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Saramago

 

Lendo matérias referentes às fatalidades acontecidas nos últimos dias e tendo em mãos o livro que foi publicado após a morte de José Saramago (organizado e selecionado por Fernando Gómez Aguilera), deparo-me com o capítulo sobre Ética.

Falta-me o chão, o ar, e um vazio imenso me faz sentir saudade de meu lar que não sei exatamente onde fica, mas que sei não ser esta cidade, este país, este planeta…

E à medida em que vou absorvendo tuas palavras, Mestre Saramago, menos entendo o por quê de teres sido tão criticado, pois se foste ateu, o que isso importa vendo (e lendo em teus livros e em fatos vividos) o quanto foste humano e quantos crentes de tantas religiões hoje são desumanos com a própria raça, abrindo os portais mais sórdidos e mais escuros de seus impulsos inferiores.

Hoje, dia em que se comemora a data de teu nascimento, deixo trechos desse capítulo, Ética, para um momento de reflexão e de constatação de que, ser humano não implica em fazer parte de um ou outro segmento religioso e sim, praticar o que sua consciência lhe diz, mesmo que para tanto se reme contra a correnteza da maioria, que prefere utilizar a máscara padronizada à face limpa de disfarces.

“Se decidíssemos aplicar uma velha frase de sabedoria popular, provavelmente resolveríamos todas as questões deste mundo: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”, que pode ser dito de maneira mais positiva:”Faz aos outros o que quiseres que te façam a ti”.

Creio que todas as éticas do mundo, todos os tratados de moral e códigos de comportamento se contêm nestas frases.

Nem a arte nem a literatura têm que nos dar lições de moral. Nós é que temos que nos salvar e isso só é possível com uma postura cidadã ética, embora possa soar antigo e anacrônico.

Percebi, nestes últimos anos, que ando procurando uma formulação da ética; quero exprimir, através dos meus livros, um sentimento ético da existência e quero exprimi-lo literariamente.

Cada vez me interessa menos falar de literatura e cada vez mais de questões como a ética – pessoal ou coletiva.

Não sei [se haverá algo depois desta travessia do deserto], mas há uma condição essencial: o respeito ao outro. Nisso está contido tudo, porque impede de fazer mal.

O que faz falta é uma insurreição ética. Não uma insurreição das armas, mas ética, que deixe bem claro que isto não pode continuar.

Não se pode viver como estamos vivendo, condenando três quartas partes da humanidade à miséria, à fome, à doença, com um desprezo total pela dignidade humana.

Tudo isso para quê? Para servir à ambição de uns poucos.

Só falo de evidências, de coisas que estão à vista de todos. E sei que tenho razão.

Em nome da ética, e muito mais da ética revolucionária, se fizeram coisas pouco éticas.

Certa vez eu disse que estamos precisando de uma insurreição ética, mas vamos matizar um pouco.

Creio que tudo isso seria menos conflituoso se pensássemos numa espécie de sentido ético da existência. Sem revolução.

Ter para cada um de nós um sentido ético da existência, no silêncio da nossa consciência. Claro, a consciência não é nada silenciosa, ao contrário: a consciência fala.

A ética de que falo é uma pequena coisa laica, para uso na relação com os outros. Passa por essa coisa tão simples quanto o respeito, só isso.

Portanto, se mais tarde, pelas circunstâncias, a revolução finalmente fosse necessária, então a faríamos.

Mas deixemos a revolução para mais tarde e comecemos pelas pequenas coisas que podemos fazer sem revolução.

Essas coisas pequenas podem ter consequências fortes e intensas como as revoluções, que não duram.

A ética é a mulher mais bonita do universo, o mundo necessita de uma forma diferente de entender as relações humanas e isso é o que chamo de insurreição ética.

Você tem que se perguntar: o que estou fazendo no mundo?

A idéia do respeito ao outro como parte da própria consciência poderia mudar algo no mundo.

Claro que muitas pessoas riem ao ouvirem falar de ética.

Mas creio que há que voltar a ela e não à ética repressiva.

Não tem nada a ver com a moral utilitária, prática, a moral como instrumento  de dominação. Não. É algo mais sério que isso: o respeito ao outro.

E isso é uma postura ética. Fora daí não creio que tenhamos nenhuma salvação.

Tivemos liberdade para torturar, para matar, para assassinar, e tivemos liberdade para lutar, para seguir em frente, para tentar manter a dignidade. É aterrador o uso que se pode fazer de uma palavra.

O importante é que haja presença de um senso de responsabilidade cívica, de dignidade pessoal, de respeito coletivo; se se mantém, se se constrói, se não se aceita cair na resignação, na apatia, na indiferença, isso pode ser uma simples semente para que algo mude.Mas eu estou muito consciente de que isso, por sua vez, não significa muito.

Há um problema ético grave que não parece estar a caminho de ser resolvido: depois da Segunda Guerra Mundial discutia-se na Europa sobre progresso tecnológico e progresso moral, se podiam avançar a par um do outro.

Não foi assim, pelo contrário, o progresso tecnológico disparou a alturas inconcebíveis e o chamado progresso moral deixou de ser, pura e simplesmente, progresso e entrou em regressão”.

Gostaria, Mestre, de trazê-lo, mesmo que por pensamento, a tempos de delicadezas, mas só posso assim fazê-lo guardando-o em mim; o mundo está irreconhecível (ou será esta a sua face verdadeira?)

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Maria M1

 

 

 

Mestre

aqui estou a teus pés

.

Peço-te a benção

daqueles que  procuram

o Conhecimento

mas que tão imperfeitos ainda são

.

Peço-te a benevolência

para que me faças  enxergar

a Luz e nela me banhar

de corpo e sentimentos

.

Peço-te a tolerância

pelas palavras mal ditas

até que eu possa entendê-las

e evitá-las

.

Peço-te a paciência

pelos atos ainda imaturos

pela falta de jeito

em lidar com as dificuldades

.

Peço-te o carinho

para que meu coração se abrande

diante da ignorância alheia

por vezes maior do que a que me habita

.

Mestre

aqui estou a teus pés

simplesmente para te dizer

do meu Amor

 

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Jose Saramago

 

 

Já fiz essa colocação em outras ocasiões, mas como sempre fico surpresa com o fato a repetir-se todos os anos, aqui estou eu novamente, na data de teu aniversário, a procurar nas estantes uma obra para eu reler.

Teu aniversário José Saramago, Mestre querido, que debalde tento seguir mais de perto suas lições, mas ainda sou limitada, pequena, aprendiz…

Tenho relido ultimamente o Ensaio sobre a Cegueira que para mim retrata os absurdos desta dura realidade em que estamos vivendo.

É mais um sinal de alerta, diria até que uma premonição desta época aterradora pela qual a humanidade se auto-flagela, olvidando seus valores morais, sociais, humanitários.

Há trechos em que me assusto, de tão igual a miséria, o descaso, o desalento, a escuridão.

Para me refazer (como se possível fosse) leio de um só fôlego O Conto da Ilha Desconhecida, onde também há poder, discórdias e outras mesquinharias, mas existe algo diferente chamado objetividade de busca, profunda, interior.

Sinto que as duas obras fundem-se em vários trechos, como este que me chamou a atenção, “… é necessário sair da ilha para ver a ilha, … não nos vemos se não sairmos de nós,…”, com um pensamento da primeira obra que citei que diz, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

O Conto da Ilha Desconhecida, como nos situa o texto, transcorre na época medieval, em um país fictício e, como tal, há de se dizer que não é possível comparações com a época em que vivemos; mas, com mais vagar, é possível entender o quanto estamos retrocedendo em termos de valores e de como é bem possível que já estejamos esbarrando nesse período de brutalidades, posses, poder, obscurantismo.

Mestre Saramago, paro por aqui; minha intenção inicial era a de apenas lembrar-me da data de teu aniversário, mas, me perdoe, com estas obras nas mãos me é impossível não pensar (e me arrepiar) nas sombras que hoje se apossam do inconsciente coletivo, nos cegando da verdade.

Vejo nos traços do teu rosto quanto a vida te deu e também te tirou e quanto de ti existe em meu pensar, em minha busca para desvendar o que existe de real em mim, qual o meu caminho diante de tudo, de todos e de mim mesma.

Como disseste e tão bem citado por Arthur Nestrovski, “Dentro de nós (como no livro da Ilha) há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, tal e qual o último pensamento expresso nO Conto da Ilha Desconhecida, “Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.”

Será que essa é a única saída para tudo, Mestre? uma saída individual, uma busca solitária, quase sem esperanças? Se não sonhamos, não vivemos… mas, como sonhar em meio a tantos pesadelos?

Não sei como sobreviver à dor de tão desolado desamor entre as criaturas, mas… aqui estou eu novamente, Mestre, a falar da tristeza do mundo, no dia de teu renascimento em mim…

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pablo neruda

.

Perscruto o tempo e parece-me ouvir tua voz que me faz voar entre poemas, buscando teus sentimentos, verso a verso, nos caminhos e descaminhos, na ausência, na saudade, na busca, na solidão.

E triste fico ao sentir a falta de poesia nesta atualidade, onde ela é trocada por nada, nada mesmo, por pompas exacerbadas, atos ilícitos, brutalidades que tornam os seres insensíveis, roubando o sonho de quem tem o direito e a precisão de sonhar.

 

Para ti, Mestre Neruda, nada disto é novidade se relembrarmos de tudo porque passaste, até que, de decepção e dor, te isolaste das coisas mundanas para poder mais um pouco sobreviver, para viver, quem sabe, um último sonho.

Mas nem isso te foi permitido, teus dias de sonhos últimos e de contemplação que ainda buscavas foram ceifados.

De tristeza morreste, é verdade, mas como se não bastasse fizeram-te morrer inúmeras vezes e, na derradeira, pelas mãos que manchadas para sempre estarão das palavras que não tiveram tempo de serem ditas, dos poemas que voaram contigo pelo caminho do invisível.

.

Hoje, data em que te obrigaram a tomar outros rumos, permito que minha alma volite entre tuas palavras, tuas emoções e esperanças; a primavera que não teve a seu favor o tempo de existir.

 

Quando olho o mar, procuro entre o movimento das ondas o teu silencioso e distante olhar.

.

 18

 Aqui te amo

Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento

A lua fosforece nas águas errantes

Andam dias iguais e perseguir-me.

Às vezes amanheço e minha alma está úmida

Soa, ressoa o mar distante

Isto é um porto

Aqui te amo.

.

Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte

Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas

Às vezes vão meus beijos nesses pesados barcos

Que correm pelo mar rumo onde não chegam.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores

E ainda porque te amo, os pinheiros, no vento,

querem cantar teu nome, com suas folhas de cobre.

 

 (Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada)

 

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Jose-Saramago_061810_300.

 .

Quando a vida está difícil e está.

Quando os sonhos vão se diluindo no ar como bolhas de sabão e estão.

Quando não encontro serenidade em mim e me sinto desorientada entre meu mundo e o no qual vivo e estou.

Quando a tristeza toma conta das faces como uma nuvem à frente do sol e está.

Quando o querer que tudo se finde para começar novamente e será.

Quando me olho no espelho e não mais me vejo, debruço-me sobre teus livros, buscando um sentido para tudo, naquelas tuas palavras que tanto clamaram justiça e humanização deste animal dito racional que todos somos e não somos.

Cai-me às mãos esta obra preciosa que deixaste para tocar meu coração em momentos precisos, como agora.

E de um só fôlego leio O Conto da Ilha Desconhecida.

Só assim consigo me reencontrar, perdida que já estava do outro lado, cambaleando no escuro desta realidade que me assusta, a toda hora, em cada respirar como se último fosse.

Somente tu é capaz de novamente me dar vida, brotar em meu ser a lírica da existência.

Justamente no dia em que foste embora em busca de novas primaveras, em paisagens onde ser é apenas uma condição de luz.

A ti, Mestre Saramago, meu amor eterno.

 

 

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Além de guardá-lo em mim, trago-te neste instante entre minhas mãos.

As palavras correm ligeiras pelas minhas retinas e os sentimentos afloram, as lembranças voltam tão claras e nítidas como se o trem da memória estivesse passando pelas estações, pelas paisagens campestres, sob as mesmas nuvens de um dia de uma viagem interior.

Tu estás comigo e me sorris e eu te agradeço aquele momento exato em que decidiste compartilhar tua alma com a humanidade.

 

Observando tua expressão, teu meigo sorriso, tua personalidade  presente nas curvas de tuas sobrancelhas, o aceno desenhado no ar por tuas mãos, sinto-o ao mesmo tempo que frágil, um gigante a se identificar, sem temor algum, em cada vírgula ausente, em cada aspereza necessária, em cada palavra repleta de verdade.

Sinto o homem coerente e preciso e, logo em outro instante, alguns parágrafos à frente, o menino… aquele a correr pelas ruas de Azinhaga, até chegar a alguma figueira e em sua sombra descansar, sorrindo das imagens desenhadas nas nuvens, a sentir o cheiro do mato misturado ao da saudade.

 

Trago-te em minhas mãos (e sempre estou mais perto de ti  quando se aproxima a data de teu aniversário – tu me atrais) e, em uma página de número qualquer, identifico-me tanto com tuas palavras, essas que fazem meu coração se agitar, como se minhas fossem (perdoe-me a ousadia…)

 

“Sou um camponês que se disfarça suficientemente bem para poder viver na cidade sem olharem muito para mim”.

 

Faz-me lembrar daquela que fui quando um dia da cidade do interior aqui cheguei e da que agora sou, vivendo em um mundo que nunca pensei.

 

Hoje, na véspera de teu aniversário, arrumo minhas malas para resgatar em mim, mais uma vez, essa que encontrei em tuas palavras… mas antes de ir quero aqui deixar a teus pés, aquela parte do meu coração, da minha razão e do meu amor, aquela parte que pulsa somente por aqueles que, como tu, dão sentido à minha vida.

Tu que trazes no nome, o nome de uma planta que serve de alimento para os pobres em tempos difíceis; tal como vivemos agora, digo eu, pobres da verdadeira cultura em tempos de valores distorcidos.

Aqueles poucos, como tu, eternos.

De tua aprendiz,

Isabel

 

 

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