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Posts Tagged ‘perda’

Cena I

No mês passado revi um filme que, com o decorrer do tempo, muito me faz pensar. Sempre.

E por se tratar de um filme americano, surpreende-me pelo seu conteúdo, parecendo na verdade um daqueles filmes ingleses que muita gente não tem paciência de assistir.

Não que eu tenha alguma coisa contra filmes americanos; até que existem alguns bons mesmo.

 

São diálogos (às vezes monólogos) que parecem ter saído de minha boca, de minha alma, de meu estado de espírito que teima em aparentar-se sereno.

Em cada trecho do filme vem-me à mente o sentimento que teço por pessoas queridas, visíveis ou invisíveis; às vezes as duas.

 

O que deixo hoje aqui transcrito é para aquele que desde a minha adolescência deixei entrar por minha porta, tão especial já era, e que até hoje peço para que não saia, simplesmente porque o amo.

“Você me faz pensar na vida.

Você me faz lembrar o que perdemos.

Não é comum ver pessoas sorrindo, só quando sonham e é isso que você faz: pessoas sonharem com o que distante se encontra, levado pelas asas de um tempo que não voltará.

O momento, este sim voltará e se não estiveres presente, tornarei a perdê-lo na escuridão dos tempos.

E a consciência deste instante virá no exato momento em que for tarde demais.”

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Não há muito que dizer.

Tenho receio de faltar-me palavras.

Sobrar-me o pranto.

Mas quero agradecer a você, querido Raul, a inspiração que teve daquele momento de perdas irreparáveis, um dos mais dolorosos de nossas vidas.

 

Como disse a você, morro a cada palavra.

Mas meu irmão, nosso querido João, e nosso querido Eduardo, hão de nos querer sempre vivos, pulsantes, mesmo que varados de saudades.

 

Infelizmente perdi o contato com a Heloísa, mas guardo na memória e nos sentimentos tudo o que de tão terno e importante fez.

 

Com sua permissão, deixo aqui registrado seu poema, sua sensibilidade e magia que foram tecidas cuidadosamente, como traços de uma planta de arquitetura que você executa com tanta propriedade, eternizando aquele momento de profundo amor e de dilacerante e silencioso aprendizado.

 

 

Las Quatro Mujeres

 

 Houve um tempo, sem tempo para quatro mulheres

minutos seculares de lua trocando o sol

rapidamente, sem diferença de tom

 

Suas vidas não existiram nessas noites claras

zelavam decididas, plantadas todo tempo

com as mãos no tempo que ainda restava

aos dois meninos alegres de overdose

 

Nem o menor ruído passou batido

sussurro algum passou despercebido

entre sopas, lençóis, afagos e poesias,

misteriosas, na mágica alquimia,

faziam dos tufões, ventos macios,

de pesadelos, sonhos de ninar

 

Ai dos maus fluidos que ousassem perturbar,

mesmo distraídos, o sono dos meninos!

mais que depressa elas filtravam sonhos,

Elis, Caetano, Bach e violinos

 

Implacáveis, insurgem contra o tempo,

atrasando os ponteiros insistentes,

num tic tac tenso e incessante,

até parar o tempo por instante

 

Zelavam os lentos pingos transparentes,

que gota a gota desciam correndo,

avidamente, para sumir nos braços,

na rápida esperança de criar mais dias.

 

Se entregaram as quatro sem piscar

ao mais bruto dar e sem nuances

e eles beberam tanto dessa fonte

que impossível foi dar o último trago

 

Um dia os dois travessos decidiram ir

para um lugar que só eles conheciam

e o tempo todo guardaram em segredo

 

Buenos Aires, França ou Maresias?

onde seria esse lugar distante?

de malas prontas, passagens marcadas,

piscando um olho, foram de mansinho

 

Mas indecisos, param de repente,

descem a bagagem e pensam num instante:

como sair do ninho dessas deusas

quatro mutantes, lindas, todas suas

e que ainda trocaram suas vidas pelas deles?

 

Debruçadas no leito a doze mãos,

tocaram um barulhento tango, louco de ternura

Tu me Acostumbraste a afagos e docinhos

e Bel, Marga, Rosa e Helô eles beijaram

 

Embriagados em delírios mil e gargalhadas,

os seis deitaram roucos e exaustos

mas só os dois de fato adormeceram

e delicadamente foram mergulhando

num mar de travesseiros brancos e cambraias

 

Superlotados de mãos, enternecidos

do privilégio de ir em mãos macias

devagarinho, nem sequer deixaram

o som das pálpebras quebrar a luz do dia

 

E sorrindo os dois meninos acenaram

com as mãos brincando leves e macias

mas de verdade mesmo, não se foram,

trapaceando toda despedida

 

Como é possível ir de vez embora

se o tempo todo tinham em suas mãos

quatro mulheres que com seus encantos

tinham o dom de amanhecer a noite escura?

 

                                             Raul Isidoro Pereira

                      Março de 1992

 

 

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Metade de Mim

O que falar do Haiti que já não se tenha dito.

Tudo foi abordado, em todos os ângulos.

Mas sinto  algo se esvaindo em mim.

Irrequieta, saí ontem chutando pedrinhas pelas ruas.

O céu já rugia sua tempestade da tarde mas não me importei: a tempestade que trazia dentro de mim era maior.

Por isso, continuei de mãos vazias, olhar grudado no chão, chutando pedrinhas.

Simplesmente.

O corre-corre das pessoas, o barulho ensurdecedor do trânsito, a poluição e os buracos nas calçadas aconteciam ao meu redor apenas como pano de fundo para o meu vendaval.

Quando pessoas importantes na minha vida se foram para uma outra dimensão, eu e meus irmãos, já adultos, sentíamos uma necessidade muito grande em brincarmos de alguma coisa, de jogar varetas, ou dominó ou o jogo do ludo, o que fosse, o que estivesse à mão.

Acho que queríamos enganar a nós mesmos, como se não tivéssemos crescido, como se o tempo não houvesse passado, como se negássemos reementemente e em absoluto mutismo, a perda das pessoas queridas.

Para sempre.

Ontem acordei me sentindo metade.

E tive saudade da outra metade que não sabia ainda aonde estar.

E essa ausência da metade de mim causou-me uma profunda sensação de perda.

Então resolvi sair chutando pedrinhas pelas ruas, pelas calçadas, pelos jardins.

Querendo talvez encontrar em cada movimento um pouco da infância que não vi no rosto daquelas crianças amontoadas como escombros, como embrulhos sem destinatário, numa busca inútil pelos pais desaparecidos.

Para sempre.

Fins de tarde sem fim, como aquela em que a menina segurava uma boneca sem uma perna e sem um olho, com suas mãos sujinhas de terra e de abandono.

Como ela, como todas aquelas com seus olhos vazados de dor e de medo.

Minha criança interior foi ter com elas, a parte que achei haver perdido; foi talvez levar a elas alguns brinquedos, alguns jogos, para que o tempo não as machucasse mais do que mutiladas  já estão.

Talvez possam, juntas, encontrar um pouco de suas infâncias; talvez minha criança possa levar-lhes um sorriso de amor  e  amarrar fitas coloridas em seus cabelos e enxugar a dor de seus olhos, convidando-as a pular a amarelinha na calçada, cujo único objetivo é chegar ao céu.

Em fins de tarde sem fim.

Por isso continuo chutando pedrinhas.

Como moleques chutam latas.

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