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Posts Tagged ‘pássaro’

 

 

E o menino continuou a correr pelos campos de centeio, como se pássaro fosse.

Suas mãos tocavam os talos tenros e dourados, como uma colcha macia bordada pelo Tempo, da cor do sonho que sonhara de olhos semi cerrados, antes de entrar, pela primeira vez, em um templo.

Um sonho de vôo pleno onde, num ímpeto de emoção e liberdade, levantava seus braços, ficava nas pontas dos pés como se assim pudesse tocar o céu, sem se dar conta direito de que o Sol já o abraçava por inteiro.

 .

Se fez uma prece, não me recordo, mas sua existência já era a própria prece!

 .

Sentiu o aconchego do silêncio, as mãos da brisa em seus cabelos, o corpo leve a caminhar sentimentos só seus.

 .

De volta à realidade, pressentiu que seu vôo fora marcado no coração e na mente, não sabia ainda por quê.

 .

Mas quando entrou no templo, lá estava esculpida em uma parede de luz, a imagem sublime daquele que, de braços levantados em plenitude infinita, comungara com seu Deus e a Seus pés depositara sua vida, que recebera um dia como divino presente.

 .

E agora o menino está aqui, à minha frente, e eu o vejo agigantar-se solene e poderoso, elevando seus braços aos céus, transmutando sombras em luz, silêncio em sons, mundano em divino.

 .

É o mesmo menino, eu sei.

Apenas se transforma em um guerreiro dourado, para cumprir sua tarefa de Amor.

Depois, volta a ser o menino que sempre foi.

 

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Liberto-os

nas ondas límpidas

assustadoramente calmas

da vida,

tu e ele

navegador e nau

 

Vendo-te partir feliz

a flutuar em águas silenciosas,

acaricio tua imagem

com minha partida

mas consciente razão

 

A vê-lo preso em torturas

e pranto

em minhas mãos

em meus beijos ardentes e irreais,

prefiro senti-lo livre

maravilhando-se com o mar

pássaros, peixes e céu sem fim

 

Liberto-te

de qualquer dor

inclusive das dores vãs

por nada haver

entre meu desejo e o teu

para que possas escolher

e não ser escolhido

por tudo e pelo nada

que nos cerca

 

Não hás de naufragar, eu sei

porque a ti acompanha meu coração

a protegê-lo mesmo à distância

em fracos pulsares

sem não mais detê-lo

 

Já não suporto a idéia

de senti-lo a se debater

entre meus dedos

 

Quero-te livre, pássaro do amor

 

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Poética

A poesia é triste

porque vem da alma

e a alma é triste

porque encerrada no corpo

como pássaro preso no tempo

canta mas não pode voar

até que o aceno o liberte

e assim, finalmente,

possa revoar emoções

 

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      Perdi o controle

dos dias que passam como pássaros

sem volta

das manhãs que terminam

sem antes começar

do sentimento abortado

sem atingir o estado de borboleta

da palavra ouvida como um golpe surdo

de um machado cego

em madeira molhada de soluços

      Perdi o controle

dos passos que passaram

a se descompassar

do riso que se tornou

risada estéril de verdades

do aceno enterrado junto ao corpo

em uma tarde de outono

      Perdi o controle

do pensamento que agora corre vagabundo

pelo crânio, pelos olhos

pela língua morta

em um latim decadente, sem nexo

      Não sei em que momento ele existiu

e se existiu

em que compasso eu o perdi

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Ter Asas

 

 

Quando pego um pássaro nas mãos

sinto como se estivesse

acariciando-te

com cuidado

para que um gesto mais brusco

não venha te assustar

como te assustas com a vida

em certos momentos de tempestade

 

Fico maravilhada com a cor da tua plumagem

com a fragilidade de teus pés

e, no entanto trilhas teus rumos

como a um cuidadoso voo traçado

 

Quando pego um pássaro nas mãos

de coraçãozinho tresloucado

a quase sair pelo bico

é para recuperá-lo do susto de uma batida

e o tempo de ficar bom

 

Depois faz como tu

parte novamente

sem ao menos olhar para trás

 

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