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Posts Tagged ‘mentira’

Fim

 

 

 

 

 

 

taca-quebrada

 

 

 

Sonhos

Mentiras

Taça de cristal

Punhal

 

 

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Lá vai ele atravessando a praça

de impecável preto

colarinho branco

sapatos usados a ranger caminhos

 

Entrando no templo abençoa a todos

e a mim, Miriam, em particular

quando conto-lhe os pecados que não tenho

 

Ouço sua voz profunda e pausada

dando-me por penitência

20 pai-nossos e 30 ave-marias

mas como dizer-lhe

que não sei mais rezar…

 

Eu, Miriam, que dizem ter semblante de anjo

voz de veludo, gestos singelos

ajoelho-me neste canto da igreja

em falsa humildade

aos pés deste homem filho de Deus

 

Só para admirar seu perfil

desejar sua boca

fitar seus olhos molhados

seu aceno em cruz

suas palavras de paz

que nunca consigo ouvir…

 

Deixo-me benzer por essas mãos

que tanto queria tocando meu corpo

e quando o martírio termina

e nossos olhos se cruzam

sinto o fogo do inferno incendiar-me

como a implorar-lhe que este instante seja eterno

 

Mas eu, Miriam, que dizem ter semblante de anjo

voz de veludo, gestos singelos

levanto-me e saio quase que correndo

e de imediato entro em outro templo

para confessar quatro pecados

que antes de conhecê-lo não tinha

o de mentir

o de fingir

o de desejar

e o de sonhar

 

Amém

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Máscaras II


 

O que sei é que esta máscara colou-se em meu rosto

hoje passou a ser minha pele

minha expressão

minha face

 

Morre meu coração

quando alguém diz

Trazes no rosto a calma

nos olhos, o espelho de tua alma

 

 

E já não há mais tempo

não há mais razão para romper

essa barreira

esse disfarce

 

Tudo o que me cerca é tão falso

como eu

sem face, tão fácil

onde tudo é não

 

Talvez a vida também seja

um mal estar por não se estar

uma mentira

um pesadelo

um vão

 

 

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De todas as que te amam

sou a mais insegura, a mais inconstante, a mais confusa

 

Em mim

sei que nunca encontrarás um porto seguro

uma praia

um caminho ao entardecer

 

Nunca adoecerei pela ausência de um sorriso teu

 

Não passarei noites insones

tentado afastar rostos e gestos que te atormentam

não tenho dúvida de nenhum

 

Não quero que o meu seja mais um

a te assombrar

como a um sentimento que nunca se concretizará

 

De todas as que te amam

sou a que menos ama

 

Sou a perversa criatura

que se soma ao cordão das insensatas

aquelas que impiedosamente invadem

o sono e os sentidos dos sensíveis

 

De todas as que te amam

não sei se sou a única de plástico, robótica

inflável, inflamável

 

De todas as que te amam

sou a que mente mais e melhor

 

 

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Máscaras

 

 

Irrita-me ver pessoas brincando de semideuses, da mesma forma que me sensibiliza ver deuses brincando de simples mortais, tão somente para que as diferenças não sejam tão delirantes, evitando simplesmente que esses coitados se matem ao defrontarem-se com o aroma da primeira tarde do outono.

Semideuses, assim se intitulam, deixando propositalmente uma certa evidência de falsa modéstia, porque na verdade se autodenominam deuses.

Da verdade, do mais belo, mais perfeito, do melhor, do maior, do único.

Prefiro a companhia das hortênsias que, mesmo sem perfume, acariciam minha alma, tocam minha emoção, marejam meus olhos.

Prefiro a companhia do grilo verde que mora na folhagem do terraço, que me fala não do mundo dos homens arrogantes, mas da essência de sua alma de grilo.

E se tarde da noite for, não me permitindo longos passeios pelo jardim, ainda assim prefiro o brilho do luar a um lugar de honra no Olimpo junto a deuses de mentira.

 

 

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A Madrinha

 

Todo final de ano minha irmã ía visitar sua madrinha, levar um presentinho de natal e… buscar o seu.

Cheguei a ir algumas vezes com ela pois sua madrinha, tão generosa, sempre oferecia uma farta mesa de guloseimas para o lanche da tarde.

Antes de sairmos, mil recomendações de minha mãe para nos sentarmos como mocinhas, para conversarmos educadamente, perguntarmos pelos parentes, filhos e netos; para agradecermos tudo que eventualmente ela nos oferecesse e, que aceitássemos apenas algumas pequenas guloseimas e um copo de refresco e nada mais.

E foi em uma dessas tardes gostosas que nós duas nos dirigimos para a casa de sua madrinha.

Era uma bela caminhada e até chegarmos à sua porta íamos tentando adivinhar o que minha irmã iria ganhar naquele ano.

Lá chegávamos e a madrinha nos recebia com tanta amabilidade e educação, aquela senhora de idade já bem avançada, aparentemente frágil mas de muita personalidade, brilho no olhar e voz firme.

Quando a conversa já caminhava para nenhuma outra novidade, ela pediu licença, nos deixando na sala com aqueles retratos tão antigos pendurados nas paredes e foi dar ordens para que providenciassem a mesa para o lanche.

Quantas delícias! Se fechar os olhos sou capaz de sentir o aroma dos salgadinhos, dos bolos, docinhos e…das empadinhas! Eu adorava as empadinhas que ela mesma fazia.

E não é que ela colocou uma travessa imensa de empadinhas bem à minha frente?

De imediato, lembrei-me das recomendações de mamãe, Comportem-se e comam apenas o suficiente para que a madrinha fique contente.

Peguei apenas uma, coloquei no meu pratinho e fui saboreando lentamente aquela divina delícia; minha irmã pegou, também delicadamente, um pedaço de bolo de chocolate.

De repente o telefone tocou e a secretária veio informar que era o filho dela, querendo trocar umas palavrinhas. 

Então a madrinha nos pediu licença e foi atendê-lo.

Ah! fizemos a festa! Peguei a travessa de empadinhas e dividi metade para mim, metade para minha irmã e, num segundo, devoramos todas; assim, num piscar de olhos.

E entre um gole de refresco e outro, comemos bolos, pamonhas, brigadeiros, pudins.

Quando ouvimos a madrinha voltando, limpamos nossas bocas, recompondo-nos e, com caras de anjo de altar, demos um sorriso amarelo quando ela entrou na sala.

Nunca me esquecerei o susto que ela levou (e que tentou disfarçar)  ao ver a mesa detonada; sorriu daquela forma doce como a pensar, Crianças…

Na verdade, penso que ela deve ter rido muito com sua filha quando fomos embora, da mesma forma que ríamos pelas ruas, prometendo uma à outra não contar nada à mamãe.

Promete? Eu não conto! Então promete.Prometo! Jura? Juro!

E se a madrinha comentar com a mamãe? Não, a madrinha não vai fazer isso, ela é muito fina!

E se a madrinha contar à mamãe que, quando entrou na sala, nós estávamos rindo dos retratos nas paredes? Não, a madrinha não vai fazer isso, ela é muito fina e educada!

E se a madrinha perceber e contar à mamãe que limpei as mãos na toalha porque meu guardanapo caiu no chão e fiquei com vergonha de pegá-lo? Não, a madrinha é muito fina, educada e gentil!

E se a madrinha… Chega! Ela não vai contar nada, fique tranquila. Vamos manter nosso pacto.

Antes de chegarmos em casa, já avistávamos nossa mãe no terraço nos esperando.

Mas… como ela sabia que estávamos chegando, perguntei à minha irmã. E, numa fração de segundo concluímos a mesma coisa: a madrinha ligou!!!

E mal subimos a escadaria, nem ouvindo direito minha mãe perguntando se tudo havia corrido bem, falamos quase que ao mesmo tempo: Mamãe, foi a Isabel que comeu quase todas as empadinhas! Mas a Margarida, mamãe, comeu tres pedaços de bolo e um bom pedaço de pudim! A Isabel tomou toda a jarra de refresco! A Margarida comeu dez brigadeiros, mamãe.

Claro que a madrinha não havia ligado; claro que não sabíamos mentir.

Mas íamos dormir sem jantar.

 

 

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