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Posts Tagged ‘morte’

Jose-Saramago_061810_300.

 .

Quando a vida está difícil e está.

Quando os sonhos vão se diluindo no ar como bolhas de sabão e estão.

Quando não encontro serenidade em mim e me sinto desorientada entre meu mundo e o no qual vivo e estou.

Quando a tristeza toma conta das faces como uma nuvem à frente do sol e está.

Quando o querer que tudo se finde para começar novamente e será.

Quando me olho no espelho e não mais me vejo, debruço-me sobre teus livros, buscando um sentido para tudo, naquelas tuas palavras que tanto clamaram justiça e humanização deste animal dito racional que todos somos e não somos.

Cai-me às mãos esta obra preciosa que deixaste para tocar meu coração em momentos precisos, como agora.

E de um só fôlego leio O Conto da Ilha Desconhecida.

Só assim consigo me reencontrar, perdida que já estava do outro lado, cambaleando no escuro desta realidade que me assusta, a toda hora, em cada respirar como se último fosse.

Somente tu é capaz de novamente me dar vida, brotar em meu ser a lírica da existência.

Justamente no dia em que foste embora em busca de novas primaveras, em paisagens onde ser é apenas uma condição de luz.

A ti, Mestre Saramago, meu amor eterno.

 

 

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Incomoda-me demais

crianças que sofrem física e emocionalmente

Incomoda-me demais

animais que são maltratados

Incomoda-me demais

idosos que são agredidos

Incomoda-me demais

jovens que são mortos à revelia

Incomoda-me demais

meninas que se vendem nas esquinas

Incomoda-me demais

gangues, torcidas, traficantes

Incomoda-me demais

corrupção social, política, religiosa

Incomoda-me demais

músicas e letras medíocres

Incomoda-me demais

gritos, brigas, discussões infindas

Incomoda-me demais

ver um livro estraçalhado rolando pela rua

 

O que me faz concluir

que estou fora de lugar porque

o que não me incomoda

são encantamentos que não existem mais

 

 

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32

32 Mortos neste final de semana.

 

 

 

 

Para quem preciso pedir permissão

 

 

para poder sair desta prisão

 

 

domiciliar que se transformou

 

minha casa?

 

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Quero morrer esquecida

da política tirana que precisei engolir

quando se jurava igualdade

 

Quero morrer esquecida

dos preconceitos porque passei

por ser apenas uma mulher

entre burgueses engravatados

 

Dos desamores porque sofri

dos amores que sufoquei

do último despojado

de sua condição de primeiro

 

Quero morrer esquecida

das palavras que cortavam

como canivetes afiados

meus sonhos

 

Da mesquinhez

mascarada de verdade

a dizer sobre mim

o que nada sabia

 

Quero morrer esquecida

me pensar uma borboleta

um grilo da mata

uma criança

 

Sorrindo para as pontas

de meus dedos

arrastando um lençol leve e branco

como se fosse um anjo

a me acompanhar

 

Esquecida

de que um dia

lembrei de esquecer

 

 

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Logo cedo, a primeira providência que tomei, mesmo antes do café, foi ligar para o CBDC; para quem não sabe, Comando dos Bandidos Donos da Cidade, para pedir permissão para sair de casa.

Preciso abastecer minha casa de alimentos e também de produtos de higiene pessoal e de limpeza.

 

Perguntei com um pouco de receio se poderia aproveitar a saída, para dar uma chegada rápida ao Mercado Municipal, para comprar frutas e flores.

O CBDC permitiu que eu comprasse frutas, flores não.

Pedi também para dar uma volta até a Praça Buenos Aires onde, em épocas tranqüilas, eu costumava ir à tarde para ler, escrever ou pintar, ao que permitiu, mas sem livro, caneta ou lápis nas mãos.

 

Ordenou que eu usasse óculos escuros, o mais escuro possível, para não ver com clareza a beleza da natureza e, se por acaso eu tivesse vontade de cantar, que emprestasse a mordaça de algum pitbull que por lá estivesse a brincar.

Ah! o CBDC também me orientou a não falar e muito menos a sorrir para qualquer pessoa que por ventura cruzasse o meu caminho.

Também me ordenou para não mudar de itinerário sem aviso prévio.

 

Alertou-me de que não adiantará atravessar as ruas nas faixas de segurança e nos sinais verdes; haverá sempre componentes do CBDC trafegando pela cidade, prontos para cometerem barbáries, as piores possíveis.

E, por fim, que não adiantará eu segurar com firmeza a bolsa junto ao corpo; quando eu menos esperar o CBDC a arrancará de meus ombros e se eu resistir, azar o seu, disse ele em tom debochado.

Depois desses apartes que me deixaram bastante tranquila e relaxada, deu uma sonora gargalhada, dessas de filme de terror, e me informou que eu tinha permissão para sair, mas não garantia nada que eu retornasse; e desligou o telefone proferindo costumeiros palavrões.

 

Diante do exposto, resolvi não sair mais.

Faz cinco horas que estou tentando cancelar minha saída, mas a linha só dá ocupada.

Só parei uns minutos para tomar um copo de água e olhar, com medo, pela janela, para ver se o tiro que ouvi foi mesmo aqui por perto.

 

Se eu não conseguir cancelar é bem capaz que invadam minha casa, me intimidando e humilhando por eu ter pedido licença e não ter saído.

Para não perderem a viagem, quebrarão tudo o que virem pela frente; levarão tudo o que encontrarem de valor.

A minha vida para o CBDC não tem o mínimo valor, mas se estiverem um pouquinho só invocados e ficarem irritados, também a levarão.

 

Será o fim da brincadeira.

 

 

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Revés

Onde estavas quando

como um golpe

a noite chegou

Quando o punhal rasgou-me as plantas dos pés

tornando-me uma inútil caminhante 

Onde estavas quando meus dedos foram roídos

e não pude mais escrever cartas de amor

Quando minha boca foi costurada com agulhas envenenadas

e então não soube mais dar um beijo

mesmo que de adeus 

Onde estavas quando meus olhos foram cegados

com imagens dantescas

e por necessidade suprema

desesperadora

precisei involuir involuntariamente

para que eu me sentisse um feto

com esperanças de futuro 

Onde estavas quando meu corpo foi violentado e

como tempestade

foi arrastado

varrido de qualquer sonho possível

para o nada absoluto

Onde estavas quando meu barco foi a pique

mergulhando no submundo do oceano

Hoje as marés trazem destroços de velas

de cordas

de sonhos sufocados

de gritos inúteis

O leme mergulhou na escuridão

junto à âncora

a conviver com o inviável

Não sei onde estavas

mas agora não importa mais

 

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Oco Eco

  

 

Sinto uma profunda dor dentro de mim

Morre-me a alma e eu não sei por quê

 

 

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