada que ficava (como sempre) ao lado de sua fada, sua mestra, aquela que colocou palavras em seus pensamentos e ensinou a transferi-las para o papel, para que as pessoas pudessem sentir o que ia pela sua emoção.

Até que sua mãe ligou e pediu para que Da. Anita a mandasse de volta, pois já abusara muito do seu tempo, além da prima estar em casa esperando-a chegar.

Antes de pegar aquele prato de empadinhas que eram destinadas à sua mãe, ela pendurou-se no pescoço de Da. Anita, deu-lhe outro forte abraço e, desta vez, já se sentindo íntima dela, deu-lhe um grande e sonoro beijo no rosto, sendo retribuída com o mesmo carinho.

E assim a menina partiu, não tão saltitante como havia chegado, com o prato de empadas nas mãos e um “Até amanhã, Da. Anita e obrigada” nos lábios.

Antes de atravessar a rua, virou na esquina por uns instantes e, longe dos olhos da mestra que a via partir e da mãe que a via chegar, enfiou duas empadas inteiras na boca; na certa não havia comido o suficiente no almoço, de vergonha da professora.

Quando chegou em casa, entregou o prato à mãe, com recomendações de Da. Anita, olhou para a prima e para os irmãos com ar de superioridade e foi ter com o avô em seu quarto.

Este lhe deu um beijo na testa e perguntou-lhe como havia sido seu passeio.

– Torre, minhoca, telhadinho, barriga, boca sorrindo e poltrona!

– O que é isso?

– É a ordem das letras do meu nome, vovô! I de torre, S de minhoca, A de telhadinho, B de barriga com bebê, E de boca sorrindo e L de poltrona!!!

– Muito bem, parabéns! – disse o avô, sem entender direito a associação que havia com as letras, dando umas “palmadinhas” carinhosas e de leve no rosto de sua netinha, como costumava fazer.

E Isabel, com um sorriso luminoso nos olhos, sentou em uma cadeira ao lado dele e, enquanto o avô escrevia, ela começou a pensar por onde iria começar a contar seu dia inesquecível a seus irmãos e às suas amiguinhas.

Obrigada, Da. Anita Ramos,

por ter sido a primeira a ter aberto algumas portas para mim, passagens que até hoje as utilizo.

Na verdade a senhora não só foi minha fada, minha mestra, mas um anjo que me ensinou a colocar no papel meus sonhos e fantasias, minhas emoções, minhas dores e meus amores, enfim, minha estrada.

Hoje em que se comemora o Dia do Professor, deixo aqui mais um pedacinho do meu coração cheiinho de saudade para a senhora, Da. Anita, minha doce Estrela Guia!

 

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A Menina

 

 

menina pula corda

desce a ladeira em carrinho de rolimã

anda de perna de pau

pula dentro de uma rede

lá de cima de uma árvore

brinca desses brinquedos

mas é menina

 

menina pula amarelinha

embora goste do lilás

pensa que é princesa

mesmo sem coroa

mas de princesa

só carrega o nome

 

menina pula poças passíveis

de água

pisa pedras

levita pensamentos

onde tudo é possível

 

menina chora

o espelho confidenciou

que está crescendo

perdeu as fitas

perdeu o riso

perdeu as roupas

 

menina brinca

que é gente grande

que entende das coisas

no fundo sabe

que é apenas menina

doce

 

 

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