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Posts Tagged ‘olhos’

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Há tanto o que lembrar… da infância, da mocidade, da fase adulta.

Há tanto o que contar… tudo borbulha como se fosse urgente o tempo de recordar momentos de uma só vez.

E com as lembranças emergem as vozes e sorrisos de nossas mães (Anámaria, Anámaria, onde está você? dizia sua mãe); das brincadeiras de teatrinho que fazíamos, das músicas que cantávamos (você nos fazia chorar com a canção do Pobre Peregrino); dos namoradinhos e bailes de gala, onde íamos desfilar nossas alegrias; de nossos passeios pelos jardins de minha cidade, quando você ia passar suas férias levando em sua bagagem as novidades da capital.

Me vem à mente neste instante, uma lembrança tão remota de quando, em sua casa ainda lá na Pires da Mota, vi pela primeira vez uma propaganda do Toddy na televisão e, no intervalo, corremos para a cozinha para fazer o nosso, batido no liquidificador, conforme orientação de seu irmão Roberto.

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No entanto, neste momento, nenhuma palavra reflete meu sentimento presente.

Achei que o silêncio seria a forma mais absoluta de ainda tê-la por perto, posto que o fato tão drástico pegou a todos nós de forma tão brusca, traiçoeira, porém inevitável.

Já trazia em mim o silêncio de uma perda há três dias, agora acrescentada de mais esta.

Semana de desolação e tristeza.

Por isso, calei e profundamente senti aquela dor que sente somente aqueles que, esperançosos de um tempo melhor, não têm a chance da presença, da palavra reconfortante, do sorriso último.

Mas ontem, prima querida, fiquei a me interrogar se era você mesma quem vi sentada à nossa frente a sorrir e (veja só!) com seu alicatinho de cutícula nas mãos, a cutucar os dedos?! levava-os à boca e sorria para nós.

Foi você mesma quem vi envolvida por nossos sentimentos de amor e luz, no centro daquele templo, onde estávamos reunidos na sua presença de paz e de certeza do caminho que traçou para seus pés?

Junto à música ouvi seu riso, sua voz a alcançar notas tão altas, afinada como sempre foi, como um pássaro maravilhado pela luz de sua própria natureza.

Foi você mesma, querida Ana, sei que sim!

Da mesma forma que há décadas atrás comigo conversou e que, pela primeira vez, me fez pensar em buscar a espiritualidade dos e nos fatos, das e nas pessoas e, em mim mesma.

Você me incentivou e ajudou a descerrar o primeiro véu; foi quando a vida começou a me parecer outra, mais profunda, com um sentido mais intrínseco que até hoje busco entender, assimilar e nele me situar.

Aqui, diante desta rosa, símbolo de sua alma, eu a reverencio pela pessoa incrivelmente linda e doce, batalhadora e persistente, alegre a altruísta que foi, como lembrou nossa prima Marcela de que você, querida Ana, sorria pelos olhos.

Mas eu a reverencio principalmente por ter, um dia, me tomado pelas mãos e mostrado que a vida é muito mais do que vemos, do que sentimos e entendemos; que a vida é maior e melhor quando mergulhamos nas buscas, abandonando a superfície, descobrindo na interioridade a diferença entre estar e ser.

Nossos telefonemas cessam; não ouvirei mais sua voz suave, sua risada, seus anseios, seus estímulos e também suas dúvidas, mas nossa comunicação permanecerá, talvez agora por sonhos ou de alguma outra forma.

Você atingiu seu ponto de breve descanso, enquanto sigo pelos meandros do caminho que escolhi, trazendo a certeza de que em nenhum momento você esteve só, como não está agora e nunca estará.

Há tanto o que lembrar… minhas irmãs e primas contariam outras passagens, mais engraçadas, divertidas, porque você imprimiu marcas diferentes em diferentes pessoas.

Há tanto o que contar… quem sabe um outro dia; hoje quero simplesmente falar do meu profundo amor por você.

Vai em Paz, querida prima, que tudo está feito.

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Templo

vermelho e branco

Quando a rubra moça

saiu da igreja

chovia

breviário junto ao peito

olhos baixos

apenas o farfalhar da saia

em volta do corpo ouvia

 

Chovia no tempo

nas incertezas

dos pensamentos sensações

dos passos a dar

 

Sabia que seu templo

ruiria ao mais brando vento

areia movediça

malícia

 

Mas o rapaz é tão doce

cabelos como de anjos

brilhantes como sol a pino

de mãos suaves e mornas

não consegue deixar de fitá-lo

 

 

Pensou com assombro,

Deus é injusto comigo

como pode querer para seus serviços

somente para seus serviços

esse anjo que por certo

no silêncio da noite

despe suas asas

e dorme nu

 

A rubra moça tropeça numa poça d’água

molha os pés molha as roupas

molha os olhos

molha-se nas imaginações…

imediatamente se redimi,

Perdão, Senhor

 

 

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Trapos

 

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Se as dores miúdas da vida

vão sendo costuradas pelo tempo

é por isso que se morre toda enrugada?

 

E a falta de movimentos

quando falta

a falta de dentes

quando falta

e a falta de brilho nos olhos

quando falta

significam cortes

impossíveis de cerzimento?

 

E o que é um último aceno

senão a provocação da pequena brisa

espantando sombras desamores

e filhos inexistentes

que te rondaram por toda uma vida?

 

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Perdão


Perdoe-me amor

por invadir tua vida

sem me anunciar

sem sequer perguntar

se por aquela porta que aberta estava

eu poderia entrar

 

Se me recebeste em tua vida

por pura falta de jeito

em me dizer

que aquela sala iluminada

aquele vaso de flores

não eram para me esperar

 

Perdoe-me amor

se me acostumei amanhecer

olhando teus olhos

cravados em minha alma

e as hortênsias que crescem em silêncio

tão lindas no meu jardim

 

Se quiseres

posso partir de ti

onde um dia cheguei

para que vivas

em paz

 

 

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Outra Face

 

  

Tenho diante de mim vários espelhos

Recostada onde estou

vejo em cada um deles

partes de mim

mas um só reflete meus olhos

 

Procuro neles

o sentido dessa indiferença

de brilho ausente

de gesto interrompido

de ternura antiga

 

O que procuro perdeu-se

atrás de algum dos espelhos

de algum prego solto

que rola pelo chão

em busca de outra face

 

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As cores dançam diante do meu silêncio.

A cada acorde, uma forma.

Uma vibração.

As teclas do piano parecem pequenos portais que, se tocados, abrem-se aos meus sonhos, aos meus desejos.

Então sorrio e deixando-me envolver num silêncio ainda mais profundo, penso em você.

De quais cores hás de gostar?

Quais os sons que fazem sentires tua quietude interior?

Que portal deste teclado abrir para te encontrar?

Peço à clave de sol que me ensine o caminho de teus olhos, mas ela apenas me sorri e pede que eu me conforme em sentir em cada nota uma cor, uma imagem tua…

Procuro numa oitava acima ou numa abaixo a cor de teus gestos, a nuance de tua vóz.

Abro os olhos de minha alma para te sentir, sentir mais perto, tão perto que, num suspiro quase que imperceptível, possa sentir tua respiração, teu silêncio, tua presença invisível.

E assim, habitando as pontas de meus dedos e todos os meus pensamentos, convido-o a sentar-se comigo nesta banqueta e acariciar  estas teclas, mansamente, como se de vidro fossem, sonhos que são.

Quem sabe, assim,  possas sorrir e talvez queiras me ensinar em que tecla encontrar a cor dos olhos teus.

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