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Posts Tagged ‘outono’

Saudade IV 

 

Parada diante deste mármore negro e gélido, não consigo pensar em nada.

Meus olhos não conseguem desviar-se de teu nome nesta lápide.

Quero olhar para este anjo de bronze que tão bem esculpido foi, mas não consigo.

Imóvel, apenas sinto o vento frio do outono, as folhas correndo pelo chão, como se tempo houvesse para mais algum pedido ou esperança.

Meus olhos se turvam, mas meu coração está em paz.

Teu nome cravado em minha alma tenta mostrar a razão de todos os sentimentos em que me procuro em vão.

 

 

Penso em nada.

Lembro-me de meu mestre que diz, Para se entrar em estado de meditação é preciso que não se pense em nada.

Não consigo; nada, para mim, possui forma, cor, peso, aroma, calor, dor.

Penso em nada.

 

 

Não te trouxe uma flor sequer.

Sei que sempre dizias que flores foram feitas para serem apreciadas, não para serem colhidas e, assim, mortas.

Mas a natureza, generosa, enfeitou este lugar que ainda penso não ser o teu.

Não trouxe nada.

Nenhuma novidade para compartilhar, alguma dúvida a indagar, muitos dos medos a me rondar.

Nada.

 

 

Veio-me um pensamento.

A primeira coisa que nos dão nossos pais ao nascermos é um nome e, depois de trilhado o caminho que nos cabe, tornamo-nos apenas esse nome.

Esculpido em uma pedra.

Acho que é daí que vem aquele adágio, Vamos colocar uma pedra nisso e seguir em frente.

Uma pedra, um nome; será mesmo só isso?

 

 

A tua passagem por minha vida hoje me parece um sonho.

Quando foste embora, adormecemos os dois; tu do lado da tua nova descoberta, eu aqui seguindo ao lado de meus passos, fazendo-me de mansa para brincar de aceitar situações.

Perdas.

Sonhos em vão.

 

 

Tiro a luva da mão direita e atiro um beijo para o teu nome, é apenas o teu nome que ali está, eu sei.

Um beijo de saudade, de carinho, de dor, de vontade de ouvir novamente tua voz, teu riso, tua postura de príncipe que sempre foi.

Deixo que as folhas de outono permaneçam sobre o mármore; já não precisas de adornos porque tu és a própria luz, embora o céu esteja cinzento e comece a chover.

 

 

Abençoe-me, é só o que peço, e olhes sempre e um pouquinho para mim.

Preciso tanto do teu amor para poder prosseguir.

 

 

 

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Preciso de paz, minha mãe

para fitar tua imagem

na moldura dourada do tempo

 

Só assim

ao entardecer nas teclas deste piano

conseguirei fitar tua doçura

 

O sorriso leve

na tua boca vermelha e desenhada

delineando os desejos de meu pai

 

Teu uniforme de normalista

tuas iniciais bordadas na blusa

a mocidade apaixonada brilhando nos olhos teus

 

Olhavas para quem, minha mãe

quem roubava teu olhar

fazendo-a mostrar apenas teu delicado perfil

 

Preciso de serenidade, minha mãe

para encontrar-te nesta noite de outono

mas consigo apenas morrer de saudade

 

 

 

 

 

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Naquela tarde de outono Sofia resolveu escrever uma carta de amor para ninguém.

Escolheu um envelope de cor suave.

Fechou-o com um decalque, uma pequena borboleta azul.

Saiu à rua segurando-a nas pontas dos dedos e, num descuido proposital, soltou-a a revelia do vento que começava a soprar.

Quando a ouviu bater no chão sentiu sua alma angustiada, mas também sentiu  esperanças.

Correu para casa, postou-se à janela para observar se alguém a recolhia.

Sofia viu sua carta de amor voar de lá para cá, sujar-se, molhar-se.

Aquela dor lancinante no peito persistia enquanto passantes desatentos a pisavam, rasgando-a, tornando-a pedaços de papel a rolar pela rua.

Sua carta de amor reduzida, cruel verdade, a palavras dilaceradas.

Mas não desistiu.

Na tarde seguinte, ainda outono, Sofia reescreveu sua carta de amor para ninguém.

Na mesma cor suave, fechou o envelope com um decalque, desta vez um delicado e pequeno girassol.

E novamente soltou-a na rua e voltou à janela mais uma vez.

A noite veio, fria, enevoada.

Sua carta, silenciosa.

O dia chegou aos raios de um sol tímido, branco.

A carta, em aflita solidão, ali permanecia.

Sofia, na janela, a confirmar sua desesperança.

Foi quando ele surgiu.

Vinha cabisbaixo, triste, falando sozinho ou cantando, não sei.

Parou de repente e, com um brilho diferente no olhar, ficou por um tempo estagnado como se houvesse encontrado um tesouro.

Com o envelope a brincar entre os dedos, meio surpreso, meio intrigado, sentou-se no meio fio da calçada, abriu-o e leu, primeiro de um fôlego só e depois lentamente, aquela carta de amor.

E chorou.

Chorou por um tempo sem fim, sem que algum passante se importasse com seus soluços e seus gestos tardios.

Ainda com os olhos marejados, tirou um lápis de cor de seu bolso esquerdo e escreveu alguma coisa no envelope, junto ao girassol.

E se foi.

Com a carta de amor em seu bolso, junto ao coração e a outros lápis que costumava carregar sem saber ao certo porquê.

Sofia desceu em desabalada carreira pelas escadas, pegou o envelope do chão, leu-o e, com o coração a sair-lhe pela boca, procurou-o com os olhos em meio à multidão.

Mas ele já havia sumido, com a mesma maestria com que havia aparecido.

O certo é que depois daquela tarde Sofia nunca mais conseguiu permitir a entrada de outro em seu coração.

Tentou, mas aquele momento foi profundo e mágico, foi mais forte que sua simples vontade de querer outro alguém.

Muitos outonos passaram.

Outro inverno chegou.

E o envelope continua, com aquela caligrafia firme e terna, guardado em sua caixa de lembranças, adormecido em seu coração.

Para sempre.

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Palavras que o vento traz com as folhas de outono

incessantes

 

Sussurram invernos em meus cabelos

e saudades de acenos

que lamentam lembranças

 

Contam segredos de silêncios

de abraços inacabados

de beijos invisíveis

 

Cravam lágrimas no olhar

que se atira distante

como pedra no lago

 

Vibram na água do tempo

como carícias

depois submergem

e se esquecem

 murmúrios…

 

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Outono

 

 

Meu amigo João, conversando comigo ao telefone, certo dia disse-me que havia um outono em minha voz.

Engoli o pranto e num esforço supremo lutei para não vacilar.

Não poderia entristecê-lo ainda mais.

Não poderia entristecer as pessoas que amo, não poderia.

Por esta simples razão tenho passado tempestades de neve sozinha.

A vida tem se mostrado tão cruel com a fragilidade do ser, que não posso pedir que se exponham ao gelo e ao vento comigo.

Sei que alguns se solidarizam, mas nem todos possuem fogueira e água para se manter.

Tento aquecer-me  com  lembranças e saudade.

Tento fincar os pés no chão para que o vendaval das mentiras e dissimulações não me arraste e me arrase por completo.

Tenho tentado, amigo João, tenho tentado.

Meus dedos doem, o frio os queima e é por isso que não tenho mais escrito com tanta frequência.

Você me pede uma carta de próprio punho, para matar a saudade de dias em que fomos felizes, crianças felizes, crescendo ao pé da jabuticabeira ou embaixo do caramanchão, como se fôssemos dois pequenos girassóis a descobrir a luz.

Tenho tentado, amigo, mas minha vista anda ruim, turva; às vezes quando saio a caminhar, onde eu via flores e jardins e pássaros, hoje só vislumbro vultos silenciosos, tristes e cambaleantes.

Meu estômago dói, pois a seiva que me sustentava se esgotou, junto ao último por do sol.

Meu coração não bate mais, apenas rebate a solidão.

Porém em minha mente brotou uma tênue luz porque, pelas suas palavras, amigo, pude perceber que ainda existe em alguma região inexplorada, uma ponte que me pode levar a um lugar enfim.

Se você acha que no tom de minha voz há um outono é sinal que já estou conseguindo sair deste inverno.

Talvez um dia nos encontremos amigo, talvez, e entre uma taça de vinho e um doce sorriso eu possa te contar das montanhas que precisei escalar para aprender conter o pranto e apenas ouvir, sorrir e silenciar.

 

 

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Outono… brisa suave

vento e fitas nos cabelos

vento e sorriso no rosto

sol branco, luminoso, acolhedor…

uma alegria não sei de quê no ar!

Lembro de meu uniforme de gala impecável e na mão direita, com uma luva tão delicada como se de vento branco e sutil, lá estava eu a levar minha mãe pelas ruas, entre as folhas que caíam das árvores, bailarinas do tempo, entre os raios do sol simplesmente a refletirem vida.

Na verdade era ela quem me levava pela mão, para mais um dia de aulas lá no colégio das Marcelinas, para as quais meu avozinho ensinou Português.

Lembro do sorriso de minha mãe que, para me distrair, contava alguma história, algum acontecimento porque, na verdade, ela sabia que eu não queria que minha mão direita largasse sua mão esquerda.

Eu não  queria ir ao colégio, queria ficar com ela, fazer perguntas  ou apenas olhar para ela, sentir o calor de sua mão; eu queria ser ela, eu queria ser feliz como ela!

Guardo até hoje uma impressão profunda daquele momento: além do timbre de sua vóz que nunca esqueço, uma sensação de paz, de frescor, de doçura, de alegria, de curiosidade e de amor, tudo ao mesmo tempo, dela por mim, de mim por ela, enquanto caminhávamos de mãos dadas, em direção à escola!

Há quem diga que o outono é triste; pois é a estação do ano que mais gosto porque, do profundo de meu ser, todas essas sensações voltam e ficam à tona, todos os dias, todas as manhãzinhas, todas as noites.

E é assim que acordo e é assim que durmo: de mãos dadas com minha mãe.

Até que o outono também se vá.

 

 

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