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Posts Tagged ‘noite’

Renovação

 

A noite passada

não é hoje

 

Sabes para onde estás indo

ou apenas voas

para fugir do desconhecido?

 

Considere os pássaros

eles sabem para onde estão indo

ou apenas voam sem rumo?

 

Sentes que não há nada a aprender

a procurar

não há mais nada a viver?

 

Voar tão alto, sem propósito

morrer congelado

onde já não há calor, nem luz

 

Não lute contra tuas asas

aceite teu dom

e faça dele tua mágica de ser

 

Entre um amanhecer e outro

há descobertas

que ainda te farão sair do chão

 

 

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Esperei por você a três dias e três noites da data conforme combinamos.

No primeiro dia choveu pela manhã e os carros que passavam rente à calçada respingaram alguma água da poça no meu casaco, aquele que comprei somente para ir encontrá-lo.

Mas não liguei porque estava tão feliz… um pouco ansiosa,  é verdade.

À noite vi na curva daquela rua que não sei por que me parece tão familiar, aquele ônibus antigo, de um verde que não se vê mais.

Parando no ponto, senhoras com chapéus um tanto exagerados desceram e também senhores de bengalas com cabos de prata e anéis de doutor a exibirem nos anulares.

Como sabemos você não veio, senão não estaria escrevendo neste instante, correndo o risco de minha carta não encontrá-lo caso você tivesse resolvido vir ao meu encontro.

 

No segundo dia o céu estava muito limpo e não sei por que me senti mais leve; na verdade senti sua aproximação, como se lá na esquina você já estivesse.

Pedi para um garoto comprar um lanche, receando deixar a parada de ônibus justo no momento em que você pudesse chegar.

Meio penalizado, o garoto me fez companhia enquanto eu comia, contando-me uma história que não entendi muito bem, do irmão que se alistou na marinha sem sequer saber nadar.

À noite abriguei-me debaixo da cobertura do ponto e como movimento não houvesse, pude até deitar-me no banco, esticando minhas pernas um pouco cansadas.

A barra do meu casaco já havia secado, embora tenha ficado suja.

 

No terceiro dia o sol chegou cedo, os trabalhadores também.

Alguns, já me reconhecendo, cumprimentaram-me.

Quando outro ônibus verde e antigo virou a esquina, dei um salto do banco, um jeito nos cabelos, um batom nos lábios e lembrei-me de colocar no rosto o mais doce sorriso que sabia dar.

Desta vez não desceram senhoras, senhoritas ou senhores.

Muitas crianças fazendo algazarra, desenhando gestos rápidos no ar.

Esperei até o último passageiro e nada de você.

Será que me enganei na data, no mês?

Será que aconteceu algo a você que não sei?

Será que no meio da viagem você desceu erroneamente em outra cidade?

Ou será que você desistiu…

As interrogações eram tantas que, para que não me atrapalhassem os passos, foi necessário guardá-las nos bolsos de fora e de dentro do casaco.

As que sobraram guardei-as na bolsa e em meu coração só couberam as reticências.

À noite pensei em dar uma corrida até uma cabine telefônica para ligar para sua casa, mas além de correr novo risco de você chegar e não me encontrar era quase certo que ninguém atenderia.

 

No quarto dia desisti.

Já não me sobravam energias, nem alegrias e nem esperanças.

Mas mesmo assim passei pelo correio para, quem sabe, pegar algum telegrama.

Nada.

Cheguei em casa e, de cansada, deitei no sofá e adormeci de roupa e tudo, e tudo significa de sapatos também, como dormem os mortos.

Depois de despertar meio assustada, tomei um banho demorado como quem lava mais uma vez a alma e resolvi escrever para você, querido meu.

 

Nesta altura dos acontecimentos, já não sei mais se gostaria de ter notícias.

Amanhã levarei meu casaco na lavanderia e quem sabe, por acaso, dê uma passada no ponto de ônibus.

Quem sabe no correio também.

Quem sabe.

Quem sabe eu vá embora, assim como fez você, mas não para tentar encontrá-lo e sim, para continuar a viver, visto que o que me resta é apenas a vida.

Mando-lhe um beijo que já não é mais saudoso; apenas um beijo, querido, que acho que também não posso mais chamá-lo de querido meu.

Mandei o garoto levar seu guarda chuva e deixar lá no ponto do ônibus.

Talvez, caso você venha, possa estar chovendo.

E depois de ler esta carta, na sua vida também.

 

   

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Anoitecer

Quando amanhece

esqueço-me

no travesseiro morno

e silencioso

 

Quando chove

não me encontro

confundida que sou

com a enxurrada que corre a esmo

 

Quando faz sol

ignoro-me

não há luz própria em minhas palavras

nem nas de amor

 

Quando anoitece

despeço-me

e adormeço em teus braços de nuvem

em teus olhos de vento

 

Nada mais que resta

existe

 

 

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Não me faças lembrar

que tiveste outras

antes de mim

 

Peço-te, acolhe-me

como se eu fosse a primeira

e a única

a invadir tuas noites

insones

convidando-te a dançar

 

Brinca comigo

de colar em meu corpo

estrelas brilhantes

que eu colarei em teus cabelos

os beijos que sempre quis te dar

 

Não me faças lembrar

que enquanto sonhava contigo

tu elegias outra para guardar

com carinho e calor

a tua vida

 

Não me faças lembrar

que depois do dia vem a noite

a noite que sangra

porque depois do amor

vem o adeus

mãos vazias num tempo

de carinhos esquecidos

 

Não me faças mais uma

apenas brinca comigo

como brincam aqueles que se amam

pela primeira vez

 

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A saudade chega assim

sorrateira

silenciosa

 

Penso em dormir

quando a noite se mostra

e ela chega

e como fere fundo

a foice, a faca

até sangrar

 

Dói tanto

impossível deter

o pranto

 

A tristeza me invade

vontade de tua voz

tuas mãos

teu sorriso ainda que triste

 

E o sono se esvai

a noite avança

o pranto não cessa

completo abandono

 

Depois que te vi

os dias que passo longe

não existem

são abismos escuros

profundos

 

Preciso de teus olhos

nos meus olhos

preciso da tua luz

 

Penso em mandar-te

uma carta de amor

mas não sei como fazê-lo

nem sabes que morro a cada ausência

 

 

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 Espero a noite chegar.

Vislumbro o vulto silencioso do universo.

O sol se põe forte e vermelho, como imagino as tardes em que suas energias se reunem para traçarem novos trajetos.

Os prédios começam a acender como se fossem árvores de natal, presépios, presentes… 

Espero a noite chegar.

O céu está limpo, mais azul, mais calado.

Vasculho sua profundeza em busca da primeira estrela.

Sei que vou vê-la a qualquer momento, como se fosse o olhar risonho de minha mãe vindo me beijar (preciso tanto de ti, hoje, minha mãe…) 

Um dia suas mãos de raio vão me alcançar, eu sei.

Sei também que me levará a passear pelas nuvens, pelos mundos e poderei contar-lhe do meu amor.

Assim abraçadas, nós duas continuaremos a nos confidenciar como antes.

Ah! lá está ela me sorrindo! 

A noite chegou.

 

 

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Primavera

 
 

 

 
Continuo procurando entre os escritos
um pedaço de papel
uma lembrança querida
não encontro

 

Um achado da memória
que foi perdido em algum canto
caderno ou gaveta

 

 
Começa parece-me que assim
Sinto que ainda falta em mim uma primavera 
 
Apesar de muitas eu ter vivido
poucas sentido
flores que passaram distraídas aos meus olhos distraídos
vozes de pássaros aos meus ouvidos já surdos
pelos ruídos daqui de dentro da minha cabeça
e do mundo lá de fora.

 

 
Sóis e noites e estrelas que passaram,
voltaram para dizer que ainda estavam,
novamente passaram como passam as horas nos meus dias
achando que não tenho tempo para nada
para mim, para ti
para todas as pessoas que me invadem
os sentimentos 
 
Sinto que ainda falta em mim uma primavera
e quando ela chegar saberei sentir todas as suas cores
saberei de todas as suas flores
do sol, da noite com seu manto forrado de estrelas
dos pássaros, da brisa
do passeio a pé pelas ruas
pela vida

 

 
Saberei das pessoas muito mais
Na certa estarei amando

 

 
Sinto que ainda falta em mim uma primavera
falta em mim uma mão carinhosa que me conduza até ela
e que me faça vivê-la intensamente
minuto a minuto

 

 
Sinto que ainda falta em mim muito mais amor
muito mais, amor

 

 

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