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Posts Tagged ‘menino’

 

 

E o menino continuou a correr pelos campos de centeio, como se pássaro fosse.

Suas mãos tocavam os talos tenros e dourados, como uma colcha macia bordada pelo Tempo, da cor do sonho que sonhara de olhos semi cerrados, antes de entrar, pela primeira vez, em um templo.

Um sonho de vôo pleno onde, num ímpeto de emoção e liberdade, levantava seus braços, ficava nas pontas dos pés como se assim pudesse tocar o céu, sem se dar conta direito de que o Sol já o abraçava por inteiro.

 .

Se fez uma prece, não me recordo, mas sua existência já era a própria prece!

 .

Sentiu o aconchego do silêncio, as mãos da brisa em seus cabelos, o corpo leve a caminhar sentimentos só seus.

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De volta à realidade, pressentiu que seu vôo fora marcado no coração e na mente, não sabia ainda por quê.

 .

Mas quando entrou no templo, lá estava esculpida em uma parede de luz, a imagem sublime daquele que, de braços levantados em plenitude infinita, comungara com seu Deus e a Seus pés depositara sua vida, que recebera um dia como divino presente.

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E agora o menino está aqui, à minha frente, e eu o vejo agigantar-se solene e poderoso, elevando seus braços aos céus, transmutando sombras em luz, silêncio em sons, mundano em divino.

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É o mesmo menino, eu sei.

Apenas se transforma em um guerreiro dourado, para cumprir sua tarefa de Amor.

Depois, volta a ser o menino que sempre foi.

 

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Quando virei a esquina, meio apressada, esbarrei nos três.

Por um  momento pressenti ter passado por algum portal no tempo. Em que século fui parar?

Maravilhada fiquei com suas vestimentas, coroas, jóias e atenta ao que acontecia ao redor, me pareceu que se dirigiam para algum evento, visto que carregavam presentes nas mãos; e minha imaginação viajou entre braceletes, anéis, tecidos de seda, mapas do tesouro!

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Depois do esbarrão, sorriram para mim, os três, e em cada um vi um brilho raro no olhar.

E como eram diferentes entre si… no porte físico, na etnia e seus trajes, na forma de caminhar, de falar, de tão generosamente sorrir.

Mas todos portavam coroas em suas cabeças; sobre um turbante, um véu ou sobre os cabelos.

Foi quando me dei conta de que deveria estar simplesmente na presença de três reis.

E, ao invés de lhes fazer uma reverência, pedi licença, um pouco constrangida, para fazer uma self com eles, mas o tempo que demorei para explicar e para eles entenderem o que isso seria, me fez desistir da ideia.

E assim, ajoelhei-me como um cavaleiro em suas presenças, o que me fizeram levantar de imediato, estendendo-me as mãos, com um sorriso nos lábios.

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O mais alto, de tez cor de jambo e olhos meigos, convidou-me a ir à festa com eles.

Neguei imediatamente; não estava vestida de acordo para acompanhá-los.

Ao que o outro, de tez clara e gestos doce, falou-me que haveria de surgir alguém que andaria descalço pelos caminhos da vida, sem se importar com vestes e adornos.

Por que, então, eles andavam vestidos com tanta pompa? pensei eu.

Foi quando o terceiro, de voz melodiosa, me respondeu que aquela era a vestimenta normal deles, tal como a minha era aquela, na qual me apresentava naquele momento.

Fiquei surpresa e envergonhada ao perceber que podiam ler meus pensamentos… magia?!?

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Mesmo assim, quis arrumar uma desculpa para não caminhar minha pequenez ao lado de seus passos.

Minhas melhores amigas fazem aniversário neste mês e gostaria de dar-lhes algo, como símbolo do laço cada vez mais forte de nossas amizades, disse eu.

Você terá tempo para isso, respondeu-me o de olhos meigos.

Vamos! Não podemos nos atrasar, a distância é grande, continuou ele.

Então perguntei-lhe o endereço e de que forma iriam para lá; a distância era enorme, conforme verifiquei no meu gps!

Caminhando, respondeu-me serenamente o de voz melodiosa.

Impossível! disse eu assustada, achando que não chegariam ao destino; ainda mais com aqueles mantos pesados, arrastando pelas ruas, o trânsito, os curiosos…

Reis têm carruagens, servos, amas, liteiras, ministros; aonde estão seus séquitos? mentalmente interroguei.

Deixamos para trás, em nossos reinos; somos nós os chamados para essa festa, falou o de gestos doce.

Então outra dúvida me assaltou (aliás, era o que eu mais sentia, dúvidas!): se deixaram tudo e todos para trás, inclusive um outro rei que precisou atender às necessidades urgentes de seu povo… por que convidaram à mim para segui-los nessa verdadeira jornada, para chegar a uma festa para a qual também eu não fui convidada?

Nada disseram; apenas me olharam e sorriram, acolhendo-me ainda mais para junto deles.

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Durante o trajeto vi, deslumbrada, outras magias acontecerem; os reis tiravam de seus mantos (de certo, de algum bolso embutido ou usando varinhas mágicas invisíveis) alimentos e água, entregando-os às pessoas que paravam para admirá-los.

A um, um pão; a outro, um carinho; a um, um abraço demorado; a outro, uma erva medicinal para seu ferimento; a um, um beijo; a outro, simplesmente um copo de pura água.

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E à noite, quando acampamos em um lugar muito alto e que eu nunca havia passado antes, ao invés de se alimentarem ou dormirem, ficaram fitando os pirilampos na relva e as estrelas no céu.

Em profundo silêncio.

Imitando-os, também olhei para a mesma direção; mas o que me impressionava mesmo eram suas imagens enormes, desenhadas pela luz da fogueira nas pedras e só então entendi a solenidade daquele sublime momento.

Foi quando vi uma estrela cadente riscar o negro céu e, sem querer, em uma alegria infantil, quase eufórica, falei alto e depressa, Faça um pedido para o seu coração!

Mais uma vez, os três entreolharam-se e também para mim, e sorriram.

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E aqui estou agora, com meus anjos e protetores Gaspar, Baltazar e Melchior, diante do Menino que nos envolve em cristalina alegria, que sorri como a cantar um hino, que agita e estende seus bracinhos…

E eu, num ímpeto de amor materno, sem pedir licença a alguém, tomo-O em meus braços, embalando-O e cantando para que permaneça sempre em meu coração!

Seus dedinhos macios agarram um dos meus e, assim, aconchegado ao meu calor, sorrindo adormece.

E este é o presente que trouxe a ti, pequeno Menino: minha eterna Gratidão!

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Este é um dos motivos que escolhi o Dia de Reis para inaugurar meu blog.

Este ano, a data, dentro da simbologia numérica, torna-se ainda mais especial: três reis magos mais sete anos de blog somados é igual a dez, ou seja, igual a UM.

 

 

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o quintal 2

 

E então o menino descobriu o quintal.

Grande, ensolarado.

Na verdade, um campo aberto para correr até cansar.

Um escorrega para sentir um friozinho na barriga.

Um balanço para levá-lo até o céu.

Um pequeno lago para sentir o frescor da água a escorrer-lhe pela alma.

Alguns pequenos frutos para matar sua imensa sede de viver.

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Não sabia para onde correr primeiro e, por isso, abriu os braços e imitando um avião em voo rasante, percorreu todos os caminhos que se lhe apresentavam pela frente.

A sensação do vento em seu rosto, seus cabelos como asas ao léu, seu corpo a flutuar, seus pés resvalando na grama… tudo o deixava leve como uma ave que voa pela primeira vez depois de uma tempestade.

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Como descobriu o quintal, não sabe dizer.

Não sabe em que momento o vislumbrou, mesmo que de longe fosse.

Não se recorda se havia muro, se havia portão de passagem.

Apenas de uma coisa tinha certeza: não estava cercado com arames farpados.

E foi exatamente isso que o animou a entrar!

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Com cuidado sondou o quintal até aonde sua visão permitia; poderia haver um cachorro bravo escondido em algum canto, por que não?!

Depois sentiu-se mais seguro, mais contente, pensando no que diria se alguém ali encontrasse.

Mas à medida que adentrava o terreno, sentia-se cada vez melhor, como se estivesse em um lugar que já conhecera antes, mas que não se lembrava.

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Não havia ninguém.

Mas sentiu que ali existia vida.

Havia flores nos canteiros, havia lençóis macios dançando nos varais.

Havia música e que peculiar música!

Foi quando viu uma gaiola pendurada à sombra da mangueira.

Dentro dela um pequeno periquito mais verde que amarelo, olhando seus olhinhos negros nos olhos do menino.

Por um instante ficaram calados, se olhando.

Um silêncio de reconhecimento, um silêncio de carinho.

E depois, o periquitinho cantou para ele, saudando-o, dizendo de como era bem vindo!

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Foi quando sentiu o perfume de café coado naquele instante, naquela pequena casa que vislumbrou escondida atrás de um vasto e fascinante canteiro de tulipas!

E ainda correndo como se avião fosse, chegou à soleira da cozinha.

Pensou se deveria contornar a casa e bater na porta da frente, pois não tinha nenhuma intimidade para ir-se atirando pelos fundos.

Mas pensou, Já que estou aqui, por aqui entrarei… se for convidado, lógico.

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Quando pisou no primeiro degrau, à sua frente surgiu, assim do nada, braços que o abraçaram demoradamente, lábios que o beijaram carinhosamente e um sorriso simples mas verdadeiro, que o menino sentiu vir da alma daquela mulher.

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Hoje ele vai ao quintal quando quer, a qualquer hora.

Para correr, para brincar, para pintar, para admirar e conversar com a avezinha, para sentir o carinho das tulipas entre seus dedos, que está a copiar para cinzelá-las no metal.

Mas há momentos em que fica quietinho, quase que imóvel, sentindo na brisa a magia da vida.

Em tudo.

Em si.

Na mulher.

No quintal.

 

Este quintal é do menino Anizio Silversmith

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Deita menino, tua cabeça no meu ombro.

 

Se quiseres continuar tocando tua flauta, ouvirei todas as notas e verei todos os risos que dela se elevam aos céus.

 

Se quiseres chorar, não farei barulho algum para que possas ouvir o bater forte e compassado de meu coração, dizendo que nas lágrimas mais sentidas estão escondidos os oceanos de esperança.

 

Dorme menino, deixa que o vento suave brinque com teus cabelos macios, te beije os olhos e os sonhos; enquanto ressonas, recordarei teus murmúrios, teus pedidos às estrelas quando, numa poça d’água, achavas que as tinhas a escorrer entre os dedos.

 

Quando acordares será outro tempo e, abrindo teus olhos e tua mente, terás tempo suficiente para sentires o sol raiando na tua vontade louca de viver!

 

Por enquanto, adormece menino; prometo segurar teu balão colorido para que não saia a voar sem destino e também não deixarei que as formigas façam festa com teu algodão doce porque, bem sei, o clima não é de festa…

 

Quero apenas que descanse teu cansaço, tua dor, tua aflição; quem sabe sonhes com uma pipa linda a riscar o espaço, quem sabe sonhes com uma rosa ou com uma nova canção.

 

Permite apenas que eu sorria, na tentativa de que teu sono seja em paz.

 

 

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Aceitação

 

Não posso chorar

tua partida

porque sequer chegaste

 

Como um anjo

surges em meus sonhos

como a lua branca

alças teu voo

para outro mundo

 

E em outros olhos

brincas de criança

de adulto

de homem

brincas como brincam os anjos

e os animais

 

Brincas com as flores

os raios de sol

as ondas do mar

 

Vendo-te a brincar assim

engulo o pranto

apenas um soluço seco

desenho um sorriso inexistente

e vou abraçar-te

 

Afinal, hoje tens apenas

seis anos

 

 

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