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Posts Tagged ‘pais’

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Gosto de escancarar as janelas para admirar a vista que tenho deste décimo terceiro andar.

Faço meu passeio matinal neste meu terraço, cumprimentando as plantas, as flores do meu micro jardim e também as ararinhas que fizeram seu ninho no vão do telhado.

Depois meus olhos se perdem lá naquela parte da Serra do Mar, na torre que, incessante, pisca no alto daquele pico, o do Jaraguá.

Não vislumbro o Campo de Marte, mas vejo pequenos aviões em curvas descendentes para lá pousarem e repousarem.

Ultimamente tenho ouvido o barulho de helicópteros persistentes e ensurdecedores, com seus imensos holofotes, cruzando os ares que por boa coisa não deve ser, mas isso já é outra história.

Ao entardecer estendo minha rede amarela no terraço, levo comigo um bom livro e o coração aberto a novas emoções.

Há vezes em que apenas fico a cantar… canções que meu pai gostava, que minha mãe cantava e as que têm significados importantes e profundos para mim.

Às vezes paro porque choro.

À noite, já altas horas, coloco uma cadeira no terraço, como vi cadeiras nas calçadas depois do jantar em cidades do interior, e fico observando as estrelas.

Não perco de vista meus pais, meu avozinho, meu irmão João, meu amigo Odair e outras pessoas tão queridas que hoje são estrelas.

Quando é noite de lua cheia, aí então me perco nessa luz que me fascina, que me arrebata e transporta para um mundo mágico, para o qual tão poucos hoje em dia conseguem se entregar.

Bem mais tarde, acompanhada de duendes carinhosos e fadas sorridentes, fecho as portas e as janelas aparentes, portais que se abrem para o mundo exterior, para abrir as de minha alma.

Deito-me entre cobertas macias e fecho os olhos, agradecendo a vida.

Em um lento e profundo bocejo, murmuro algumas palavras desconexas, pequenos sons; é que já me encontro em outra dimensão.

E continuo a sonhar.

 

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Quando a energia elétrica é interrompida, corro ao terraço para cantar com a chuva.

Depois pego o violão e fico brincando com suas cordas, fazendo alguns sons.

Lá maior, lá menor, ré maior, fá sustenido, fora as posições que minha irmã, com seus dedos longos e ágeis, inventou.

 

As lembranças vão surgindo à minha frente como um filme.

Papai cantando e tocando Sertaneja.

Minha irmã Rosa compondo A Ribeirinha.

Nhonhô Cintra, meu avozinho, cantando e tocando O Pé de Jambo, onde todos nós, no refrão, batíamos os pés no chão, cantando: “sai prá lá moleque malcriado e deixe o passarinho bicar sossegado, fazendo isso você não vai pro céu, quem mata passarinho vai pro beleleu”.

 

Como um filme.

Minhas lembranças levam-me em suas asas ligeiras à casa da minha infância.

Mamãe cantando,  Assis rodando o pião a fazer aquele ruído estranho de ventania, João pintando A Abolição e Margarida ocupada em vestir suas bonecas, contando a elas sua história predileta.

 

Quando a energia elétrica do meu bairro se vai é como se eu, de malas já prontas, embarcasse para a cidade dos meus sonhos, dos jardins e bosques floridos e ensolarados, dos bons ares, onde mora meu amigo João, para o qual cantei e toquei tantas canções de amor e dor.

 

Quase perdi o trabalho que estava digitando quando a energia se foi nesta tarde.

Não me importei porque acabara de descobrir que a chuva também é um anjo terno que me  faz reviver.

As lembranças embalaram-me em seus braços e no silêncio que se fez depois.

 

 

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