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Posts Tagged ‘mulheres grávidas’

Nascera com esse dom.

Foi com a mãe visitar a vizinha, para ajudar a tricotar o enxovalzinho dos bebês que estavam por vir.

Mal chegou e vendo aquela barriga imensa, começou a rir e a dizer Mamãe, dona Matilde engoliu minha bola, aquela que sumiu ontem lá do quintal.

A mãe, meio sem jeito, explicou que ali dormiam dois bebês que logo logo iriam acordar.

A criança pediu para colocar suas mãozinhas delicadas de cinco anos de idade na barriga da futura mamãe, o que foi atendida de imediato.

Foi então que, com as mãos no ventre, seus cabelos começaram a se eriçar, tornando-se uma imensa cabeleira loura, o que deixou todos os presentes alarmados, surpresos, diria até que temerosos…

No instante seguinte nova transformação: os cabelos começaram a desarmar à medida que se encaracolavam, como cabelos de anjos barrocos.

E, como se não bastasse, novo susto: a feição da criança foi se modificando, os olhos de cor de avelã passaram a verdes, o rosto afilado, um brilho intenso nos olhos e uma expressão meio cínica nos lábios, diga-se de passagem, nada normal que se possa perceber no rosto de uma criança.

No outro instante, tudo se normalizou como num passe de mágica, como se nada houvera.

E a criança parecendo divertir-se disse Mamãe, são dois meninos! Como assim, meu bem!?! É, são dois meninos de cabelos enrolados e olhos claros; um é bom e o outro mais ou menos.

O que aconteceu com a futura mamãe não vem agora ao caso, mas quando as crianças nasceram eram tal e qual havia descrito a criança.

Foi esta a sua primeira manifestação.

A partir desse dia formou-se uma fila interminável de mulheres grávidas à sua porta e como a família passava por dificuldades financeiras, o pai, tesoureiro na empresa em que trabalhava, resolveu contabilizar as visitas.

Às vezes quando estava indo à escola e via uma mulher grávida, atravessava a rua correndo e, colocando as mãos na barriga dela, fazia sua previsão; tudo escondido do pai porque havia muitas mulheres pobres naquela cidade.

O tempo foi passando, a criança crescendo, simples, delicada, doce, até que um dia tornou-se uma moça muito bonita e inteligente; digamos que um pouco diferente das demais, pois à medida que o tempo passava ia aprimorando seu dom, capaz de manifestá-lo já nos primeiros meses de qualquer gravidez, ou melhor, nas primeiras semanas, como fazem os cálculos os médicos.

Num dia de outono perdeu seus pais.

Num dia de inverno enviuvou sem chegar a ter filhos.

Num dia de primavera foi morar com a irmã que havia tido um belo menino.

Ajudando-a a banhar o garoto e resvalando naquele pênis tão pequeno que mais parecia um dedinho de criança, seu dom se manifestou de forma diferente; agora retratava em seu rosto não só o lado físico do garoto, mas sua personalidade, trazendo à tona alguma passagem importante do seu futuro.

A irmã, vislumbrando uma situação ainda mais promissora, resolveu alardear e contabilizar, como o pai, aquela nova inspiração, não se importando com o que vira no rosto da irmã.

A fila interminável de homens que se formou à porta da casa era maior que a de mulheres; tão grande, que foi obrigada a dar uma assessoria à irmã, que já não estava dando conta do recado sozinha; na verdade debatia-se todos os dias, quase que o dia inteiro, naquele mar leitoso e caudaloso que a cercava.

E foi assim que as duas, por pura incompetência  administrativa,  prostituíram-se.

 

 

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